domingo, 20 de março de 2016

Alma católica em corpo protestante






















Vou agora generalizar o que no texto anterior descrevia. As nações que herdaram a cultura católica (os povos latinos e mediterrânicos) não recuperaram da sua "agonia", uma palavra que bem nos define e tão caracterizadora de uma alma particular dada mais à nostalgia do que ao optimismo. Em suma, não recuperaram dos duros golpes dos últimos 200 anos e nem tão pouco encontraram as formas institucionais congénitas à sua cultura. 
O amor que sentem pela liberdade pessoal, o seu pessimismo e o seu orgulho leva-os a desconfiar das instituições copiadas ao protestantismo: o Parlamento, os partidos, a constituição. Talvez não por acaso as nações católicas têm sido desde sempre descritas como "irrazoáveis" e "não cooperativas", e o mesmo se aplica aos países Ortodoxos (a Grécia principalmente). 
A forma como um juiz conduz um processo, ora no caso Sócrates, ora no caso de Lula (até nisto há semelhanças) revela muito da falta de imparcialidade da justiça, ou como o império da lei das constituições protestantes é rapidamente desviado numa cultura católica onde a sede de absoluto leva ao exagero e como a divisão de poderes (entre o poder político e o poder judicial) é efémero. Portugal e o Brasil, mesmo dizendo-se Estados democráticos e brandindo constantemente o valor da democracia, da "ética republicana", dos sempre invocados “Direitos do Homem”, no fundo, as mesmas charengas de há duzentos anos, pelo menos desde a revolução de 1820, em Portugal, e do grito do Ipiranga, em 1822, na verdade, estes países não sabem ser democráticos e não conhecem o liberalismo (concepção do norte da Europa). 
O instinto volta-se para a censura, por vezes para a auto-censura, e para a repressão. Certamente nações que podemos caracterizar como"demófilas", mas muito pouco "democráticas". 
Somos ambas culturas de paradoxos. Adaptando uma perspectiva conhecida de Kuehnelt-Leddihn que caracterizava o carácter dos povos católicos, estas nações (herdeiras da cultura católica) são ao mesmo tempo violentas e extremas, tanto como são individualistas, tão cínicas como devotas, dificilmente se dão ao respeito ou à reverência. Ao mesmo tempo são indisciplinadas e cépticas, de algum modo adaptadas a este mundo, mas, ao mesmo tempo, também vivem afastadas do terreno. São fortes tanto no seu ódio como na sua afeição, orgulhosas, e mais admiráveis em circunstâncias de grande tensão do que diariamente. 
Sem tradição parlamentar, tão pouco logram adaptar instituições quando estas nada têm a ver com a sua cultura. Nos países católicos (e o mesmo serve para os países ortodoxos), se uma força derrotada se se apercebe de que há uma outra maneira de atingir o poder, fá-lo, nem que para isso tenha de fechar o Parlamento ou no extremo impor uma ditadura militar ou provocar uma guerra civil. Tanto o Brasil, como Portugal, vivem hoje  tensões profundas, essas crises de forma genérica têm uma causa, a tensão duma alma católica estar presa a um corpo protestante, um dia, quem sabe, quebra-se o espartilho e conheceremos a verdadeira personalidade de um povo. 

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