quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A civilização faústica

O episódio ocorrido em Durham, na Carolina do norte permanecerá nos anais como digno da barbárie hodierna. Ali, imitando o intrépido jacobino no tempo do terror, ou o bolchevique sectário de 1917, ou lembrando fenómeno análogo no ataque ao património cultural pelas forças do Estado Islâmico, e quantos outros exemplos de sociedades em desestruturação, um grupúsculo logrou remover e destruir uma estátua em homenagem aos combatentes da Confederação. Parece um acto localizado e circunscrito, mas tal não decorre isoladamente, nem permanecerá insignificante, pois constitui apenas a pequena parte do problema maior. A feição moralista da (extrema-)esquerda é licença ao abuso: apontando a culpa ao inimigo avançam na latitude da intransigência e se possível usando do terror. Se nos grupos supremacistas volve uma confusão de mitos baseados no racialismo, vociferado numa sociedade em ebulição multicultural, onde cada tribo reivindica a suprema excepcionalidade étnica da sua identidade, naqueloutros apodrece a irracionalidade baseada na sociologia mais primária e na contrafacção da própria história. Pois crêem, os arautos da esquerda iluminada, e das ideologias dos "amanhãs que cantam", purificar um passado amaldiçoado e assim encontrar o homem libertado, o "homem novo", qual "bom selvagem" ao estilo rousseauniano. Este exorcismo à história, tão absurdo, é leiva ao ódio,na elementar certeza de que nações divididas pela guerra civil raramente superam a gangrena moral em que sucumbem. 
Lembrando a máxima de Nietzsche no eterno retorno, ou a fórmula do ciclo histórico de Polibio, os recentes ataques à memória dos heróis da Confederação, ou as práticas violentas seja de que sectarismo for, despertam um outro sentimento, o de inevitabilidade... Isto é, faz pensar como os ciclos da história são inevitáveis, porém sempre enigmáticos. As advertências do passado nem sempre permanecem no nosso espírito, quanto mais os conselhos antigos das sumidades que acusaram a "civilização faústica" ou o "declínio do ocidente". Os homens iludidos pela mescla da ignorância perpetram os actos mais violentos em nome de uma glória inconsequente. Dostoievski, discutivelmente profeta da tragédia russa, conduziu bem a análise na mente de Raskolnikov, de certa forma acompanhando a visão profética de Soloviev, cujo diagnóstico permanece actual no seu "Anticristo". É da metátese do "amor por si próprio", arrancado à antropologia moderna do homem sedento de paixão pelo seu próprio ser, que nasce a tragédia do homem contemporâneo. Não serão videntes estes autores, tal como não serão Burke ou Donoso Cortés, mas perfeitos conhecedores da natureza humana, interpretes esclarecidos dos ciclos históricos e o que predisseram, no século XIX, é perfeitamente análogo ao nosso tempo também.




sábado, 15 de julho de 2017

Alexander Solzhenitsyn sobre a revolução francesa



An address by Alexander Solzhenitsyn , delivered at the dedication of the Memorial de la Vendée in Les Lucs-sur-Boulogne,  France, on September 25, 1993:

Mr. President of the General Council of the Vendée, Respected Vendéans:


Two thirds of a century ago, while still a boy, I read with admiration about the courageous and desperate uprising of the Vendée.  But never could I have dreamed that in my later years I would have the honor of dedicating a memorial to the heroes and victims of that uprising.
Twenty decades have now passed, and throughout that period the Vendée uprising and its bloody suppression have been viewed in ever new ways, in France and elsewhere. Indeed, historical events are never fully understood in the heat of their own time, but only at a great distance, after a cooling of passions. For all too long, we did not want to hear or admit what cried out with the voices of those who perished, or were burned alive: that the peasants of a hard-working region, driven to the extremes of oppression and humiliation by a revolution supposedly carried out for their sake-- that these peasants had risen up against the revolution!
That revolution brings out instincts of primordial barbarism, the sinister forces of envy, greed and hatred--this even its contemporaries could see all too well. They paid a terrible enough price for the mass psychosis of the day, when merely moderate behavior, or even the perception of such, already appeared to be a crime. But the twentieth century has done especially much to tarnish the romantic luster of revolution which still prevailed in the eighteenth century. As half-centuries and centuries have passed, people have learned from their own misfortunes that revolutions demolish the organic structures of society, disrupt the natural flow of life, destroy the best elements of the population and give free rein to the worst; that a revolution never brings prosperity to a nation, but benefits only a few shameless opportunists, while to the country as a whole it heralds countless deaths, widespread impoverishment, and, in the gravest cases, a long-lasting degeneration of the people

