quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A (des)igualdade de Cristo



Falava a propósito de um tema recorrente de associar Cristo ao estribilho ideológico dos nossos dias, produto acabado da modernidade, interpretando mensagens de igualdade no Evangelho enquanto corolário do socialismo e sucedâneos modernos, como se o filho de Deus preconizasse um qualquer estado comunista na antiguidade. Este estribilho já vem desde o tempo dos tais católicos progressistas e da ideologia que invadiu a Igreja desde o século passado. Nenhuma escritura sagrada ensina que todos nós somos iguais perante Deus, pelo contrário, sabemos pelas escrituras que Cristo amava mais a uns discípulos do que a outros, pelo que desde já constatamos na hierarquia entreos apóstolos. A doutrina católica, ainda assim comparavelmente mais optimista do que as suas deturpações (calvinista e luterana), meramente afirma que a todos é dada suficiente graça para que sejam capazes de conseguir a salvação, mas não ao mesmo nível. Se todos fôssemos iguais aos olhos de Deus, então um Hitler conseguiria a mesma salvação que uma Madre Teresa, e tal pareceria ao católico tão injustificável e desprovido de sentido que uma pessoa apenas poderia interrogar-se do porquê das boas acções na terra serem recompensadas da mesma forma que o mal (em nome da igualdade claro está), ou o porquê do pecador igualizar o santo. Diria o profeta: "A vós é concedido conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhe é concedido" (Mat. 13, 11).
E se Cristo era a favor da igualdade, por que proferiu estas palavras: ? "Porque (o reino dos céus) será como um homem... que deu cinco talentos (a um servo), e a outros dois, e a outro um, e a cada um segundo a sua capacidade" (Mat. 25, 14-15) Isto é, no Evangelho é reconhecida desigualdade na graça e na virtude, que se reflecte na desigualdade de glória no reino dos céus (1).

Fica esclarecido, que a igualdade, ao contrário do que muitos sugerem, não aparece inscrita nas Sagradas Escrituras. Até mesmo a doutrina da Igreja a rejeita: "Não é verdade que na sociedade civil todos temos direitos iguais, e que não exista hierarquia legítima" (Pio XI, Divini Redemptoris n. 33). O universo criado por Deus é hierárquico e desigual, o que talvez levaria Gomez Dávilla a proferir no seu gracejo tão tradicionalista (não sem abdicar da ironia sublime) de que "a hierarquia pertence ao reino dos céus, a igualdade só existe no inferno".

Mas é interessante observar na interpretação "democrática" feita por certos teólogos e como uma geração enganada conseguiu acreditar em tal. A palavra que aparece inscrita nas sagradas escrituras é, quando muito, "liberdade". Cheguei a ouvir que Cristo falava em "igualdade de direitos" (?), parece que na vanguarda da actual social-democracia, o que não deixa de obrigar a um sorriso. Podia mesmo argumentar, como alguns progressistas enganosos nas proposições, que todos somos iguais aos olhos de Deus. Mas se o somos, porque nos criou Ele tão desiguais? Porque nascemos uns mais inteligentes, outros mais limitados, uns mais altos, outros mais baixos? As diferenças são a grande fonte da dinâmica no mundo. Uma desigualdade proporcionada e harmoniosa que nos obriga a amar o próximo como a nós mesmos e, se é verdade que todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus e que todos somos seus filhos aos seus olhos, também se deve constatar que nenhum de nós sabe se está tão próximo de Deus quanto o outro, ninguém o pode saber, por isso devemos tratar o nosso próximo como "igual", mas esse facto designa apenas um mero procedimento, não se trata de qualquer uniformização da espécie.  Aqui a relevância da proposição teológica ao afirmar as desigualdades: todo nós temos o mesmo Pai, e devemo-nos tratar como irmãos, mesmo que espiritualmente estejamos em níveis desiguais e socialmente desempenhemos diferentes funções. Como escrevia Kuehnelt-Leddihn:

We are in a similar position to the postman who delivers two sealed letters indiscriminately, the one that carries a worthless ad and the other that brings great joy. He does not know what is inside. The comparison is far from perfect, because all human beings have the same Father and we are therefore brothers-even if we are spiritually on different levels and have different functions in human society. (From a social viewpoint one person obviously can be more important than another; however, since everybody is unique, everybody is indispensable. To state the contrary is democratic nihilism.) (2)


