segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A Lei Moral



Durante a Segunda Guerra Mundial, C.S.Lewis fez várias leituras para a BBC, que mais tarde reuniria num livro, intitulado "Mere Christianity", onde estabelece argumentos para a existência de Deus, assim, de forma sucinta:

1 - Existe uma lei moral universal;
2 - Se existe uma lei moral universal, então é porque existe um legislador dessa lei moral;
3 - Se existe um tal legislador, deve ser algo que está por detrás do universo;
4 - Assim, há algo que está por detrás do universo.

Todos os seres humanos sabem que têm de agir de acordo com certas regras e de acordo com uma certa maneira, acatar com um determinado comportamento. Lewis argumenta que existe uma lei moral, que é ao mesmo tempo universal, o que significa liminarmente que vivemos num universo moral, um universo onde existe uma lei que nenhum de nós criou, mas que sempre nos pressiona. E, se nenhum de nós criou essa Lei Moral, então algo deve estar por detrás dessa Lei, uma espécie de Criador, ou de Legislador, que a concebeu.
O ateu pode contra-atacar, como Dawkins, de que a existência humana não tem outra funcionalidade a não ser a de perpetuar o ADN, tudo o mais não tem qualquer propósito, o bem e o mal não interessam (o perfeito sentido da pós-modernidade). Ou no mesmo sentido de Nietzsche, quando argumenta" tu tens o teu caminho, eu tenho o meu. Quanto ao caminho certo, não existe". Se admitimos que existe o mal objectivamente admitimos que existe o bem, ao admitirmos que existe o bem então admitimos que existe uma Lei Moral na sua base que nos permite diferenciar estes pólos em perpétua contradição e completude. Mas distinguimo-los tal como uma criança também distinguiria, não por ter conhecimentos filosóficos ou apurados os conceitos de injustiça, maldade, terror, mas porque vive inserida nessa mesma criação. Um criador supremo incute-nos essa ideia por firmar-se anterior ao universo. Realiza-se ante um homem sempre incompleto.

Mas não podia esta Lei Moral ser algo inerente ao próprio universo: apenas factos morais que existiriam nos próprios factos físicos? Ou meramente tratarem-se de factos físicos ou mesmo factos puramente materiais sobre a natureza humana?
C.S.Lewis responde aos mais cépticos e apresenta esse outorgador da Lei Moral em duas vestes: ou como parte do mesmo universo ou como estando por detrás do universo. Se esse legislador existe no próprio universo, então seremos capazes de observar os factos morais, e a realidade por detrás desses factos poderão ser observados através de métodos científicos, contudo, tal não será possível. Não é algo que seja materializado. Devemos antes concluir que esse Legislador está por detrás do universo. Dá-lhe um sentido. Por fim, existindo factos físicos (como defendem os materialistas) então devemos admitir que existem factos morais também.

Numa parábola interessante o escritor define a Moral:
"Na realidade, as regras morais são como que instruções de uso da máquina chamada homem. Toda regra moral existe para prevenir o colapso, a sobrecarga ou uma falha de funcionamento da máquina. É por isso que essas regras, no começo, parecem estar em constante conflito com nossas inclinações naturais. Quando estamos aprendendo a usar qualquer mecanismo, o instrutor vive dizendo "Não, não faça isso", porque existem diversas coisas que, embora pareçam muito naturais e até acertadas na forma de lidar com a máquina, na verdade não funcionam." - C.S.Lewis, Mere Christianity.
Mas o mesmo autor adverte que esse argumento “is not yet within a hundred miles of the God of Christian theology. (1)” Tudo o que ele estabelece é que existe algo que controla o universo, algo que estabelece essa Lei Moral. Novamente, existindo uma Lei Moral significa que existe um poder por detrás dela, um poder que nos pressiona, verdadeiramente que odeia grande parte dos nossos actos quando consumam um mal, mas ainda assim essa mesma força inspira-nos a procurar o bem. Imaginar esta conflituosidade propõe-se sombria. Pode ser ao mesmo tempo inspirador e trágico. Por um lado a crença de que existe um Bem superior, um poder invisível por detrás do próprio universo, mas, ao mesmo tempo, afirma o sentido trágico do homem, porque todos os dias nós (mais ou menos) falhamos o cumprimento dessa Lei Moral e praticamos o mal.
Uma tal pressuposição não será de todo uma catástrofe, ao jeito de um Raskolnikov que se vê confrontado na sombria perplexidade da sua mortalidade e tendente à expiação dos seus pecados, como uma ortodoxia mais rigorosa suporia em Dostoievski a procura terrena pela salvação. Não procurando o drama incauto das crises de fé devemos partir de um princípio, i.e., da tragédia - o homem enquanto pecador -, antes de podermos entender a divina comédia, um enlace bem ilustrado nos Evangelhos de um Deus tornado homem. A conclusão da história, se se pudesse aferir um enredo à tragédia, reside na crença de que o homem pode ser perdoado dos seus pecados. Como Lewis sublinha: existe uma Lei Moral e o homem é sempre incompleto, a sua incomensurável incompletude revela-se um fardo que tenta preencher, e desse sentido a filosofia procurou as respostas sempre insuficientes.

Se admitimos que existe o bem, então admitimos que existe uma lei moral absoluta na base da qual poderemos distinguir o bem do mal. Admitimos então que essa lei foi criada por um Legislador supremo, um Deus, e sem o qual tudo seria permitido.
Nas palavras de Lewis: “the Christian religion is, in the long run, a thing of unspeakable comfort. But it does not begin in comfort; it begins in…dismay….if you look for truth, you may find comfort in the end: if you look for comfort you will not get either comfort or truth—only soft soap and wishful thinking to begin with and, in the end, despair. (2)”


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(1)C.S. Lewis, Mere Christianity, Book I. Right And Wrong As A Clue To The Meaning Of The Universe, 4. What Lies Behind the Law. 
(2)Idem

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