It is now better and better understood that the social improvements which we all so passionately desire can be achieved through normal evolutionary development--with immeasurably fewer losses and without all-encompassing decay. We must be able to improve, patiently, that which we have in any given "today."
It would be vain to hope that revolution can improve human nature, yet your revolution, and especially our Russian Revolution, hoped for this very effect. The French Revolution unfolded under the banner of a self-contradictory and unrealizable slogan, "liberty, equality, fraternity." But in the life of society, liberty, and equality are mutually exclusive, even hostile concepts. Liberty, by its very nature, undermines social equality, and equality suppresses liberty--for how else could it be attained? Fraternity, meanwhile, is of entirely different stock; in this instance it is merely a catchy addition to the slogan. True fraternity is achieved by means not social but spiritual. Furthermore, the ominous words "or death!" were added to the threefold slogan, effectively destroying its meaning.
I would not wish a "great revolution" upon any nation. Only the arrival of Thermidor  prevented the eighteenth-century revolution from destroying France. But the revolution in Russia was not restrained by any Thermidor as it drove our people on the straight path to a bitter end, to an abyss, to the depths of ruin. 

One might have thought that the experience of the French revolution would have provided enough of a lesson for the rationalist builders of "the people's happiness" in Russia. But no, the events in Russia were grimmer yet, and incomparably more enormous in scale. Lenin's Communism and International Socialists studiously reenacted on the body of Russia many of the French revolution's cruelest methods--only they possessed a much greater a more systematic level of organizational control than the Jacobins.
We had no Thermidor, but to our spiritual credit we did have our Vendée, in fact more than one. These were the large peasant uprisings: Tambov (1920-21), western Siberia (1921). We know of the following episode: Crowds of peasants in handmade shoes, armed with clubs and pitchforks, converged on Tambov, summoned by church bells in the surrounding villages-- and were cut down by machine-gun fire. For eleven months the Tambov uprising held out, despite the Communists' effort to crush it with armored trucks, armored trains, and airplanes, as well as by taking families of the rebels hostage. They were even preparing to use poison gas. The Cossacks, too--from the Ural, the Don, the Kuban, the Terek--met Bolshevism with intransigent resistance that finally drowned in the blood of genocide.
And so, in dedicating this memorial to your heroic Vendée, I see double in my mind's eye--for I can also visualize the memorials which will one day rise in Russia, monuments to our Russian resistance against the onslaught of Communism and its atrocities.
We have all lived through the twentieth century, a century of terror, the chilling culmination of that Progress about which so many dreamed in the eighteenth century. And now, I think, more and more citizens of France, with increasing understanding and pride, will remember and value the resistance and the sacrifice of the Vendee.

sábado, 17 de junho de 2017

Bom fim-de-semana


La Fe y la vida moderna (tertulia de Lágrimas en la lluvia - 92)


La Fe: ¿por qué creo en Dios? (tertulia de Lágrimas en la lluvia - 100)




La Tradición (tertulia de Lágrimas en la lluvia - 8)




La doctrina social de la Iglesia (debate completo de Lágrimas en la lluvia - 52)



domingo, 7 de maio de 2017

A história continua

Música que me ocorre para esta noite (pela voz do ´"papá" Jean-Marie), o canto vendeano que fez a luta em nome da França eterna. A história não fica por aqui.

Vive le Roi ! quand même.
Vive le Roi, vive le Roi



terça-feira, 2 de maio de 2017

O admirador suíço de Salazar




Ao receber o prémio Camões, em 1938, o aristocrata suíço, Conde Gonzague de Reynold, autor do livro "Portugal", profere: "Graças a Salazar, o país pode de novo olhar para o passado e também para o futuro". As palavras não são vãs, entre os dois homens revelava-se uma mesma visão de fundo, e uma amizade que - embora cultivada à distância - perdurou. Dirá ainda: "o único homem de Estado do mundo contemporâneo a possuir um pensamento e uma doutrina, direi mesmo uma inteligência".

