quarta-feira, 29 de abril de 2015

Este Maurras II


‘Ênquete sur la Monarchie’ providencia a indispensável reflexão à restauração monárquica, mas é esse mesmo pensamento quem o enforma e quem o condena, a ideia do Bem Comum e da Virtude enviesada pelo positivismo de Comte não pode goirar num maior fortuito, está condenado o cientismo pelas suas próprias contradições. Não perde a substância, porém, o espírito sobrevive a um corpo defunto e marcado pela época. Onde cabe o pensamento de Maurras na nossa direita (pobre direita) portuguesa, tão carente de tudo o que seja verdadeiramente português e tradicional? 
Maurras acusa a República de não realizar o bem comum, mas apenas os interesses particulares, e na democracia via apenas a promoção do reino do dinheiro em vez do Espírito - aqui entrava muito da influência greco-romana, o leu helenismo particular. Era a família, a moral e a nação quem estavam ameaçados na confusão germinada no solo da III República, a vilipendiada e corrupta República, a do caso Dreyfus que Maurras, adepto entusiasta anti-dreyfusard, ataca. Difamado (foi acusado de anti-semitismo) e manchado num mundo do pós-Guerra, julgado e humilhado pelos vencedores, como Brassilach, Rebatet, Céline. Era ao mesmo tempo um incorrigível, como ficou memorialmente lembrado o ataque ao Procurador que o julgava como "colaboracionista": “A violência, senhor procurador, reside no facto de estardes vós no lugar em que estais e de não ser eu a estar aí, a desempenhar um tal papel!». Não é condenado à morte, mas fica em prisão perpétua, de forma impassível comenta: "C'est la revanche de Dreyfus!" 
Na esteira dos altos princípios encontra a grandeza dos ideais perdidos. Está na lógica do nacionalismo, porque a nação, defendia, não é a soma obscura e fantasista de liberdade apreciada pelos eleitores, mas antes a encarnação do imortal princípio da “terra e do sangue”, para os quais todos os indivíduos se deviam submeter. Na argúcia dos argumentos sustenta a necessidade do Estado em superar o sistema de classes e organizar a sociedade de acordo com as linhas de representação profissional e poder local. Conclui então pela monarquia, única instituição capaz de providenciar a protecção debaixo da qual a reorganização necessária da sociedade poderá ter lugar. 
Contrapõe a ineficácia da República face à restauração monárquica, objectivo concretizador daquele conceito a que nos habituámos a escutar, o “nacionalismo integral”. Não originaria a monarquia qualquer forma de tirania, na mediação exacta das forças, no equilíbrio dos poderes. Ficava então garantida a estabilidade, numa aliança favorável entre a autoridade de cima, com as liberdade a nível local; as repúblicas unidas pelas Realeza, as realidades locais, as províncias e corporações, a estabilidade horizontal e a hierarquia, a verticalidade, como um todo somado a partir dos diferentes organismos. 

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