sábado, 18 de novembro de 2017

O miguelismo: simbologia e identidade nacional





Mais de noventa anos antes do republicano Junqueiro digladiar, na famosa polémica, a defesa da bandeira azul e branca, (inesperadamente) ao lado dos constitucionais monárquicos depostos, identificando a conjugação como súmula do nosso espírito e destino, apesar de ignorar o elemento congregador (a coroa), outra discussão palpitava nos ânimos, quando a nação batia-se entre a legitimidade de D.Miguel e a usurpação de D.Pedro.

Quando, após as cortes de 1821, os liberais passaram a adoptar a bandeira azul e branca, Frei Fortunato de São Boaventura não deixou de atacar, acusando os liberais de serem "uma facção, que odiando a glória, e honra da Nação, mudou as Bandeiras, o pavilhão Português com o qual fizemos tremer a África, a Ásia, e a América; é uma facção tão anti-nacional, que substituiu aquele estandarte sempre vencedor, sempre glorioso, por outro que não sendo o Português, é o da rebelião". (1)

Contrariando a estética liberal os miguelistas recuperam a cor do laço real: o vermelho, cor da Casa de Bragança. E o próprio laço será recriado como símbolo nacional da união entre o rei e o povo. Aliás, o laço português azul-escarlate fora introduzido em 1796, durante as Invasões Francesas, é usado durante a guerra Peninsular e, por fim, pelos partidários fieis a D.Miguel, enquanto os "malhados" trocam as cores pátrias do laço pelo azul e branco. Mais do que estética é uma afirmação política, mais do que dicotomia é uma representação de força. Observará um certo deputado da época: "os símbolos influem mais do que parece".

Na construção de uma consciência histórica, na concepção de símbolos e hinos, na imagética do poder, na concepção das ideias, o miguelismo antecipou o nacionalismo moderno (2), conquanto invertendo os termos e procurando não "a revolução", nem uma "revolução contrária", mas o "contrário de uma revolução" (nas muito glosadas palavras de de Maistre para a França em convulsão), de acordo com Oliveira Martins e António Ferrão uma "revolução reaccionária", antinomia ou teoria ecléctica não será de todo destituída da sua dimensão ideológica (3).

Se os liberais transportavam um nacionalismo revolucionário, os miguelistas edificaram um "nacionalismo contra-revolucionário", identificando a forte identidade cultural: uma unidade étnica, linguística, religiosa, demarcavam Portugal no contexto Europeu. Ideário determinante, mais do que rei absoluto, D. Miguel aparece como libertador de Portugal. Analisa a este propósito Fernando Campos: "o nosso nacionalismo não precisa de socorrer-se dos mestres franceses da Contra-Revolução, porquanto, graças a Deus, os tem de casa, muito seus, os quais nada devem aos estranhos(...)" (4)

Também João do Ameal identifica esse carácter nacional do miguelismo, verdadeiramente uma "cruzada reaccionária" (5), espírito vivo de regeneração nacional que que no século XX será recuperado pelo Integralismo Lusitano, escreve: "Acho indispensável que se saiba quanto devemos à longa e prestigiosa galeria dos percursores, na luta abençoada do Nacionalismo integral, apoiado na Tradição e buscando nela as lições e os alentos decisivos". (6)

(1) Gazeta de Lisboa, 16 de Junho de 1832. Citado em "D.Miguel", Maria Alexandre Lousada, Maria de Fátima Sá e Melo Ferreira, Círculo de Leitores, 2003.
(2) tese defendida por Armando Barreiros Malheiro da Silva, in "Miguelismo Ideologia e Mito", editora Minerva História, Coimbra 1993 e por Maria Alexandre Lousada e Maria de Fátima Sá e Melo Ferreira (ob.cit.).
(3) Armando Barreiros Mallheiro da Silva (ob.cit)
(4) Campos, Fernando," A Genealogia do Pensamento Nacionalista", Editora:edições relíquia, 2003.
(5)ob.cit.
(6) D.Miguel Sotto-Mayor, "A Realeza de D.Miguel", 2ºedição, com prefácio de João do Ameal.
Daniel Sousa

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