sábado, 17 de outubro de 2015

Era dos extremos?

O fascínio pelo comunismo voltou, se é que alguma vez desapareceu. Parece que nem o fim do PREC, a queda da União Soviética, ou as reformas de Deng Xiaoping demoveram os ortodoxos. Sempre que entro num alfarrabista não deixo de constatar na quantidade de publicações relativas ao comunismo, marxismo, à revolução russa, entre colectâneas de Marx e de Engels, que se amontoam empoeirados nestes espaços. Quase tudo de autores Franceses, datados de finais dos anos 60 e inícios de 70,precisamente do marcelismo. Outros já do período do PREC, sempre com o titulo sugestivo de socialismo e democracia, são a imagem do empobrecimento intelectual onde por décadas nada floresceu de inovador nas academias. Foi a época em que as esquerdas dominavam as universidades e o seu pensamento criava raízes numa geração de enganos, quando pela restante Europa esta literatura já tinha caido no esquecimento. Ainda Portugal sonhava com os amanhãs que cantam e já a URSS entrava em colapso (faltava pouco para a queda do muro), e na Inglaterra a sra. Thatcher afastava os Trabalhistas e iniciava uma série de reformas liberais (logo em finais dos anos 70). Mas a ortodoxia, ainda que empoeirada, ficou. Resistiu, aqui entre nós, ao teste do tempo. Ao mesmo tempo é curioso como o PCP foi sobrevivendo e como os grupos de extrema-esquerda se refugiaram por detrás da imagem rejuvenescida do Bloco, a quem muitos previam existência breve, mas afinal parece que veio para ficar.
As circunstâncias tornaram-se propícias à sua durabilidade também. Na ausência de uma direita eurocéptica ( o CDS gosta de dançar a valsa com o PSD) e mesmo de uma extrema-direita verdadeiramente representativa, o PCP ocupa esse lugar no discurso anti- União Europeia,anti-euro, na constante referencia ao patriotismo e à soberania nacional. Não temos propriamente uma Frente Nacional,o PNR ainda que tenha crescido (humildemente) não desempenha um papel decisivo, não desperta um maior fascínio junto a um determinado eleitorado que talvez noutras condições lhes dariam maior confiança. Corremos antes o risco da emergência de uma Frente Popular ( a ver vamos).

Já a extrema-direita francesa preenche um lugar peculiar na Europa. É errado colocá-la imediatamente ao lado do UKIP que vem da tradição do isolacionismo britânico e do típico nacionalismo das ilhas. Ou mesmo rotula-la logo como parente do Aurora Dourada. Há algo mais. Ao contrário do que certa opinião diz quanto à extrema-direita francesa,apresentando-a como inimiga da Republica ou dos ideais republicanos que Paris exporta desde o século XIX, tal não é de todo verdade. A FN segue a tradição nacionalista que a República despertou,e é herdeira de todo o discurso patriótico outrora jacobino e laico. "A França una e indivisível" é um velho corolário jacobino dos tempos da revolução. Claro que Le Pen (pai) um ex-militante da Action Fraçaise,reuniu muitos apoios junto aos saudosistas de Vichy, neo-fascistas, ou simplesmente nacionalistas, mesmo católicos e monárquicos. Maurras já no século passado tinha testado a mistura inicialmente impossível entre nostálgicos do Antigo Regime e republicanos nacionalistas. Atacarão outros: porque são racistas e querem fechar as fronteiras da França? A história é muito mais antiga, desde o genocídio cultural promovido pela Terceira Republica na eliminação das culturas locais e dos dialectos das províncias em nome da Nação, ou o caso Dreyfus que manchou a reputação daquele regime lançando os germens que hoje bons socialistas (e quantos deles estiveram em Vichy) tanto criticam. O poder em Paris diz-se europeu, mas aposto que a França tradicional (usando a ideia das" duas Franças" que Maurras induziu na sua critica à República) não seja da mesma opinião.

 Em Portugal o casamento das direitas pôde talvez ter sido proporcional ao Estado Novo, mas a questão que a velha direita  se confrontou logo depois de ver enterrar o Presidente do Conselho foi Se havia vida para além de Salazar. O integralismo nos inícios do século XX já fizera o casamento possível entre o nacionalismo e a monarquia constituindo-se a plataforma possível de um novo ideário para uma "direita" que talvez não tenha resistido à absorção pelo próprio regime, até determinado ponto, ressalvando os velhos mestres integralistas que resistiram à tentação. O sidonismo embora efémero teve algum sucesso. É verdade que as famílias da direita sempre foram diferentes,ora monárquicas, ora fascistas ou nacionalistas, republicanas ou conservadoras, católicas ou revolucionárias. Do movimento Jovem Portugal não restou mais do que a memória, e tal como muitos dissidentes do lado oposto das ideias( no MRPP por ex.) vamos encontrar alguns nomes conhecidos desses antigos militantes nas listas do PSD.

Mas passada a Revolução e o período do PREC o chamado Arco da Governação conserva a direita possível e a esquerda necessária,i.e., a direita que se diz democrática e do centro e a esquerda e extrema-esquerda que logo exibe os galões da resistência. Em França a senhora Le Pen ainda pode associar a sua defesa da pátria às ideias da republica, até determinado ponto, até onde o politicamente correcto permite. Até onde a oligarquia obediente a Bruxelas o permite, se fosse bem contabilizado os ditos europeístas traíram mais a republica francesa do que a senhora Le Pen, Robespierre já teria mandado cortar a cabeça a Hollande, Napoleao já o teria mandado desterrar, o santo Gambretta já o tinha desafiado para um duelo. A Europa das pátrias que de Gaulle exaltava já não é bem-vinda.
Já o nosso patriotismo ora liberal,ora republicano, esgota-se na senda das revoluções. O PCP recuperou algumas das ideias desse ideário, o projecto de um Portugal soberano longe do domínio de Bruxelas e longe do euro. O eurocepticismo entre nós entrincheirou-se nessa dimensão, que pode mesmo parecer estranha.
Mas o que temos a temer desses partidos além do programa que, se olharmos de forma realista, não deixa de parecer desastroso? o PCP que admira a Coreia do Norte, que foi partido da classe operária e hoje vive um tempo em que o proletário e o campesinato já não existem no ocidente.  Ganha na militância fiel, na doutrinação virulenta mas sempre propicia, e tem o discurso próprio para os tempos de crise. Mas bastará procurar a ideologia num tempo que parece já não se preocupar com as ideologias e que vive tão desencantado depois de ver fracassar no século passado as aventuras ideológicas? Temos visto que o interesse pelas ideias não se esgotou e consegue sempre reinventar-se.
Resta a direita saber reinventar o seu caminho.
Portugal precisa de uma direita a sério. E já!


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