terça-feira, 18 de agosto de 2015

O último "Monarca da velha guarda"




A vida do Kaiser Franz Joseph (Francisco José) consubstanciou os dramas e vicissitudes que tanto apoquentam um enredo ao estilo romântico, e, contudo, tão verdadeiro que a ficção raramente encontra um tão longo sentido inspirador. Casado com a sedutora princesa Sissi, depois Isabel da Áustria e rainha consorte da Húngria, não encontraria felicidade no matrimónio, minada pela depressão e fragilizada pela anorexia, acabaria assassinada por um anarquista. Do matrimónio resultaram quatro filhos, um dos quais pôs fim à vida num pacto suicidário com a amante (ainda hoje envolto em mistério) e, na esteira das desgraças, um irmão que seduzido pelas ambições de Napoleão III acabou Imperador no México, lá morrendo fuzilado. Por fim, um sobrinho e herdeiro cujo destino permanece tragicamente associado ao conflito que devastaria a Europa de 1914 a 1918: assassinado em Sarajevo, vitimado pela ebulição dos ódios eslavos e do nacionalismo exacerbado que desmembraria, no futuro, a "monarquia dual". 
Francisco José foi o modelo de estadista europeu que desaparecia no rescaldo da Primeira Grande e das revoluções do século XX. Ou talvez já não existissem... O próprio qualificava-se como um "Monarca da velha guarda", indissociável da imagem que a posteridade guardou de um homem digno e sério, austero e majestático, tradicionalista e ao mesmo tempo moderado, reformista e cauteloso. Ao modelo tão elogiado por Renan, na Prússia, encontraríamos também na Áustria-Hungria os traços desse "antigo regime adaptado e renovado". A ideia da instituição monárquica na Europa assentava nesses pilares fundamentais de uma instituição que era ao mesmo tempo política e social e que se conduziria a uma organicidade perpétua. No seu longo reinado tentou conciliar as divergências e ódios, entre culturas tão discrepares e territórios que, mal sucumbida a coroa, edificariam fronteiras entre si, desde o norte da Itália à Ucrânia, alcançando as montanhas da Transilvânia, 50 milhões de súbditos pertencentes a onze nacionalidades diferentes. A sua autoridade paternal de inspiração cristã era sensível às divergências religiosas que procurava congregar, onde judeus, muçulmanos, protestantes gozavam de ampla liberdade. É um império aberto às artes e à cultura de que Viena fazia furor, um verdadeiro cosmopolitismo que Budapeste e Praga também acompanhavam, produzindo nomes como Freud, nas ciências, Klimt nas artes, Kafka ou Stefan Zweig, na literatura, Mahler, na música; ou mesmo quem não conhece a valsa vienense que uma família de músicos, da família Strauss, legou? Todo um mundo se desvaneceria, felizmente o velho Kaiser não assistiria ao desfecho trágico (a ascensão do bolchevismo, nazismo, fascismo e outras loucuras que o século desvelaria na aniquilação completa da Europa). Podia bem aplicar aquela máxima atribuída a Madame de Pompadour: "Depois de mim, o dilúvio". Fica, contudo, uma memória do Kaiser, contada por Kuehnelt-Leddih, no seu livro "Liberty or Equality". No dia em que o Presidente dos USA, Theodore Roosevelt, visitou Viena e foi recebido pelo Kaiser, perguntou-lhe qual o papel do monarca nos dias de hoje, ao que o austero e majestático imperador respondeu: "Proteger o meu povo dos seus governos." Com a morte de Francisco José morria também a velha Europa.




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