sexta-feira, 1 de março de 2013

Coração solitário - Tchaikovsky



A tradução ao poema None But The Lonely Hearts, não é pacífica, esta primeira tradução anglo-saxónica para o poema de Goethe Nur wer die Sehnsucht kennt, não lhe é totalmente fiel, de forma mais próxima soaria Only he who knows loneliness, porém, a ideia do poeta preserva-se incólume, uma palavra não destitui a outra, neste caso, e a melodia de Tchaikovsky apenas vem corroborar o drama inerente ao destino poético, talvez, como escrevia Nietzsche os poetas tornam a vida mais leve, na mesma acepção  com que podíamos tomar o diálogo de Fedro, no qual é idealizado o amor platónico enquanto elevação da alma, porque esta, esquecendo o peso do corpo, pode ganhar asas e alcançar os deuses.
Pode assim o poeta idealizar o amor na distância da saudade - palavra tão comummente usada para designar o que Unamuno apontou como "o sentimento português por excelência", mas um mesmo Goethe poderia senti-lo vivo e profundo, permitindo aos músicos recuperar esse sentido e expressá-lo na angústia de uma melodia que seja expressão da alma do poeta.
Tchaikovsky compôs a melodia em 1869, extraído de uma citação do poeta russo Lev Mai, cujos conhecimentos de alemão permitiram atribuir uma voz russa ao poema de Goethe, e sendo Mai filho de um alemão certamente compreenderia bem a alma prussiana, colhidas depois por Tchaikovsky, que revisitou o sentimento universal da perda e da solidão, esse inesgotável som que nasce como um profundo ruído de angústia.
É a recusa romântica à felicidade, a concepção da introspectividade comum ao romantismo, voltando-se para a apologética do eu.
Mas não apenas Tchaikovsky também Schumann e Schubert  encontraram refúgio nessas palavras. Nur wer die Sehnsucht kennt, que bem apela ao romantismo da época. A ideia do sentimento platónico perde talvez seguidores num mundo dominado pela informação imediata, uma época tão artificial, tão incompatível com a ideia de contemplação, apenas alimentada pelas sensibilidades que buscam o prazer na concepção do belo, ao contrário doutros que pretendem deformá-la para roubar a verdade existente nela (numa acepção mais próxima a Schopenhauer).
 A melodia confere ao poema a inquietação, a ansiedade e a melancolia sentida na exasperada busca do amado, a ideia romântica nunca demasiadamente estranha ao idealista que busque conhecer os sentimentos humanos na sua universalidade.
 Deixo a tradução inglesa do poema, aqui interpretado por Eula Beal (1919-2008):

None but the lonely heart
Can know my sadness
Alone and parted
Far from joy and gladness
Heaven's boundless arch I see
Spread out above me
O(h) what a distance drear to one
Who loves me
None but the lonely heart
Can know my sadness
Alone and parted
Far from joy and gladness
Alone and parted far
From joy and gladness
My senses fail
A burning fire
Devours me
None but the lonely heart
Can know my sadness

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