quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Utopias


Compreendo a admiração de Maurras por Proudhon, ainda que em certos traços pareça antitético e com algumas vacilações contraditórias. A verdade é que Maurras pôde perfeitamente simpatizar com aquele "cripto-individualismo" (como criticou Marx), no ódio a qualquer tipo de organização colectiva, a fé nostálgica no robusto pequeno agricultor e na sua moralidade, a crença no valor indestrutível da instituição da propriedade privada cuja interpretação levantou todo o tipo de enganos devido a uma frase muito glosada, mas muito pouco compreendia, que abria um dos seus livros: "A Propriedade é o roubo": Proudhon não defendia que toda a propriedade é indevida, mas que todos os homens carecem de um mínimo de propriedade em ordem a poder manter a sua independência pessoal. Em certos aspectos era um tradicionalista, acreditava na santidade do matrimónio e da família, na absoluta autoridade moral e legal do seu chefe sobre a mulher e os filhos, o que espelhava também a sua própria condição, horrorizava-o qualquer forma de revolução violenta que lhe destruísse as formas fundamentais de vida numa pequena quinta em que tinha nascido e sido criados os seus antepassados.
Em L’Action française et la religion catholique (1913) Maurras não deixa de assinalar esta aproximação à Action Française, na verdade o Cercle Proudhon a que se referia no opúsculo reunia personalidades muito diversas, desde monárquicos, republicanos, nacionalistas, sindicalistas (1).
Mas há uma ideia de Proudhon que Maurras vai procurar até à exaustão: o federalismo, este que seria transformado por Maurras e Barrès numa força de unidade nacional a que o grande doutrinador francês chama "nacionalismo integral". Claro que o nacionalismo inicialmente nada tinha a ver com o Antigo Regime, nos primórdios associava-se à ideia revolucionária, republicana e jacobina, mas essa concepção da nação era voluntaristica, rousseauniana e contratualista, o que a partir de 1890 o novo movimento dos Patriotas Franceses (movimento nascido em pleno caso Dreyfus e que dará lugar à Action Française) vai originar é um nacionalismo orgânico e social. A ideia de ressuscitar os corpos intermédios, as tradições locais e regionais, a pequena propriedade, a construção de um Estado forte, vem no escopo do novo nacionalismo orgânico, antidemocrático e que sonha com a restauração monárquica. O federalismo maurrasiano inscreve-se nessa ordem, uma ordem onde o Rei devia prevalecer enquanto unificador da comunidade.
O interesse no regionalismo é uma fonte de inspiração, desenvolvido a partir das ideias da esquerda democrática, certamente romântico e sentimentalista, encontrará equilíbrio entre as concepções de Prodhon e o tradicionalismo de Maurras. Mas a diferença mantém-se naquele paradoxo entre o federalismo-nacionalista definido e concreto que Maurras desenha na lapidar construção do sistema, e o federalismo abstracto de Proudhon, esse que apaixonou personalidades tão diversas no seu canto por um mundo de justiça e de paz, como, em Portugal, Antero de Quental, a quem o integralista Luís de Almeida Braga chamará, com justa razão de "mestre da contra-revolução". Para Almeida Braga, Proudhon representava uma libertação das ideias de Rousseau e uma oposição à democracia parlamentar (2).

As conclusões serão diferentes. Maurras e os companheiros da Action Française vão fundamentar a sua adesão à monarquia, ao contrário de Proudhon que até colaborou para derrubar os Bourbon, Maurras critica o jurisdicionalismo contratualista de Proudhon, que para ele representa um ponto de partida, não uma conclusão. Maurras tem outras dissonâncias, tao pouco é fascinado pelo nietzschianismo de Valois, ou pela luta de classes de Sorel, à qual opõe a “solidariedade nacional”, as grandes influências do autor da Ênquetes são os autores da contra-revolução, com principal destaque para  René de La Tour du Pin. Mais problemática sera a questão religiosa, se Proudhon foi crítico do catolicismo Maurras defende um catolicismo social, para ele a fé católica e o magistério da Igreja Católica seriam um expediente necessário para conduzir a estratégia política, num tão conturbado sistema de ideias Maurras só poderia acabar mesmo excomungado (3).
Para Maurras, que se deixou enganar pelo espírito do tempo, o positivismo e o racionalismo detinham as premissas à fundamentação do sistema, esquecendo uma concepção do bem e do príncipe cristão (Maurras era agnóstico e só no fim da vida se converteu à fé católica). Esqueceu-se que o racionalismo positivista não apresentava respostas defintivas a um tal projecto que facilmente se fundiria no fascismo. No século XX concepções republicanas e jacobinas do nacionalismo oitocentista aliavam-se a famílias outrora antagónicas como o legitimismo e o catolicismo contra-revolucionário no mesmo propósito de atacar as instituições demo-liberais, no fundo um jacobinismo coroado que não podia desenvolver-se muito além do seu tempo. Maurras, mesmo sendo um homem de inteligência superior, sofreu os males de uma época de enganos.

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(1)Les cahiers du cercle Proudhon, Por Alain de Benoist
(2) Luís de Almeida Braga in Sob o Pendão Real, Lisboa, Edições Gama, 1942, pp. 133-145.

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