segunda-feira, 9 de abril de 2018

Monarquia e fascismo (particularidades e dissonâncias) - Parte 2

Se o fascismo é caracterizado pelo carisma do chefe então também somos obrigados a tecer uma separação entre o modelo Italiano e Alemão, e o modelo Português, Espanhol, Francês (Vichy), Lituano, Polaco, Romeno, para enumerar alguns.
Salazar certamente correspondia mais a um modelo político a la Ancien Regime, do que propriamente a um político da era moderna populista e exaltador de multidões. O radicalismo fascista, imbuído de um certo paganismo, tão pouco caberia na idealização do Estado Novo, arranjo à portuguesa de um modelo autoritário, de acordo com o insuspeito Oliveira Marques uma terceira via entre os regimes demo-liberais e os sistemas socialistas do leste.
Salazar distinguirá mesmo o Estado Novo do fascismo em entrevista a Henri Massis, como já fizera antes em entrevista a António Ferro. Decorria pois uma distância profunda entre a pretensão “fascista” em  viver perigosamente,  e a necessidade salazarista em educar os portugueses para aprender a viver habitualmente.
Em suma, distingue-se o viver perigosamente e radicalmente do espírito fascista e o viver habitualmente na concepção mais contra-revolucionária do salazarismo, um autoritarismo pragmático, um nacionalismo realista, de inspiração católica, modelo moderado e, apenas em certa medida, admitindo adaptação estéticas ou regimentais dos modelos de além-Pirenéus. Pois que Salazar adequou muito dos ensinamento do próprio Charles Maurras, ainda que com alguma distância no que toca à "politique d'abord", e procurou realizar os ensinamentos dos Papas anti-modernos das encíclicas sociais. 
Se em Portugal há correlação entre o que fora o miguelismo, o integralismo e os modelos radicais assimilados da França e da Itália no século XX, estes apenas têm o traço comum da leitura anti-democrática e anti-liberal, aliás em voga nos anos 20 e 30 desse século, e que foi corolário do nosso nacionalismo e do nosso tradicionalismo, cada qual com o seu discurso e com os seus movimentos. Os mais energéticos jovens da época vão por sua vez inalar a nova brisa de revolta que caracterizou quer os camisas negras em Itália, uma "aristocracia popular", nas palavras de Dominique Venner, quer os camisas castanhas na Alemanha, esses que eram "castanhos por fora e vermelhos por dentro". A juventude avança inspirada pela nova estética, mas reivindicando ao mesmo tempo uma tradição mais antiga de recusa do modernismo, ainda que até certo ponto adequando muito do próprio modernismo para os seus fins. 
Uma adenda apenas, ressalvando o caso português, pois que o nosso miguelismo, reivindicado no século XX pelo integralismo, forneceu as bases de um "nacionalismo português", dadas as próprias especificidades do nosso estado e dadas as características da nossa monarquia. João do Ameal referiu também que era "indispensável" saber o "quanto devemos à longa e prestigiosa galeria dos precursores, na luta abençoada do Nacionalismo Integral, apoiado na Tradição e buscando nela as lições e os alentos decisivos".  
Retomando a linha do nosso pensamento devemos recuar para décadas mais afastadas. Em França os movimentos radicais singravam nos anos conturbados da III República. Logo à concepção revolucionária e nacionalista caiam as críticas da contra-revolução católica e monárquica. Afinal, a monarquia nada tinha que a associasse ao nacionalismo herdeiro da revolução de 1789. A conjugação entre a tradição orgânica e reaccionária que exaltava a hierarquia e a autoridade do Antigo Regime e a tradição republicana nacionalista e romântica será difícil, mas concretizar-se-á.
Seguindo a tese de Ernst Nolte que identificava a Action Française como uma das faces do fascismo, podia arriscar dizer (em oposição à historiografia de Alain Benoist) que o fascismo tem o seu embrião ideológico nas ruas de Paris e nos jornais que circulam entre a Guerra Franco-Prussiana  e o caso Dreyfus (onde o anti-semitismo cunhará a sua forma mais exponencial). 
O ano 1885 será determinante, a crise legislativa da República levava à radicalização da direita. O anti-semitismo lá estava, cunhado pela pena de Proudhon e Fourier, no ataque ao grande capital associado à ameaça judaica. As crises financeiras, os escândalos económicos, a insustentabilidade política e a crise da classe média, servem todo o argumentário  antiparlamentar e antidemocrático.  Bonapartistas e monárquicos conciliam-se, ex-communards, panfletários radicais e aristocratas romanticamente nostálgicos do Antigo Regime, católicos reaccionários, todos encontram um fim comum, o ódio àquele sistema que viam como corrompido, e organizam-se na Liga dos Patriotas.
A Razão de Estado nacional ganhará força pela pena de Charles Maurras, que procurará conciliar o nacionalismo com a monarquia, justificando o regime não com base em argumentos metapolíticos mas de forma dedutiva, porquanto arrancado ao positivismo e ao racionalismo dos quais nunca completamente se libertou. Pode-se dizer que Maurras ergueu as "armas" ideológicas da modernidade contra a própria modernidade.
 Um mesmo Maurras que sintetizará a proficiência ideológica ao afirmar: "retire-se ao socialismo as suas ideias cosmopolitas e democráticas e servirá tão bem ao nacionalismo como uma mão dentro de uma luva". O mestre da Action Française aproxima-se a George Sorel, que, por sua vez, influenciará os socialistas radicais italianos dissociados do Partido Socialista. Vemos então como as ideias mais idiossincráticas juntam forças apenas explicado pelo vazio do regime e pela falta de alternativas de um movimento monárquico coerente nos seus propósitos.
Demasiadamente agarrados a um passado que não podiam ressuscitar restou procurar uma alternativa radical que muito explica o sucesso destes movimentos da extrema-direita. Dominique Venner não deixou de observar que o grande feito de Maurras foi ter arrancado os monárquicos das sacristias, a bem dizer, o agnóstico Maurras foi muito mais moderno enquanto crítico da modernidade do que qualquer outro revolucionário, e, dentro da sua actuação deu novo alento a um movimento carecido de doutrina.

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