quinta-feira, 30 de abril de 2015

Este Maurras III



‘La monarchie c'est l'anarchie plus un’ - fórmula apresentada na sua forma dedutiva e lógica a partir do racionalismo de oitocentos, imediatamente atribuída a Charles Maurras, muito proudhoniano, que preconizava uma sociedade livremente constituída nos seus corpos intermédios e que acreditava numa estado mínimo. Concepção essa que estava na iminência do primeiro Maurras, o que escrevia na esteira dos ideais do federalismo, que vibrava no helenismo, que estudava no ardor do positivismo comteano. Logo a esquerda ergue acusação contra Maurras, por ter roubado (ou desvirtuado) o conceito de “libertário”, talvez num instinto provocador, mas tal é não compreender as influências dos movimentos anti-liberais, anti-capitalistas e críticos à democracia da III República francesa que convergiam num mesmo sentido, quer o anarquismo de Proudhon, ora a tradição monárquica que romantizava uma originária forma orgânica pré-revolução. As contradições e sentidos dilatórios entre o pensamento contra-revolucionário e o sentido revolucionário de critica à sociedade burguesa depararam-se com algumas afinidades. Dirá Maurras, elogiando aquele maior, referindo-se ao pensador anarca como  "abstraction faite de ses idées, Proudhon eut l'instinct de la politique française" e que reverenciará na "passion révolutionnaire qui anime Proudhon", compreendendo a necessidade de se revoltarem contra os verdadeiros inimigos: o capitalismo judaico e a ordem social imposta pelo estrangeiro, em nome de um socialismo que cruzará (na fase derradeira) com o  nacionalismo, a necessidade da autoridade e da ordem. 
O rei é o garante da repartição igualitária da propriedade, apenas ele pode garantir o equilíbrio. Avulta essa postura tão radical e tão cara ao pensamento maurrasiano, refém das premissas arrancadas ao entendimento do racionalismo que cegou aquela geração de enganos. Mas há a finalidade última a alcançar e que merece ser preservada. Esse Maurras levado a defender uma sociedade livremente constituída nos seus corpos intermédios e, como a pedra que fecha a abóbada,  o Rei, coexistindo num Estado regulado minimamente, e cuja continuidade e independência são a garantia do princípio dinástico, patrimonial e familiar - encontramos ideias semelhantes em Salvador Dali,ou um Tolkien, ou nos monárquicos portugueses que se apaixonaram pelo anarco-comunalismo de Herzen, são outras tendências por exemplo. 
Ainda outros autores para quem a realeza representa o equilíbrio desejável entre a autoridade e a liberdade, garantidos pela transcendência, afinal o “pontifice”, aquele que une ambas as margens, o divino e o terreno - num entendimento clássico. Não é o semi-deus, mas aquele rei que tem a antecedê-lo a lei divina e a moderá-lo a própria constituição, entendida como constituição histórica - como na nossa monarquia sempre se conheceu. Mas, voltando a Maurras: que liberdade, que federalismo tão apologético desse doutrinador nos primeiros anos de polemista? 
As formas de liberdade sobre as quais o olhar maurrasiano soçobra encontram-se, a seu ver, na Suíça. Parece-nos neste instante tão contraditório, no seu anti-liberalismo, nas suas criticas à democracia, mas a luz é vasta e esplendorosa na leitura que não abandona os paradoxos e as vicissitudes do seu tempo. Para Maurras, a Suíça é como um traço precioso do organismo francês destruído pela revolução. Falta à França essa “coluna vertebral” da autonomia de governo e do sindicato local, que, na hierarquia da pátria, na sua diversidade e idiossincrasias, organizar-se-ia numa multitude de pequenas repúblicas federais, é a ideia alcançada naquele panfleto com que atacou o centralismo republicano 'De la liberté Suisse à l’unité française' in “Quand Les Française ne s’aimaient pas”. Eis o magma que reveste aquele particular raciocínio, a primeva exaltação da ideia que vem florescendo contra as formas barbáricas da modernidade. Não é contraditório nem paradoxal, antes defende uma concepção de liberdade que não confundida com o liberalismo; de democracia que não confundida com a revolução, talvez mais próxima à democracia orgânica e, contra o capitalismo e crítico do socialismo, contrapondo com o corporativismo. 
Conhecia os desígnios do homem e da história, classicista profundo, francês e homem europeu, da ascendência legada pelos quarenta reis, reclinava-se para a ideia mais profunda, a inteligência do raciocínio e a argúcia do pensamento, uma visão oracular que vem despertar as consciências. Será este o destino cruel das mentes inconformistas condenadas ao desterro na própria pátria. A Maurras aplicaria aqueles versos sublimes de Brasillach: Mon Pays m'a fait mal - e a pátria não o soube honrar, saibamos nós prestar a devida homenagem. 

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