quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Quo vadis Delgado?

Da história ficam as pérolas. A notícia que agora corre para gáudio da saciedade e dos politiqueiros à espera de popularidade é notória: "António Costa quer mudar nome do Aeroporto da Portela para "Aeroporto Humberto Delgado", " porque: "foi uma figura notável do país político do século XX" e "contribuiu para manter activa a oposição ao regime" (etc. etc.) - Mas quem foi Humberto Delgado?

Humberto Delgado foi um dos militares do 28 de Maio. Militou nas fileiras da Legião Portuguesa (de que foi dirigente). Foi um dos ultras da direita, como comprova o livro que escreveu "A Pulhice do «Homo Sapiens»". Na obra, recheada de parágrafos violentos, no uso de uma linguagem excessiva, acusando os traidores (os do "reviralho"), Delgado exalta a sua profissão de fé ultradireitista: “O povo soberano pela boca do seu soberaníssimo parlamento cuspia, falava, berrava na grande fábrica de destilação de saliva que era S. Bento”, e, sobre a ditadura, acrescentava ainda a "apreciação da obra da Ditadura, obra que só quem não quer não vê”.

E o que escreve sobre Oliveira Salazar? Pois, demonstra apreço pela obra do Presidente do Conselho: “Basta a obra de Oliveira Salazar que se sente nas mais pequenas cousas, e que pena foi tivesse a crise mundial a contrariá-la, para que merecesse a pena ter-se implantado a Ditadura”.

Cada homem é filho do seu tempo (nesse sentido Delgado não é excepção): seguiu os ventos do nacionalismo dos anos 30; entusiasta do estilo fascista apoiou o Estado Novo e a sua política anti-comunista, até aqui, nada de novo debaixo do sol.

A mudança de posição do general é contada por Jaime Nogueira Pinto em "Portugal os anos do fim", uma mudança motivada por antipatias no seio do próprio regime (mais do que qualquer idealismo anti-salazarista ou o romantismo motivado pela mítica da oposição ao Estado Novo...). Contava-se, na altura, que o Ministro da Defesa, Santos Costa, tinha largas responsabilidades no "caso Delgado", porque vetara a nomeação do general para o cargo de governador-geral de Angola, "depois de ter acalentado a sua vaidade e ambições". A atitude de Santos Costa lança Delgado para os braços da oposição. Salazar nunca perdoou este erro a Santos Costa. Delgado amuara também por outra circunstância, a certo momento fora preterido na chefia do Estado-Maior da Força Aérea a favor do general Costa Macedo (outro revés na vida do general). Acabou por ir para os Estados Unidos como adido militar onde ocupou (antes de se candidatar à eleição em 1958) o cargo de director-geral da Aeronáutica.

O general Delgado tinha os seus motivos para estar zangado (e amuado) com o regime. No final, converteu-se numa figura catalisadora para o descontentamento face ao Estado Novo. As peripécias do "general coca-cola" são já conhecidas, o seu destino preenche páginas que convêm à lenda do homem que um dia sonhou demitir Salazar.


Salazar e Carmona no acampamento da Legião Portuguesa (1937), Humberto Delgado, um dos dirigentes militares da organização, faz a continência (à esq.).




Salazar e dirigentes da Legião Portuguesa (Delgado é o da ponta, à direita) - 1937.





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