Reynold mantém correspondência com Oliveira Salazar durante 25 anos. As afinidades políticas, as proximidades intelectuais, enquadradas num mesmo sentido ideológico, i,e, o conservadorismo autoritário de inspiração católica, a apologista do Chefe, tão propalada num século dado aos extremos. Mas Gonzague foi muito mais do que um apologista.Verdadeiramente um intelectual, sensível às artes, cultivador das letras, viajado e versátil em línguas (como todo o bom suíço), não era, de todo, o arquétipo do "nacionalista" que a esquerda cultiva incessantemente (o isolacionista, o xenófobo, o bélico), muito pelo contrário: conhecia a Europa e amava-a na sua riqueza, diversidade e grandeza cultural, sobre ela escreveu intensamente e sobre ela pensou profundamente, no seu destino, no seu sentido, na sua sobrevivência. Essa missão andarilha trouxe-o a Portugal, por intermédio de um amigo português também colaborador de Oliveira Salazar, acabando por se maravilhar pelo país e, sobretudo, pelo homem forte que então conduzia os destinos da nação.

Contudo, foi um filho do seu tempo, e incorreu nas vicissitudes de uma época de crise intelectual e espiritual. Na acalmia Suíça dos inícios do século XX formou um grupo, La Voille Latine, que introduziu Maurras nas pacatas estepes helvéticas. Romperia mais tarde com a Action Française e com o mestre do nacionalismo integral. Também, admirador do fascismo, acabaria por criticar as tendência totalitárias, era mais um reaccionário da linha tradicionalista católica, monárquica, nacionalista-conservadora. Natural de um país dividido por línguas e religiões procurou a ideia de uma identidade nacional, assim como para a Europa procurava uma unidade dentro da civilização cristã, verdadeiramente uma antítese do que se tornaria o mundo do pós-guerra. Salazar surgia como uma alternativa e encontrava no Estado Novo português a perfeita realização política, uma terceira via, algures entre a democracia-liberal e o totalitarismo, de certa forma, um paternalismo autoritário, congregador, vertical, orgânico e patriótico.

Foi, sem dúvida, o mais salazarista dos Suíços.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

128 anos




Há 128 anos nascia, nas terras do Vimieiro,pobre filho de pobres, a quem devia à providência a graça da humildade e a generosidade da inteligência, filho de camponeses,  o futuro professor, ministro e Presidente do Conselho, Oliveira Salazar. Último timoneiro de um Portugal maior, histórico, católico, imperial e soberano.
 Depois dele ficou o dilúvio.


quarta-feira, 19 de abril de 2017

Não conformar com o século


"E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus."

Romanos 12:2



p.S.: a propósito de um novo blog, que, se Deus quiser, conseguirei desenvolver, tirei o nome emprestado a Agostinho Macedo, a Besta Esfolada, procurando continuar o que aqui também continuará ser desenvolvido mas de forma mais aprofundada, o tradicionalismo, o catolicismo e a monarquia. 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Sexta-feira da Paixão



Na Sexta-feira Santa fazemos memória da paixão e da morte do Senhor; adoraremos Cristo Crucificado, participaremos dos seus sofrimentos com a penitência e com o jejum. Dirigindo «o olhar para aquele que trespassaram» (cf. João 19, 37), poderíamos haurir do seu coração dilacerado que efunde sangue e água como de uma nascente; daquele coração, do qual brota o amor de Deus por todos os homens, recebemos o seu Espírito. Por conseguinte, acompanhemos também nós na Sexta-feira Santa Jesus que sobe ao Calvário, deixemo-nos guiar por Ele até à cruz, recebamos a oferenda do seu corpo imolado.

Por fim, na noite do Sábado Santo, celebraremos a solene Vigília Pascal, na qual nos é anunciada a ressurreição de Cristo, a sua vitória definitiva sobre a morte que nos interpela a ser n'Ele homens novos. Participando nesta santa Vigília, a Noite central de todo o Ano Litúrgico, faremos memória do nosso baptismo, no qual também nós fomos sepultados com Cristo, para poder ressuscitar com Ele e participar no banquete do céu (cf. Ap 19, 7-9).

