sexta-feira, 17 de abril de 2015

O monárquico anarquista




Parece um oxímoro falar num "monárquico anarquista", mas João Camossa personificava bem o paradoxo, talvez por admirá-lo na indiferença para com a mundanidade, com aquelas barbas que bem podiam lembrar um Kropoktin ou um Bakunine. O anarca de Camossa tem liminar aproximação àquela ideia de Junger que gosta "da anarquia, mas não dos anarquistas", o  anarca é, de forma profunda, um solitário, como aqueles nomes primeiramente citados, dois príncipes russos que personificam o carácter aristocrático do anarca revoltado contra o mesmo mundo. Não lhe faltavam os costados da resistência, o pai capitão da marinha, fora um dos resistentes ao 5 de Outubro, interessa lembrar, para quem continua a suportar a ideia de que a monarquia caiu sem oposição, ainda houve um capitão-mar-e-guerra Augusto Saldanha (pai de João Camossa), ao lado de um Paiva Couceiro, aquela estripe guerreira que de forma romântica podemos associar aos leais soldados na estribeira do seu rei. Era, como todos os idealistas, um "rebelde contra os pressupostos prevalecentes" e um radical, como escrevia um outro monárquico chamado Kunnelth von Leddihn, também resistente contra todas as tiranias e crítico à loucura da modernidade. 

A ideia do rebelde não se esgota na sua finalidade primária de se apresentar apenas contra as regras do jogo convencional, ele deliberadamente enfrenta esse "totalitarismo democrático", na máxima jungeriana da luta contra a modernidade despida de alma, que absorve o individuo e o escraviza. É o rebelde que recusa eliminar a sua individualidade nas multidões, um sentimento aristocrático que o devolve à primazia da solidão. O anarca Camossa tem essa similitude com Junger, é o soldado desmobilizado e que novamente retoma à escrita, ou o trabalhador que se volta para a vida espiritual, mais um espadachim do que um bombista.  

Entendo quando convicto se denominava um"monárquico anarco-comunalista",  ou um "anarco-miguelista", não pretendendo com isto fabricar conceitos políticos ou entrar em derivas ideológicas, tinha a sua percepção do mundo e dos homens, da história e da política, não tinha ilusões, distópico e fundamentalmente crítico, na esteira de se isolar numa sociedade cada vez mais igualitária no sentido capitalista, em que o consumismo e as modas ceifam as inteligências, então a coragem de ser diferente apenas interessa aos corajosos, por originais e intransigentes na sua vontade de se assumirem como homens livres, como Camossa sempre foi.  

Podia ter tido vida fácil, não fosse um gastador, ou uma alma generosa, irresponsabilidade económica que o arrastou para a miséria, teve inclusive de vender a biblioteca herdada para poder sobreviver. Aristocrata por temperamento, anarca por condição, monárquico por convicção, caminhava em sentido contrário a quaisquer movimentos, regimes, grupos, tudo o que inculcasse cartilhas, ideologias, partidarismos. Mas sabia estabelecer alianças e, no miasma em que convergiam as inteligências, sabia dar a voz à luta. Algumas histórias ficaram para marcar o mito. Em Camossa, da sua eloquência, da sua personalidade, é difícil distinguir os factos da lenda. Sabe-se que durante o exercício da profissão (ele era advogado), e em plena barra do Tribunal Plenário de Lisboa, passou, em circunstâncias insólitas, de advogado a réu. Ora, para tal, tinha de despir a toga. Ameaçou o juiz de que estava nu por debaixo da toga. Se verdade ou não, tal não posso, na falta de mais dados, confirmar. Mas demonstra muito de um homem pouco convencional, conflituoso e de coragem determinante. Quando ser monárquico podia possibilitar uma entrada na Assembleia Nacional, tal nunca o seduziu. Nem monárquicos como Hipólito Raposo e Luís de Almeida Braga regozijaram com qualquer regime, o sentido da resistência era o mesmo. Preferiu o perigo, entre desilusões e fracassos, contra o ministerialismo do poder centralizador e contra outros despotismos que bem se podiam justificar entre ideologias e com os "amanhãs que cantam". 

