quinta-feira, 5 de março de 2015

Oliveira Martins sobre a decadência nacional


Caricatura de Oliveira Martins, por Rafael Bordalo Pinheiro


 "A consequência mais profunda da revolução liberal foi a ruptura da tradição, o acabamento definitivo do sebastianismo: exprimindo por esta palavra simbólica todo o corpo de ideias, ambições e costumes históricos. Substituiu-se-lhe, porém, a consciência de uma nova pátria moral? Acordou-se o sentimento de um verdadeiro individualismo, fundado na religião democrática? A personalidade tornou-se forte e consciente dos seus direitos? A inteligência apurou-se? Cresceu o saber? Pôde, com estes elementos, constituir-se o corpo homogéneo de uma nação real e viva?

Afigura-se-nos que não; e oxalá isto seja apenas a ilusão de um espírito triste. A vazia agitação política, resultado necessário dos regimes parlamentares, parece condenar os pequenos países a uma esterilidade intelectual, porque absorve todas as capacidades desde que desabrocham. (...) Vê-se, pois, uma educação aparentemente mais extensa, mas de facto sem intensidade, nem vigor, condenada a uma decadência fatal.

(...)

"Daí vem o caso, talvez único na Europa, de um povo que não só desconhece o patriotismo, que não só ignora o sentimento espontâneo de respeito e amor pelas suas tradições, pelas suas instituições, pelos seus homens superiores, que não só vive de copiar, literária e politicamente a França, de um modo servil e indiscreto; que não só possui uma alma social, mas se compraz em escarnecer de si próprio, com os nomes mais ridículos e o desdém mais burlesco. Quando uma nação se condena pela boca de seus próprios filhos, é difícil, senão impossível, descortinar o futuro de quem perdeu por tal forma a consciência da dignidade colectiva".

in, Oliveira Martins, "História de Portugal", Guimarães Editores 1964.

Sem comentários:

Enviar um comentário