quarta-feira, 11 de abril de 2018

Monarquia e fascismo (particularidades e dissonâncias) - parte 3

Mussolini não será estranho a estas ideias e movimentos. O fascismo para todos os efeitos nasce como uma corrente contrária ao iluminismo, por um lado, e na recusa do transcendente, por outro. Melhor dizendo, recusa um absoluto transcendente em nome de um absoluto imanente (parafraseando António José de Brito). Primeiro uma revolta contra a modernidade, depois uma consumação dessa modernidade.  O mesmo é dizer, assume-se contrário à modernidade, ainda que seja produto dela. Não deixa de ser curioso e parece quase contraditório. Talvez seja essa a característica destes movimentos: são produções da modernidade que se querem afirmar contra a própria modernidade, uma espécie de Prometeu moderno que não aceita o mundo em que foi lançado, tomando o caminho da eterna revolta, serão o próprio monstro que desperta com a modernidade, essa que querem destruir, mas os quais não deixam de representar, são a voz de um mundo que se revolta contra si mesmo.

A ideia da nação italiana unificada no século XIX já fora pensada por Dante na Idade Média e volta a ser novamente concebida politicamente por Maquiavel. Inserido nesta tradição Mussolini estará mais perto de Maquiavel quando procura concretizar aquele Estado, mas vai mais longe, a esse Estado novo chamará de totalitário, uma consequência lógica do esgotamento das próprias estruturas demo-liberais. Para Gentille o fascismo reclamava a herança idealista e revolucionária de Mazzini unido ao viver perigosamente de Nietzsche. 
A própria carreira política de Mussolini determina este novo espírito: começa como um agitador socialista, um niilista, um jornalista e polemista que abandonará o partido na iminente crise do marxismo entre os socialistas italianos. Lê Georges Sorel, nas suas reflexões sobre a violência, e cultiva a  fé na omnipotência da vontade, delineando já as ideias que inspirariam o movimento. D'Annuzio alimenta a estética e pensa um programa; os futuristas exaltam a estética e a imagética de velocidade e violência; Mussolini lança o movimento enquanto força unitária, dá-lhe uma voz poderosa, concede-lhes um carisma particular, revela-se como um novo César.
Ler a história com os olhos do nosso tempo pode originar uma terrível confusão, primeiro de tudo devemos atender ao novo ciclo político iniciado pelo fascismo, a grande novidade que construiu, o movimento original que motivou. Face ao cansaço da guerra, à humilhação, ao desgaste do sistema liberal, a sedução das classes-médias, a ânsia das classes proletárias, os receios das classes possidentes, tudo agitava a curiosidade. No reflexo de miséria do pós-guerra, o fascismo alimentou-lhes a crença num tempo novo. Então, as ameaças comunistas e as aventuras revolucionárias eram uma realidade bem presente.
Neste enlace revelam-se já as contradições entre fascismo e monarquia. A ideia de uma unidade superior ao destino confronta-se com a concepção monárquica que vê o rei apenas como intérprete de uma ordem que lhe é superior e não o criador dessa ordem. Um Duce não pode ser um rei porque não aceita o que está inscrito mas procura ser ele mesmo a dispor dos princípios fundacionais. Um Estado ilimitado dentro de um poder ilimitado. Victor Emanuel III rei dos italianos estava por sua vez limitado, não apenas pela sua condição de Rei, mas pelas próprias contradições do liberalismo, demasiadamente neutral, impossibilitado de responder a estas crises.  Os juristas da época, por sua vez, estavam demasiadamente empedernidos no espírito do positivismo, sentindo que toda a actuação do novo sistema era justificada porque racional, como concebiam no sentido jusracionalista herdado do século XIX. O mesmo é dizer: não havia já "monarquia" dentro de um liberalismo esgotado, mas apenas um vazio à espera de ser preenchido por um ditador.
A verdade é que os monárquicos de uma forma ou de outra encontram nesta moda um propósito. Não todos, mas pense-se na segunda geração do Integralismo Lusitano, ou em Rolão Preto (o mais jovem da primeira geração de integralistas) que fundará já tardiamente e em plena ascensão do salazarismo o movimento dos camisas azuis, inspirado nos camisas negras italianos, mais próximo talvez da Falange Espanhola, fundada por um ex-monárquico José António Primo de Rivera, o carismático líder do movimento, o regenerador de um ideal nacionalista espanhol. O mesmo que disse: "A monarquia é uma instituição gloriosamente morta", saído da boca de um aristocrata que sentia a falência dos modelos antigos e a insuficiência da nova República em responder aos graves problemas. Contra os divisionismos regionalistas de uma Espanha em ebulição proclama que "a nação é uma unidade de destino no universal". Atente-se, uma concepção muito oposta ao Carlismo que vê a Espanha como Monarquia Imperial, dentro da sua originalidade histórica e dos seus foros antigos. É verdade também que na guerra civil houve um casamento entre carlistas e falangistas, ainda que os dois movimentos nada tivessem em comum a não ser aquele instante de guerra civil no qual se viram abrigados a combater um inimigo comum, naquela que foi verdadeiramente uma cruzada contra o ateísmo militante comunista. Franco forçará esta união, mas o republicanismo revolucionário e nacionalista da Falange está longe de complementar a ideia contra-revolucionária e organicista dos carlistas. No âmbito de combater os "republicanos" de esquerda, anarquistas e comunistas, os "vermelhos", o casamento resultou por momentos, mas espremidas  as ideias encontram-se as profundas divergências.

Em Itália a evolução da revolução fascista tem traços próprios. Ao contrário do que aconteceu na Rússia com Lenine, ou na Alemanha, com Hitler, Mussolini acha que o partido não pode ser o único instrumento de poder, procura um compromisso, mais ou menos conflitual, com a classe dirigente e as instituições tradicionais do Estado, no fundo, adapta um ideário anticlerical, republicano e revolucionário, com uma Itália profundamente católica, ainda monárquica, demasiadamente conservadora. Tem ao seu lado um regimento, toda uma geração que se sente motivada a seguir o Duce, influenciados pelo decadentismo e pelo vitalismo, pelo niilismo e pelo aristocratismo, românticos e violentos, que lêem Nietzsche, Maurras, Barès. O fascismo que se iniciara como revolucionário à esquerda volta-se para a direita, o pragmatismo e  o realismo político de Mussolini assim o determinaram. Sorel elogiará Mussolini, como elogiou Lenine. George Valois que criara o primeiro partido fascista em França também tece elogios ao Duce, chegando a dizer que fascismo e bolchevismo eram modelos que respondiam ao espírito burguês e plutocrático "levantando a espada". Sabemos hoje que tal assim não aconteceria. A Segunda Guerra Mundial determinaria o destino das ideologias.

Não deixa de ser curioso ver a distância que separa a monarquia e o fascismo. A contrario, não deixa de ser verdade que os monárquicos sentiram atracção pelo movimento fascista, por motivos explicados à luz da época, na crise do sistema demo-liberal e no pessimismo do pós-Primeira Grande Guerra.
Contudo, confundir o Rei com um Chefe, confundir o carisma dos populistas com a própria instituição monárquica, por muito tentador, pode contribuir para desvirtuar a própria essência da monarquia. Ainda que bem intencionados, no ensejo de conter a propagação liberal e os desvios modernistas. Mas temos de acautelar e separar ambas as margens. 

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