sábado, 19 de março de 2016

Similitude e exageros









O Brasil efervesce no desânimo. Lula passou de pai dos pobres a visão completa do mal. Não seráum acaso. O Brasil é um prolongamento de Portugal tal como os Estados Unidos são um prolongamento da Inglaterra. Ambos prolongam a Europa num indefensável sentido controverso, duas nações de dimensões continentais que são a plataforma das virtudes e dos vícios do continente levados ao extremo. Os EUA foram construídos em torno da ideia da common law, na concepção federalista e de liberdade, as comunidades que o construíram relacionaram-se em torno de um Estado de Direito que obedecia ao império da lei, ideias partilhadas pelas culturas protestantes. 
O Brasil cresceu como Portugal, à sombra da Igreja Católica e os jesuítas desempenharam um importante papel no seu desenvolvimento. Enquanto os nomes que os Estados Unidos legaram na construção da sua identidade é encimada por juristas - os Pais Fundadores quase todos terra-tenentes, donos de escravos, alguns maçons, entre a centena de políticos que conceberam a nova República só um era católico. Já o Brasil cresceu no pensamento de homens como o Padre António Vieira, enquanto os Estados Unidos sempre tiveram uma forte reacção ao catolicismo apesar dos católicos, como Tocqueville descreveu, terem tido um papel fundamental. Outro, a família real britânica nunca se instalou nos Estados Unidos como a família real portuguesa no Brasil. 
A unidade do Brasil deveu-se assim à Igreja e à Monarquia. Depois quiseram, com a República, separar-se destes dois elementos, e criaram os Estados Unidos do Brasil. O projecto federativo falhou, não diminuiu, mas pelo contrário aumentou as desigualdades. Gilberto Freyre notaria a incongruência em copiar uma nação protestante (EUA). Os povos católicos têm essa tendência a preferir o que vem de outras culturas (principalmente as protestantes). Freyere notava ainda como o Brasil tendia para se aproximar mais de uma Venezuela do que de uma Suíça e hoje percebemos porquê. Na nova capital (Brasília) Kubitschek tentou recriar o espírito protestante da divisão de poderes, mas não basta uma arquitectura para definir um regime, nem tão pouco para moldar um povo. Falar em continuidade ou estabilidade é uma miragem. Aliás, instabilidade que parece histórica, pensando que as sociedades católicas nos últimos 160 anos têm vivido conflitos intelectuais e psicológicos de uma natureza mais revolucionária do que evolucionária. Devo começar logo por salientar de que tudo o que Portugal, Brasil Espanha, Itália produziram foi copiado dos países protestantes (o Estado de Direito, os partidos, o Parlamento, as ideologias). Podia também dizer o mesmo dos países de cultura ortodoxa. 
O Brasil várias vezes caiu em ditaduras e em cesarismos e agora é incapaz de se reconciliar com o presidencialismo. Têm as mesmas virtudes e defeitos dos portugueses, mas mais exageradamente, em doses mais extasiantes. Até lhes legamos o mito de D. Sebastião que logo foi conduzido ao exagero: em Portugal tornou-se um folclore no Brasil, no século XIX, ia levando mesmo a uma guerra civil. 


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