quarta-feira, 2 de março de 2016

As ideias












Por volta da década de 1870 surgia uma nova ideia, vinda directamente do centro da Europa: o socialismo. Já era conhecida além Pirinéus, mas à Península as boas-novas chegam quase sempre no relativo atraso de quarenta anos. A geração mais crítica de Portugal (a geração de 70) fervilhará no anti-liberalismo que não tinha conhecido o liberalismo tão pouco. No fundo, o que essa geração via era um projecto mal-conseguido.
A mudança de gerações provocaria uma ruptura no paradigma. A primeira geração de intelectuais (1830-1860), os liberais e românticos, tinham exilado D. Miguel e imposto o constitucionalismo-parlamentar-liberal. Esse mundo novo descobriram no exílio, em Inglaterra e na França. A ideia parecia positiva e em nome dela conduzem a guerra civil. A segunda geração (1860-1910) socialista e republicana, que vibra ao som do positivismo e da revolução, nasce contra o romantismo e opõe-se ao liberalismo, que vêem como um projecto fracassado, esses homens exilarão D. Manuel II, e irão impor a república. Como a república (1910-1926) entra no caos, em dezasseis anos, a terceira geração irá conduzir à ditadura, contra o parlamentarismo.

A experiência política portuguesa no século XIX molda o país, mas serão poucos os entusiastas entre os intelectuais. Se alguém se arriscar a procurar um autor liberal português, isto é: um doutrinador um filósofo português que tenha escrito um pensamento, não encontra. Nem admira que o único autor verdadeiramente liberal e que, mal por mal, ainda deixou algum pensamento, Alexandre Herculano, se tenha retirado para Vale de Lobos, queixando-se que o sistema estava “prostituído”. Herculano chamava ao período do rotativismo uma “vil comédia”. 
Nos últimos anos de vida, reconciliado com a  fé católica e entusiasmado na teorização do municipalismo, o historiador permanecerá como a consciência da nação (ou pelo menos assim era venerado).Talvez porque percebera melhor do que ninguém a tragédia.
A grande crítica dos intelectuais dirigia-se aos resultados controversos do liberalismo. O povo não beneficiara desse processo, nem desse progresso, que sempre viveu fechado em Lisboa e no Porto. Do republicanismo de Teófilo Braga, ao Socialismo de Oliveira Martins, todos atacavam aquela monarquia. 
No fundo impuseram-se instituições e aplicaram-se constituições que à província passavam sempre incólumes e despercebidas. 
O remédio ao absolutismo tinha sido o liberalismo (falhou), o remédio ao liberalismo tinha sido o socialismo, originário da facção mais radical dos liberais, que trouxeram consigo a república (proclamada em 1910 também falhou), o remédio final foi a ditadura, quarenta e oito anos depois a solução foi uma procura entre o socialismo e o demo-liberalismo, a resposta esteve nos fundos comunitários e na adesão à CEE. Depois destes duzentos anos em sobressalto atrás de um ideia que nos realize, o que resta de Portugal? 

Sem comentários:

Enviar um comentário