domingo, 2 de agosto de 2015

"Submissão" ou uma proposta para o vazio da pós-modernidade




Confesso que imaginava o livro "Submissão", de Michel Houellebecq,  com outra característica. Isto é, o "profeta de Paris" não chega à densidade de um Orwell ou de um Huxley. Tão pouco é um esteta da palavra, a escrita corrida facilita a leitura. No entanto, os problemas que apresenta obrigam a uma maior atenção. O admirável mundo de Houellebecq funda-se numa premissa relevante a um ocidente desconsolado e desencantado. O avanço do Islão, fantasma sempre presente, vem consolidar a fantasia de forma tão crua quanto fosse possível conceber num pesadelo político-ideológico.
Imagine que um partido islâmico vencia as eleições e aos poucos começava a aplicar leis islâmicas convertendo toda uma boa sociedade republicana, laica e secular, ao islamismo? Estará aqui o pesadelo da republicaníssima França atacada pelos germens que ela próprio desencadeou em 1789? Nem tanto: este estado seria republicano e defenderia um laicismo mitigado com uma crescente (ainda que ponderada) influência islâmica.  Tudo muito bem articulado. No fundo, quem se oporia a esta evolução? Quem resistiria? Seria o preâmbulo ao desencadear bélico num confronto de forças entre ocidentais-católicos-tradicionalistas e árabes-magrebinos-islâmicos-terroristas? Não de todo.
Aqui entra muito da visão pessimista que podia roubar a um Spengler, a um Nietzsche, a um Guénon, a um Évola, e todos eles contribuíram em maior ou em menor grau para a construção do romance (mais os três primeiros). Mas ao mesmo tempo perdeu a força que as ideias postuladas podiam proporcionar.

O futuro, não muito distante, concebido por Houellebecq tem como narrativa a aceitação de um novo poder que de forma democrática começa a converter uma Europa demasiadamente cansada (politicamente, economicamente, espiritualmente). Eis que, o declínio do ocidente e a alternativa oferecida pelo Islão a esse vazio, encontra espaço no forte desconsolo moderno sentido pelo protagonista, que se reconhece num outro escritor de há cem anos: Joris Karl Huysmans.
A crise religiosa de Huysmans é um ponto de partida para se perceber como, desde o racionalismo do século XIX, os mais ardorosos anti-clericais, ao jeito republicano e burguês da época, deixaram-se converter à espiritualidade, depois de uma vida dedicada aos excessos do subterfúgio nihilista...
Chegámos a um mundo que Spengler, na sua obra magistral, "Declínio do Ocidente", anteviu como tendo cumprido o seu ciclo histórico. Toda a civilização chega a uma idade em que tende a declinar, uma idade-adulta que marca a sua morte e inevitável superação por uma outra civilização. Este é um velho estribilho do século XX dado a todas loucuras e a todas as utopias. E mesmo tendo experimentado as falsas religiões e os insucessos das novas crenças negadoras da transcendência, e que criaram o totalitarismo moderno, então o que restava ao homem ocidental nesse "fim da história" inconsequente e tão efémero onde julgava ter triunfado todas as certezas do demo-liberalismo e do progresso?
 Michel Houellebecq apresenta o Islão como resposta para a civilização "Faústica" (uso a expressão de Spengler), a consequência lógica de um estado de coisas insuperáveis.  Splengler também conceitualiza uma ideia que aqui caberia enunciar, a «pseudo-morfose», uma civilização decadente nunca desaparece de forma completa, antes dá lugar a uma nova civilização, que herda muitos dos elementos da civilização passada.

Podemo-nos perguntar, por que não uma ascensão política do catolicismo, por exemplo? Um regresso às origens (à “Respublica Christiana”); ou um regresso à antiguidade como propôs algures Maquiavel. Não podia ser o catolicismo com que Huysmans se tinha reconciliado no fim da vida: ao mundo materialista, essencialmente agnóstico ou ateu, o protagonista, não consegue encontrar resposta na cristandade em torno da qual reina o vazio. O “homem novo” libertado pela Revolução Francesa e pelas revoluções seculares desarticulou qualquer ideia de transcendente sem entender que esse vazio poderia reverte-ser contra ele próprio (é uma das premissas do livro).
O agnosticismo, ou o ateísmo humanista, tão frágil e superficial, é incapaz de se renovar enquanto oposição ao avanço islâmico. Mas podia não ser o islamismo, mas qualquer outra fé - mesmo que não necessariamente transcendente... No final, o bom cidadão aceita converter-se ao islamismo. Já estraguei a surpresa mas nem era preciso indagar muito mais. Afinal, os ateus não deixam de acreditar em Deus, como bem sublinhou Chesterton, passam a acreditar em qualquer coisa.
O partido islâmico ascende democraticamente e democraticamente começa a transformar toda a sociedade francesa, entre burcas e mesquitas. Financiados pelas petromonarquias, a França conhece um boom económico, as suas universidades, recebendo milhões do petróleo árabe. Submissos, abraçam a fé islâmica na contemplação de um futuro de prosperidade, como se a reclinação de toda uma sociedade fosse motivada por um sentido de salvamento que de outra forma condená-la-ia à extinção. Não há ali um Carlos Martel para impedir o avanço dos "infiéis". Não há qualquer resistência. A França perdeu essa força. Digamos: a Europa perdeu essa força.
Agora, o paradoxo. Imaginem que, a um mundo que apela à igualdade, vem um outro que prega a hierarquia; a um mundo dominado pelo materialismo e pelo individualismo, vem um outro que prega os valores comunitários e o bem comum contra os egoísmos e os baixos instintos; a um mundo onde "Deus está morto", aproxima-se um outro que prega "Ele é Deus, o Um e Único; Deus, o Eterno, Absoluto" (de acordo com o Alcorão, agora inspirador para a nova sociedade); a um mundo onde a natalidade está em declínio, onde a população envelhece, onde a família já não é a base da sociedade, onde o casamento perde o seu carácter sagrado, aproxima-se um outro onde a família é protegida e a natalidade promovida. Que mundo seria esse?

