sábado, 19 de março de 2016

Para que tudo fique na mesma


















Enquanto uma nação protestante dirá:"Não se pode parar o progresso" (You can't stop progress), um povo católico irá retorquir: "É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma". A primeira frase vem dos anos de 1730, exactamente dos Estados Unidos onde então se publicava o Poor Richard's Almanach, lavrado pela sensatez protestante de Benjamim Franklin muito apreciado pelos seus aforismos. A frase, particularmente, ganhou ênfase ao longo do século XIX e início do XX, entretanto duas guerras mundiais demonstraram que o progresso também contém as raízes da sua própria destruição. 
Apesar de tudo, é uma boa identificação do carácter de um protestante. Com Lutero começaram por romper com a autoridade do Papa e depois com o iluminismo romperam com a autoridade de Deus enfatizando ora a liberdade (liberalismo) ora a igualdade (socialismo) na ideia de que o homem alcançaria a sua perfeita realização destruindo todos os obstáculos coercivos à sua auto-determinação. 
Mas os povos católicos (os povos mediterrânicos) apesar de gostarem de dizer o contrário desconfiam sempre do progresso. Querem ser modernos mas pensam sempre como ontem, querem mudar mas ficam quase sempre na mesma, ao contrário dos povos protestantes, do norte da Europa (Inglaterra) ou do centro europeu (Alemanha). Vou descer do geral para o particular. 
Veja-se, por exemplo como em Portugal constantemente se fala em reformas. Em 2013 e 2014 até se falava por aqui em "Reforma do Estado",  o que não é novidade. Até elaboraram um guião. Até fizeram profundas reformas na justiça, com a nova lei da organização judiciária, que juridicamente lançou o país para o caos. Os brasileiros não são muito diferentes e hoje vivem uma crise aguda que bem se relaciona com um carácter latino (católico) bastante particular do qual depois falarei. 
Aos portugueses serve bem aquela segunda máxima, como já se devem ter apercebido vem do famoso romance "O Leopardo", e a máxima é especialmente glosada, não fosse o autor, o Príncipe de Lampedusa, um aristocrata católico siciliano e portanto conhecia melhor do que ninguém a alma de um povo de cultura católica (e não há nada mais católico do que um siciliano). 
A frase em suma sintetiza bem o nosso carácter e responde aquele problema, por que razão nem sempre gostam da mudança e quando a aceitam tornam-se radicais? 
Responde a voz do velho "Leopardo":  "É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma!"
Um protestante nunca se lembraria de pronunciar tal coisa, apenas um aristocrata católico para lembrar o nosso carácter. 

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