domingo, 16 de outubro de 2016

16 de Outubro - execução de Maria Antonieta



Última comunhão de Maria Antonieta na prisão (original:"La Reine Marie-Antoinette communiant dans sa prison") da autoria de Michel-Martin Drolling, cruzando elementos do neoclassicismo característicos do tempo, igualmente transpondo influências do barroco que Drolling tinha conhecido depois de viajar para Roma. Os protagonistas parecem vagar no desconhecido apenas arrimados na dor e no sofrimento, na fé e na salvação, aqui o romantismo do tempo ganha vivacidade. O sofrimento é preenchido pela expressão da fé, descobrindo-se como no traço ecléctico o autor explora os movimentos com uma certa teatralidade. 
Não deixa de suscitar um fascínio temeroso, porém o momento nunca aconteceu. Na verdade a história decorre nos seguintes termos, o padre Magnin, ali retratado, e Mademoiselle Fouché, visitaram secretamente os prisioneiros em Conciergerie no atribulado ano de 1792, o que para todos os efeitos constituía uma empresa perigosa no mais sanguinário período da revolução. Uma vez na prisão conseguiram aceder à cela da rainha (aparentemente com a conivência dos guardas) onde celebraram a missa. Parece pouco provável que tenha acontecido, mesmo que hipoteticamente tenha tido lugar não teria decorrido como Drolling imaginava. 
A temática vivifica a idealidade restauracionista, o gosto pelos acontecimentos históricos explorados na perfeição minuciosa, cada elementos na reconstituição dos trajes e os detalhes mais subtis das expressões, são sagrados ao olhar. Os contrastes claro-escuro são sintomáticos do pathos que explora o momento derradeiro de crise e de fé, ao mesmo tempo o martírio e o sacrifício estudados nos elementos auto-reflexivos e na intertextualidade pictórica que o século XIX explorará de forma tão profícua. A pintura eleva a santidade do acontecimento. Maria Antonieta olha a hóstia nas mãos do padre na busca da salvação, sem suscitar maiores comoções conotar-se-ia à mera identificação de um evento na história. Seria expectável procurar a fidelidade monárquica ao catolicismo, ou o desespero no momento de perdição que os românticos no seu gosto pelo sentimentalismo mais fatalista tanto glosaram. Não obstante a obra é algo mais do que um evento religioso, algo mais assinalável do que o parágrafo histórico, invoca a ideia de redenção e de salvação no seu sentido mais derradeiro. Ademais, a ideia de salvação cristã neutraliza a fatalidade histórica, o momento alcança o estado absoluto, tão superior à mundanidade. Mesmo imaginado constrói-se ao nível do mito e mesmo que historicamente refutável perdura na dimensão infinita do sagrado. É aqui que a eloquência de Drolling supera a mera convenção da arte, a mera perplexidade face à fatalidade da história, o sentimentalismo cristão e a melancolia romântica vão de mão dada. Percebe-se como as opiniões dos contemporâneos foram tão dissonantes, Para Victor Hugo a obra era simbólico do "mau gosto da restauração", para o padre Lafont d'Aussonne constituía um "evento fabuloso", mas certamente a nós recorda, nestes tempos marcados pela fealdade e pelo grotesco, onde a arte se vendeu ao comercial e onde o homem perdeu os laços com o transcendente, como através da beleza se pode conhecer a Deus.

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