Os pressupostos do declínio ocidental são matéria mais que mastigada pela literatura contemporânea. A ideia de Houellebecq não é de todo nova, nem original. Mas nos tempos que correm vem aumentar a discussão.O mesmo Guénon em Aperçus sur l’Esoterisme Islamique et le Taoïsme, procurava reconciliar esses mundos sempre conflituosos: a Europa e o Islão. Guénon chega mesmo a defender uma maior valorização dos préstimos da cultura islâmica ao saber ocidental, segundo ele, muito maiores do que as do mundo helénico. Guénon, também ele convertido ao islamismo, depois, recuperado de uma crise mística, mostrava a degeneração da modernidade enquanto consequência da massificação da sociedade moderna, o seu conformismo sem precedentes e a sua receptividade à demagogia e à retórica manipuladora.
Michel Houellebecq não será tanto um "Nostradamus" mas nada impede que o olhemos enquanto seguidor das teses decadentistas daqueles autores, ainda que sem o génio necessário para levar adiante uma proposta mais arrojada. Uma coisa é certa: conhece bem a natureza humana. E mais: uma natureza depreendida da modernidade. Uma frustração que apenas o homem secular e apaixonado pelo "Eu" egoísta pode sentir. Os ensinamentos de Deus são relegados, mas o materialismo tem as suas fraquezas e as suas antíteses, daí o paradoxo Huysmans numa metástase que o protagonista identifica. À parte de todos os preconceitos em torno do Islão, reside aí o incomensurável problema de procurar uma certeza mais profunda à vivência espiritual. O protagonista não só não consegue apaziguar o espírito no cristianismo como há uma ironia sublime de que a sua conversão ao islamismo dá-se porque ambiciona preservar a posição na universidade (ele é um professor de literatura frustrado e de relações amorosas desastrosas). Uma submissão aceitável, racional, que tem mais de indiferença do que de viva crença... O islamismo confronta uma cultura que se desertificou nos corolários do laicismo e da igualdade, aliás, tem a solução aos estados em declínio numa Europa onde as oligarquias se esforçam-se por conservar o seu poder, nem que se tenham de aliar ao Islão.
Não se trata tão-só do encontro com um fim divino, é a própria concepção de Maquiavel e da "razão de Estado", não tem a utopia de uma incongruência histórica, tem muito do realismo político e das procuras de equilíbrio de poder.

No final, o novo Estado islâmico vai procurar recriar o Império Romano, mas de forma pacífica, digamos: democrática... Aos poucos permite a entrada da Turquia na "União Europeia”, prosseguindo a expansão ao longo do Norte de África. O fracasso de Carlos Magno, de Napoleão, de Hitler, concretiza-se por fim, pacificamente. Faz mesmo antever uma nova Europa, senhora do Mare Nostrum, qualquer coisa entre o sonho de Solimão e as ambições de Europa que sempre procurou uma unidade no continente. Da Respublica Christianna ao Sacro Império, da Paz de Vestefália ao Congresso de Viena, do sonho napoleónico ao “Reich de mil anos”, da Comunidade do Carvão e do Aço à União Europeia, tudo passos e caminhos que cruzaram este território sempre dilacerado pelas guerras e pelos cismas. A solução ponderosa vem nos ensejos da classe plutocrática e burocrática da Europa: o islamismo é a solução. Ninguém nega essa consequência (trágica) de uma Europa unida sobre a bandeira islâmica, sem que uma guerra, uma oposição, se faça sentir. Um “fim de história” rocambolesco, irónico, simplesmente espectável, o mais duvidosos dos futuros? Eis o que esperar no acaso da História.
E assim, num futuro não muito distante, a Europa caminha alegremente para o islamismo. Quem o impediria? Podia fazer a pergunta: o que é que tem o homem ocidental a defender face ao avanço de um inimigo de fora ou a uma crença estranha? Defender a terra que não ama, o passado que repudia, a religião que ignora, um Estado que odeia? É a pergunta de Michel Houellebecq: quem somos nós e para onde vamos? 

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