Papa Bento XVI in Audiência Geral, 20 de Abril de 2011

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Quinta-feira Santa


pintura: Jesus profetiza sua traição por Judas, por Carl Heinrich Bloch.



Celebra a Igreja Católica o Ofício da Ceia de Nosso Senhor Jesus Cristo na Quinta-feira, porque havendo de partir deste mundo instituiu o Altíssimo e Santíssimo Sacramento da Eucaristia, prova de seu Divino Amor. Iniciando-se o tríduo pascal relembra-nos, pois, os mistérios da paixão, morte e ressurreição de Cristo. Revive-se, nesta Quinta-feira Santa, algumas das passagens mais importantes do Evangelho, a Última Ceia, base escritural para a celebração da Eucaristia, tal como instruiu Cristo aos discípulos, partindo o pão e bebendo o vinho em Sua memória, comprovação de tão pródiga e Divina Liberalidade, para que assim, também o homem caído no pecado se levantasse. Estes elementos, a presença do verdadeiro corpo e do verdadeiro sangue de Cristo, recordou-nos São Tomás de Aquino, "não a apreendemos pelos sentidos, mas só pela fé que se apoia na autoridade de Deus”.


segunda-feira, 10 de abril de 2017

Gloria, laus et honor tibi sit, Rex Christe Redemptor




Música do Domingo de Ramos: Gloria, laus et honor tibi sit, Rex Christe Redemptor, celebrando a entrada de Cristo em Jerusalém para consumar o seu mistério pascal, recebido por turbas de povo entre ramos frondentes e aclamações de hossana ao filho de David. Simbolicamente, os ramos de árvores transportados ao longo dos sete dias invocavam a lembrança das choupanas, que seus país fizeram no deserto, uma observação trazida à luz no sermão de 1572 proferido pelo sábio Diogo Paiva d'Andrade. Neste dia consumado fica o triunfo de Cristo. 
O cântico é entoado depois da procissão, assinalando a entrada no templo. No costume litúrgico antigo, aliás atribuído a Teodulpho, Abade Floriascense, por volta do século 9, o coro, ou assembleia, respondiam do lado de fora da igreja o refrão: Gloria, laus et honor, dirigindo-se ao grupo de cantores que se encontravam sozinhos dentro da igreja. No final do hino as portas da igreja abriam-se e todos entravam entoando o cântico "Ingrediente Domino" ("entrando o senhor na cidade santa"...). E seguidamente celebrava-se a missa.

sábado, 8 de abril de 2017

O liberalismo é pecado



"De todas as inconsequências e antinomias que se encontram nas escalas médias do Liberalismo, a mais repugnante de todas e a mais odiosa é a que pretende nada menos que a união do Liberalismo com o Catolicismo, para formar o que se conhece na história dos modernos desvarios pelo nome de Liberalismo Católico ou Catolicismo Liberal. O que não obsta tenham pago tributo a este absurdo inteligências preclaras e corações honradíssimos, que não podemos deixar de crer bem intencionados. O Liberalismo teve sua época de moda e prestígio, que, graças ao céu, vai passando, ou já passou.
Este funesto erro teve princípio num desejo exagerado de estabelecer conciliação e paz entre doutrinas que forçosamente e por sua essência são inconciliáveis e inimigas.
O Liberalismo é o dogma da independência absoluta da razão individual e social; o Catolicismo é o dogma da sujeição da razão individual e social à lei de Deus. Como conciliar o sim e o não de tão opostas doutrinas?
Aos fundadores do Liberalismo Católico pareceu coisa fácil. Excogitaram uma razão individual, ligada à lei do Evangelho, porém, coexistindo com ela uma razão pública ou social livre de toda a coerção. Disseram: “O Estado, como tal, não deve ter religião, ou deve tê-la somente até certo ponto, que não vá incomodar os que não queiram tê-la. Assim, pois, o cidadão particular deve sujeitar-se à revelação de Jesus Cristo; porém o homem público deve, como tal, portar-se como se para ele não existira a dita revelação”.
Desta maneira forjaram a célebre fórmula: A Igreja livre no Estado livre, fórmula para cuja propagação e defesa se ajuramentaram em França vários católicos insignes, entre eles um ilustre Prelado; fórmula, que devia ser suspeita, desde que a tomou Cavour para arvorá-la em bandeira da revolução italiana contra o poder temporal da Santa Sé; fórmula, de que, apesar do seu evidente desastre, não consta que seus autores se hajam retratado ainda.
Não chegaram a ver estes esclarecidos sofistas, que, se a razão individual era obrigada a submeter-se à lei de Deus, não podia declarar-se isenta dela a razão pública ou social sem cair num dualismo extravagante, que submete o homem à lei dos critérios opostos e de duas opostas consciências. Pois que a distinção do homem, em particular e cidadão, obrigando-o no primeiro caso a ser cristão e permitindo-lhe ser ateu no segundo, caiu imediatamente por si sob o peso esmagador da lógica integralmente católica.(...)"

