sábado, 1 de abril de 2017

Qual Europa?



Decorreu um congresso em Lisboa, a Sharing & Reuse Conference 2017, mais um daqueles eventos promovidos pelo marketing das grandes instituições a vender um mundo novo.  
Ao encerrar o congresso resistiam apenas quatro portugueses no público, sem cédula que os identificasse como representação oficial, sem nome no governo, sem investidura de qualquer poder, apenas quatro portugueses absorvidos numa sala repleta. Todos aqueles rostos abstractos e distantes ora são gregos, alemães, franceses, belgas, holandeses, checos, finlandeses, espanhóis, italianos, até a Suíça se fez revelar, até os ingleses na senda do Brexit são mais entusiastas do que qualquer ministro ou secretario de estado português.

 Todos esforçavam-se por arranhar o inglês, único mecanismo capaz de permitir a mínima comunicação. Quando penso que Carlos V, na máxima lembrada pela anedota,  falava aos prelados em latim, aos capitães em castelhano, aos artistas em italiano, às senhoras em francês e aos convidados em alemão,  ou que o Imperador Pedro II do Brasil falava cerca de vinte e três idiomas (sendo fluente em treze), ao ouvir a nossa Ministra da presidência,  enquanto lutava por conseguir libertar um verbo anglo-saxonico, quase que impelia à nossa compaixão e deixava um travo amargo de tão baixa categoria. No tempo do congresso de Viena, um Metternich, um Talleyrand, um von Stein, eram fluentes em francês (entenda-se, liam e escreviam correctamente o francês), aquela que se afirmou como a língua franca universal em substituição do latim. Comparativamente acentua-se o declínio ao descobrir que as nossas elites nem o inglês conseguem soletrar. Já as palavras da ministra soaram de forma quase inaudita:"Lisboa uma bela cidade europeia... e claro portuguesa", destarte, revela aquela subserviência com que julgam encantar os mestres.

Depressa os representantes portugueses desaparecem de cena. Enquanto Espanha tinha representantes do ministério das finanças e da administração pública, e outros governos orgulhavam com os seus ministros e signatários, Portugal foi uma sombra, sintomático da nossa periferização e da distancia a que nos condenamos a nós mesmos. Resta-nos o ar de condescendência com que outros povos nos encaram. 

 De resto, ali de tudo se ouviu do discurso tecnocrático, "eficiência", "eficácia", "moderno", "dinâmico", até à exaltação desta abstração europeia. Até fabricaram um  neologismo que encanta os arautos do progresso: "smart government". Pergunto-me se será isto uma nova manifestação do "estado servil", um Big Brother em expansão, ou uma manifestação novíssima da tese hobbesiana do Leviatã? Não deixo de reconhecer o entusiasmo e a capacidade dos governos em procurar uma administração mais eficiente ou mais organizada, capaz de suprir falhas e insuficiências, o tempo dirá se a demanda foi frutífera. Contudo todo aquele discurso de Power Point e gráficos permaneceu vaga, toda a estrutura comunitária funciona como uma carapaça vazia. Ali falta algo de maior, de transcendente, se se preferir, falta uma Verdade. Uma estrutura tão eficiente e ao mesmo tempo fragilizada caminhará (como, de resto, já caminha) para o abismo.

 Portugal, timidamente, lá revelou a maravilha do seu cartão de cidadão, tão bom que até os ingleses já o abandonaram. Para finlandeses, gregos, checos franceses, belgas, holandeses,ingleses, estonios, foi dia de festa pois levaram todos os prémios. A União Europeia vai mesmo a duas velocidades e a distância, para nós, é de anos de luz.

Sem comentários:

Enviar um comentário