Não estava para sectarismos, nem se reclinava perante a banalidade dos grupúsculos, exemplo desse carácter incoformista revelou-se quando recusou falar ao Diário Popular na cervejaria Trindade, alegando: "Que diriam os meus inimigos se me vissem retratado com um fundo de alegorias maçónicas?" - era esta a sua postura. 

Por um lado o anarca, o desregrado, o rebelde, por outro o activista, o político, o militante. Um homem de paradoxos e de complexidade marcante. Participou na revolta da Sé (1961) e no Golpe de Beja (1961), se se opôs ao Estado Novo também se oporia àquela transformação violenta orquestrada pelo Partido Comunista e tão pouco simpatizava com qualquer outro extremo à esquerda. Foi co-fundador da «Convergência Monárquica» e em 1974 funda o Partido Popular Monárquico, ao lado de Barrilaro Ruas, Rolão Preto e Ribeiro Telles. Figuras igualmente paradoxais, como Rolão Preto, o aventureiro quase quixotesco dos camisas-azuis, o mais jovem da primeira geração do Integralismo Lusitano, depois o velho e honrado idealista que vivera o frenesim do século XX entre a loucura das ideologias e a aventura da guerra, nacional-sindicalista que concebia o rei com os sovietes. Estes eram os homens capazes de brandir o seu credo com a força demolidora do verbo.

Camossa invocava uma corrente libertária para quem o rei devia ser o último vestígio do Estado. Podia também aliar-se a outro anarca-monárquico, o Salvador Dali, ou a um Tolkien, cujo pensamento não divergiria muito. Ou ainda, um pouco mais velho mas ainda assim conhecido, um homem livre como Afonso Lopes Vieira, e ainda, próximo e contemporâneo, um Agostinho da Silva, no reencontro entre um neo-republicanismo místico e uma concepção anarco-comunalista reivindicada por uma facção do Partido Popular Monárquico, ideias compreendidas da influência de Herzen e do federalismo municipalista que apaixonara, nos primórdios da contestação oitocentista, uma primeira geração de republicanos. Subsumiam-se as ideias de uma monarquia pré-absolutista, idealizada na sua formulação popular e democrática, porque o que é verdadeiramente tradicional é inventar o futuro (diria mestre Agostinho da Silva). 

A quem teima em colocar estereótipos sobre os monárquicos (e talvez eles sejam os principais responsáveis por essa imagem) Camossa permanece como uma figura fugida ao desinteresse deste mundo de banalidades e etiquetas. Não deixou uma obra escrita, um pensamento que possamos delimitar, ele próprio teria detestado um qualquer séquito de discípulos, mas deixou o Centro Nacional de Cultura, do qual foi um dos fundadores, deixou na memória uma luta inabalável em nome da instituição que compreendia melhor representar Portugal, para todos os efeitos a monarquia era a alternativa possível e nunca concretizada. 

Fica aqui a homenagem a um homem singular e grande. Um homem verdadeiramente livre que podia ter proferido aquelas mesmas palavras de Ernst Junger: "para se chegar a ser livre, há que ser livre, pois a liberdade é existência". 

4 comentários:

  1. Amigo, aqui está um texto que anima e que fala à alma. Uma inspirada dedicatória. Pena que não sobrem muitos escritos de João Camossa.

    Um forte abraço

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  2. A história da toga também é contada com Rolão Preto como protagonista.

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  3. Obrigado Manuel, bem aparecido sejas, tem sido sentida a tua falta naqueles combates que tanto animavam o facebook.
    Muito obrigado pela atenção. Também sempre que posso sigo o "Espectador Portuguez".

    Um grande abraço.

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  4. Tive a honra de conhecer e privar durante algum tempo com este Homem ímpar, de quem recolhi ensinamentos

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