sábado, 7 de abril de 2018

Monarquia e fascismo (particularidades e dissonâncias) Parte 1


Falavam-me a propósito da ligação entre a monarquia e o fascismo, defendendo, o meu interlocutor, como o segundo terá emanado do primeiro, tal justificado pelo vazio provocado pela queda da monarquia. O vazio na representação da autoridade acabaria por ser atrofiado numa representação ditatorial. As pátrias, habituadas à personalização de um poder vitalício procurariam assim preencher a ausência de um rei por um Chefe.  E, neste sentido, desenha-se já a ideia que, degenerando, despontaria no fascismo.
Mas é demasiadamente simplista a ideia, pautada numa incremente falácia, pois procura encontrar num poder encarnado num Fhurer, num Duce, num Chefe, a concretização da instituição monárquica, que por sua vez vem encarnada na pessoa do Rei. Esse sistema "ideológico" emanaria consequentemente da instituição histórica ainda que desvirtuado da sua essência. Um poder que degenera para a arbitrariedade, onde a monarquia impõe limites, estabelece prerrogativas, os totalitarimos subvertem na hipertrofia de um Estado que Mussolini orgulhosamente qualificava como totalitário. Ainda que mais por ambição do que propriamente por realização, pois totalitário terá sido o sistema alemão e muito o sistema soviético.
A verdade é que houve monárquicos que se identificaram com esta concepção, o professor António José de Brito e um mesmo Rodrigo Emílio definir-se-iam na máxima "monárquico por princípio e fascista por conclusão". Ainda assim, os próprios procuravam separar as águas, no sentido que António José de Brito atribuía ao fascismo e à monarquia as suas diferenciações, para o filósofo, assumidamente e honradamente fascista, in facto um dos nossos últimos hegelianos, o fascismo seria revolucionário, estabelecendo um absoluto imanente; e a monarquia, contra-revolucionária, procurando um absoluto transcendente. Pierre Drieu de la Rochelle também distinguia o monárquico como contra-revolucionário e portanto distinto do fascista que procurava a revolução. São hipóteses.

A ideia contudo já não era nova e antecede mesmo o próprio conceito de fascismo, i.e., remonta a um período anterior ao da fundação dos "fasci di combattimiento". Teria, primeiro de partir da própria concepção do Estado moderno centralizador. Não deixa de ser verdade que o totalitarismo é um produto da modernidade, um Estado omnipotente e ominpresente que tudo sabe e tudo controla. Um poder que procura a legitimidade nas massas naquilo que podíamos designar, na esteira de Tocqueville, como uma "democracia totalitária", ademais identificada no seu livro "Da Democracia na América". Na verdade a centralização do Estado acaba por ser uma consequência da era moderna (do modernismo?). Aplaude-se, contudo, a visão profética de Tocqueville que caracterizou bem a nossa pós-modernidade com a distância de dois séculos.

Na Revolução Francesa revelava-se já essa primeira experiência de acção e de poder das massas, usando todo um discurso e métodos propagandistas que teriam repercussões no século XX. Logo a França de finais do século XIX explodiu em acessos ideológicos que eclodiriam no século XX nas formas mais monstruosas. As ideologias começavam a ganhar forma, e nesse sentido o fascismo cruzará as duas grandes linhas de pensamento do século XIX: o nacionalismo e o socialismo.
À época, colocava-se o problema entre a tradição revolucionária e aqueloutra contra-revolucionária, isto porque a tradição nacionalista francesa era inicialmente republicana e jacobina, aliás ideias exportadas e copiadas pela Europa em ebulição revolucionária, conquanto atendendo ás particularidades que distinguiam da Volksgemeinschaft germânica, e as diferenças que ressaltavam ainda das nações detidas entre as fronteiras dos impérios como acontecia nos Balcãs e no leste europeu.
Dentro deste quadro reconhecem-se as formas do nacionalismo que originarão o Reich alemão de Bismarck, ou o Risorgimento italiano, reclamando os direitos das nações em afirmar a sua vontade. Consequentemente ao desenvolvimento estatista, identificado a maior centralização do Estado, e em conformidade com a afirmação revolucionária, vem a afirmação de ideais anticlericais. Renan proclamava já esse nacionalismo histórico e voluntarista, numa mesma linha, Gustave Le Bon, George Sorel ou o alemão Robert Michels compreendem que o mito se tinha tornado fundamental na prática política de massas, a "politique d'abord" de Maurras inscreve-se num mesmo propósito, conjuntamente à máxima da "vontade de realização e de poder", onde o fascismo de Mussolini encontrará um mesmo fundamento.
Por sua vez, os movimentos contra-revolucionários católicos e monárquicos apoiavam-se numa ideia que ao fascismo pareceria demasiadamente antiga e ultrapassada. A ideia de história do fascismo não é a mesma de um monárquico que vê preservar a coroa, ou deseja restaurar uma monarquia, enquanto sentido muito antagónico ao da modernidade. A legitimidade monárquica é muito diferente da legitimidade funcional do fascismo, na procura por um poder unitário nesses ditadores da ordem. Tal só se compreende no sentido da história que despertou com os encantadores de multidões, com os líderes carismáticos capazes de seduzir as massas, um Napoleão que bem podia surgir como pronúncio dos ditadores que emergiriam no século XX.

(continua) 

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