segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A perigosa confusão de certos monárquicos









(duas gerações controversas, o velho doutrinador da AF Maurras, e o jovem irreverente poeta,  Brasillach)








Maurras conhecia a dificuldade de uma restauração, e não apelava a referendos ou a simpáticas tertúlias com o regime, mas à politique d’abord. Não deixa de ser uma figura complexa e contraditória, produto de um tempo que aspirava à grandeza total do homem moderno. As aspirações da monarquia ficaram encimadas pela contradição inata ao positivismo, do qual nunca quebrou a ligação, por isso a articulação que programava racionalmente devolver a monarquia também nunca engendrou um produto válido a não ser uma catástrofe monumental. O grande mestre da Action Française via o lado “funcional da monarquia”, assim como via o lado “funcional” da Igreja (foi agnóstico quase até ao fim da vida), para ele a nação devia funcionar como um corpo orgânico, quase como uma obra-de-arte política (1), ideia inspirada no seu classicismo, aliás cultivador como foi da mais profunda poesia romântica advinda de um crítico do romantismo (mais uma das suas contradições).
Ele mesmo dirá, sobre a monarquia, que “este bom governo não deriva de uma virtude do sangue” (2), isto é, não lhe interessava um monarca específico, apesar de orleanista e de ter depositado as esperanças no Duque de Orleães (Philippe d'Orléans), o que realmente interessava a Maurras era o lugar do rei dentro do corpo orgânico da nação que constituía o seu “nacionalismo integral”, outra ideia interessante mas que merecia mais tempo e mais espaço para dedicar algumas linhas cimeiras do pensamento maurrasiano.
A partir daqui começam as contradições em torno de um pensamento que acabou encurralado nas suas próprias premissas, talvez fruto de um século de enganos, ou fruto das contradições que o encimam ao procurar uma autoridade capaz de unir a comunidade encarnando as aspirações da nação, incorrendo no perigo de confundir a auctoritas com a potestas romana, porém dilema que a modernidade de forma insofismável jamais conseguiu destrinçar lançando armas para todo o tipo de abismos, umas vezes clamando por um rei, outras por um César, umas vezes por um governo autoritário, mas legítimo, outras vezes por um tirano.
 É verdade que Maurras chegou a chamar ao Duce o “Mon-arque”, o que tem sentido etimológico dado referir-se ao "governo de um homem só". O sentido, porém, não alcança a essência, a mono-arquia, na verdade nunca existiu a não ser na contradição entre a autoridade e a tirania apenas compreendida num mundo que perdeu o fundamento à sua própria permanência. O doutrinador da AF ter-se-á apercebido disso mesmo.  Mas Maurras apercebeu-se de outra coisa muito mais importante, que talvez os seus colaboradores mais jovens e entusiastas dos novos tempos, como Brasillach e Rebatet, não tenham alcançado. Apesar de um ditador copiar os gestos de um poder que pretende encarnar a monarquia na verdade confundia esses mesmos conceitos de autoridade e de poder.
A sensibilidade classicista de Maurras permitia analisar a situação com maior afinco. Nem Mussolini, nem Hitler, nem qualquer ditador, se aproximavam da monarquia, desvirtuavam-na da essência. A ditadura devia ser transitória e, uma vez acabada, devia preservar a monarquia (no caso da Itália) ou restaurá-la, como ensejava para a França.
É verdade que Maurras sentia curiosidade, e até alguma simpatia, por uma tal fórmula, mas jamais se assumiria como fascista e sempre recusou colaborar com os alemães, aliás, desde o caso Dreyfus, assumiu-se sempre um anti-germânico, revelando-se, a determinado momento, como opositor ao romantismo idealista alemão e, em 1933, denuncia o "estado tirânico de Hitler". O que mais o incomodava no Fuhrer era a origem do carismático César alemão que permanecia demasiadamente como um produto da democracia e o Nacional-Socialismo longe estava de o fascinar mais do que o fascinava Mussolini e o fascismo italiano. Se apoiou Pétain foi porque no velho marechal encontrava uma última esperança para restaurar a monarquia (3), e talvez não tivesse de todo errado ao descobrir no velho herói de Verdun os pilares cimeiros assentes nas verdades eternas: Deus, Pátria, Família, Autoridade, Propriedade, as intrínsecas bases que cimentavam o Estado Novo português e o alento dos  vários movimentos conservadores e tradicionalistas americanos e europeus.
Maurras apoiou Pétain porque, mais reaccionário, via-o como uma alternativa suportada na restauração monárquica, precisamente o mesmo motivo pelo qual os jovens maurrasianos que se distanciavam do mestre entusiasmados pelo fascismo desprezavam o velho marechal, apelando por um líder mais radical.
Mais ainda, Maurras compreendia as limitações de uma ditadura, não que ignorasse a sua aplicação, aliás  necessária em tempos de crise como também defenderam Platão, Cícero, Maquiavel (o pai de todos os revolucionários modernos) e do seu discípulo Robespierre que falava na "ditadura da liberdade", ou ainda noutra esteira Dono Cortés que invocava a ditadura para restaurar as antigas liberdades.
O ditador é meramente uma figura temporária e artificial, certamente necessária em tempos de crise como forma de restaurar a união da comunidade, mas efémero (4). Maurras ressalvará que só o rei e apenas o rei,  porque a sua autoridade e funções não são contingentes e dependentes da sua vida mas são garantidas pela tradição e pela sucessão real, e apenas assim se poderia garantir a integridade e a continuidade da nação. Na verdade, como recordou, o rei nunca morre e a sua identidade nunca muda realmente porque esta não é determinada pela sua pessoa mas pela função que exerce. 
Mesmo não sendo estritamente um fascista o resultado é que Maurras ficou ligado à ideia. A Action Française confundiu-se (ou confundiram-na) com o fascismo e sucedâneos totalitários e os seus colaboradores acabaram no banco dos réus no pós-guerra, ainda que se trate de um mal entendido, e ainda que muita da associação feita a Maurras e à AF na colaboração com Vichy devam mais ao exagero e à mentira da propaganda do pós-guerra.
As ideias são sempre perigosas uma vez libertadas, Maurras é a prova disso, os argumentos que exaltava da sua pena acutilante serviram para outros, como Brassilach, esse notável poeta, desenhar a defesa do fascismo, suportado-se nas linhas cimeiras do pensamento maurrasiano, como também Rebatet propunha (leia-se as Memórias de um Fascita, fresco precioso dos anos da França da ocupação vista pelo lado dos idealistas românticos do fascismo, acusados de colaboração e perseguidos pelos "libertadores", a sina de Céline, Brasillach, Maurras, Rebatet), mas concluindo de forma diferente, não pelo Rei, não pela infrutífera restauração monárquica, mas pelo Chefe. 
Fica a advertência ás confusões deste nosso tempo... 

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(1) Mes idees politiques (1937), Paris editions Albatros, 1986, pp. 146.
 (2) Enquêtes sur la Monarchie LXXXXVI
(3) De la colère à la justice : Reflexions sur un desastre,
(4) Mes idees politiques (1937), pp.249.


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