domingo, 28 de abril de 2019

A silhueta de Salazar

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130 anos passaram do seu nascimento. A imagem é tão distante como a de um velho álbum de família onde os rostos pairam como fantasmas e as memória apenas aos mais velhos deixam margem à nostalgia. Os novos que fiquem com a indiferença, ou com a saudade do tempo que não viveram. Que se alimentem dos ódios e glórias alheias. Mas é impossível não constatar na presença eloquente, como um monumento que finca a sua memória para a eternidade. Não precisa de estátuas (quantas já eliminadas), porquanto a sombra continua a pairar irrestrita. A silhueta de Salazar faz sombra à paisagem democrática. E continuará a prevalecer.

Independentemente do sentido, o nosso século XX saiu debaixo do capote de Salazar. E talvez com ele apenas Afonso Costa e Mário Soares possam competir (mas sem a mesma dimensão): três regimes, três repúblicas, com significados e aspirações diametralmente opostas e conflituantes. Três regimes porque se digladiam e batem claques variadas. Nem falaria de D. Carlos e Sidónio, os mártires que deixaram um lastro de aspiração e grandeza por consumar. Homens houve tão velozes como o século e cuja intrepidez trágica impediu de realizarem as suas expectativas. Salazar, pelo contrário, permaneceu, bem advertido pela sapiência de Charles Maurras que em carta apelava: "Restez! Tenez!"

E, entre os vários estadistas, também diferenciável, particular, original. No fundo, criou o mito. Os discursos, as palavras, o rosto, a voz, continuam a pairar no imaginário, nas atitudes. Da esquerda à direita permanece como aparição, do Desejado ao bode-expiatório, do Santo ao infame. 

Poucos terão alcançado tanto. Implacável como D. João II, sóbrio e dedicado ao Estado como Filipe II (I de Portugal), homem da terra e do apego às tradições, era um filho do Portugal antigo. De acordo com a sua visão construiu um regime. À maneira de um primeiro ministro de um rei absoluto o poder fora-lhe entregue, conquanto, não pelo monarca, mas pelos militares. Aqui reside uma das particularidades da sua figura, quando confessava não precisar de clientelas políticas, nem das multidões, nem da demagogia, nem de ligações partidárias, e concluía: "Sou, tanto quanto se pode ser, um homem livre." Raros políticos poderão dizer o mesmo.

O Portugal de Salazar é, contudo, uma miragem. Tão longínquo. Talvez sentisse pesar o momento derradeiro da pátria. Como protagonista numa renovada epopeia pretendeu manter-se inflexível ao leme, contrariando os ventos que sopravam desfavoráveis. Era um homem do século XIX, que falava e escrevia de forma ilustrada lembrando a melhor prosa do século XVII, que regia a vida de acordo com a tradição, fiel à fé antiga, numa Igreja que também preparava a mudança. Num mundo dividido em demo-liberalismo e comunismo, preservava neste canto do Atlântico a última réstia do Portugal histórico, mesmo, relutante, aceitando a mudança. Realista dirá: "Hão-de dizer muito mal de mim", assim como confessaria a Christine Garnier: “Os que desejam aplaudir-me hoje hesitariam em desviar-se de mim se outra paixão se apoderasse deles?”

Afinal, foram quatro décadas de um homem à frente dos destinos de um país, o bem, o mal, as virtudes, os defeitos, apenas na longitude da memória poderão ser considerados. Pensado-os, medindo-os na distância permitida, temos apenas de afirmar e admitir que ombreou com os grandes da história. 

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