As ideias de igualdade entre os católicos foram desde sempre mais nocivas do que benéficas, mesmo quando procurando os melhores propósitos, o que recorda a máxima de São Tomás: Corruptio optimi pessima (Quando o melhor é corrompido, torna-se o pior de todos).  Vários seriam os exemplos desse fanatismo igualitário, num Savonarola, que no século XV já sonhava em fazer de Florença uma espécie de paraíso na terra.  Os Turlupins, por exemplo, uma seita fanática que existiu no norte de França, esses sim, representavam uma facção do cristianismo que pregavam a igualdade, influenciados pelo monge Joaquim de Floris, responsáveis pelos motins de camponeses ocorridos à época e que semearam o caos. Também grandemente influenciado por uma facção extremista dos Franciscanos na sua ênfase da pobreza invocando a ideia peregrina de que a igreja e o Papa se tinham afastado da palavra de Cristo... A revolta não ia apenas contra a Igreja, mas contra a hierarquia e contra o Papa (o Pai), o que obrigava (contraditoriamente) a repensar a ideia de Deus enquanto pai, e, consequentemente levava a uma deturpação da Trindade. Há aqui algo de mais ambíguo e obscuro que na era moderna se revestiria da forma mais destrutiva, porque significava também que a luta desesperante não era apenas religiosa, mas descia ao político, e punha em causa os próprios fundamentos da monarquia - o Rei, enquanto Pai -, e, por fim, derrubando a própria estrutura da família (o pai enquanto chefe da família). Uma tal destruição estaria para breve, mas demoraria, e não deixamos de encontrar no seio da Igreja actual os seus mais prepotentes executores. A Igreja devia opor-se a estas concepções, mas pior do que isso, aceita-as. 


Outro estribilho: a "igualdade" no céu? Mesmo no reino dos céus existe uma hierarquia, como indicou São Tomás de Aquino, as hordas celestiais dividem-se em três ordens e estes coros celestiais estão hierarquicamente organizados ("Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus dos exércitos, toda a terra está cheia da Sua glória" (Is 6:3)). Essa hierarquia angélica é composta por Principados, Arcanjos e Anjos.Nesse sentido o Deus é apenas um, não poderia partilhar o governo do povo judeu com falsos deuses ou falsos anjos (Livro de Daniel, 12), porque no Universo há um só Princípio e uma só Providência.
 Não nos podemos esquecer que nos céus existe um reino, não uma república, não uma democracia, não há um "parlamento"... É muitas vezes citada aquela máxima de São João de Kronstad, um padre Ortodoxo que terá dito: "No inferno há uma democracia, nos céus há um reino". A frase lapidar interpreta o verdadeiro sentido da posição católica. 
 No livros dos Provérbios, a igualdade é desmentida: "O rico e o pobre se encontraram; o Senhor criou a ambos" (Prov. 22, 2). Só podemos assumir a verdade de que nos céus há hierarquia, assim como na terra há hierarquia. Faz parte da ordem natural. Também para a Igreja tem de haver uma hierarquia guiada pela Sagrada Escritura e pela Sagrada Tradição Apostólica, como indicava a Encíclica Veritatis Splendor a interpretação da palavra de Deus cabe ao Magistério vivo da Igreja, ao Papa e aos Bispos, "cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo", como foi indicado pelo próprio Cristo (leia-se CIC§77), que os apóstolos deixariam como sucessores os bispos, assim "a pregação apostólica (...) devia conservar-se por uma sucessão contínua até a consumação dos tempos." 
A hierarquia deve ser interpretada como uma bondade da Divindade porque a ela pertence esse Bem transcendente de chamar todos os seres a entrarem em comunhão com ela:

Entre as criaturas existe uma interdependência e uma hierarquia queridas por Deus. Ao mesmo tempo, existe uma unidade e solidariedade entre as criaturas, uma vez que todas têm o mesmo Criador, são por Ele amadas e estão ordenadas para a sua glória. Respeitar as leis inscritas na Criação e as relações derivantes da natureza das coisas é portanto um princípio de sabedoria e um fundamento da moral. (3)

Como escreveu Herman Ridderbos (4), a palavra de Deus existe na eternidade, e é perfeita. Mas a Escritura não é nem eterna, nem perfeita. Apenas indica que Deus "faz das palavras dos homens o instrumento de Sua palavra, que Ele usa palavras humanas para seus propósitos divinos."

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(1) Suma Teológica, I - 295 e Suma Contra os Gentios, cap. CXXXIX e CXXII
(4) Herman Ridderbos, Studies in Scripture and its Authority 


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