O Liberalismo é Pecado, D. Felix Sardá i Salvany, P. 
(Versão Original - 1887 - Barcelona, Espanha). 

sábado, 1 de abril de 2017

Qual Europa?



Decorreu um congresso em Lisboa, a Sharing & Reuse Conference 2017, mais um daqueles eventos promovidos pelo marketing das grandes instituições a vender um mundo novo.  
Ao encerrar o congresso resistiam apenas quatro portugueses no público, sem cédula que os identificasse como representação oficial, sem nome no governo, sem investidura de qualquer poder, apenas quatro portugueses absorvidos numa sala repleta. Todos aqueles rostos abstractos e distantes ora são gregos, alemães, franceses, belgas, holandeses, checos, finlandeses, espanhóis, italianos, até a Suíça se fez revelar, até os ingleses na senda do Brexit são mais entusiastas do que qualquer ministro ou secretario de estado português.

 Todos esforçavam-se por arranhar o inglês, único mecanismo capaz de permitir a mínima comunicação. Quando penso que Carlos V, na máxima lembrada pela anedota,  falava aos prelados em latim, aos capitães em castelhano, aos artistas em italiano, às senhoras em francês e aos convidados em alemão,  ou que o Imperador Pedro II do Brasil falava cerca de vinte e três idiomas (sendo fluente em treze), ao ouvir a nossa Ministra da presidência,  enquanto lutava por conseguir libertar um verbo anglo-saxonico, quase que impelia à nossa compaixão e deixava um travo amargo de tão baixa categoria. No tempo do congresso de Viena, um Metternich, um Talleyrand, um von Stein, eram fluentes em francês (entenda-se, liam e escreviam correctamente o francês), aquela que se afirmou como a língua franca universal em substituição do latim. Comparativamente acentua-se o declínio ao descobrir que as nossas elites nem o inglês conseguem soletrar. Já as palavras da ministra soaram de forma quase inaudita:"Lisboa uma bela cidade europeia... e claro portuguesa", destarte, revela aquela subserviência com que julgam encantar os mestres.

Depressa os representantes portugueses desaparecem de cena. Enquanto Espanha tinha representantes do ministério das finanças e da administração pública, e outros governos orgulhavam com os seus ministros e signatários, Portugal foi uma sombra, sintomático da nossa periferização e da distancia a que nos condenamos a nós mesmos. Resta-nos o ar de condescendência com que outros povos nos encaram. 

 De resto, ali de tudo se ouviu do discurso tecnocrático, "eficiência", "eficácia", "moderno", "dinâmico", até à exaltação desta abstração europeia. Até fabricaram um  neologismo que encanta os arautos do progresso: "smart government". Pergunto-me se será isto uma nova manifestação do "estado servil", um Big Brother em expansão, ou uma manifestação novíssima da tese hobbesiana do Leviatã? Não deixo de reconhecer o entusiasmo e a capacidade dos governos em procurar uma administração mais eficiente ou mais organizada, capaz de suprir falhas e insuficiências, o tempo dirá se a demanda foi frutífera. Contudo todo aquele discurso de Power Point e gráficos permaneceu vaga, toda a estrutura comunitária funciona como uma carapaça vazia. Ali falta algo de maior, de transcendente, se se preferir, falta uma Verdade. Uma estrutura tão eficiente e ao mesmo tempo fragilizada caminhará (como, de resto, já caminha) para o abismo.

 Portugal, timidamente, lá revelou a maravilha do seu cartão de cidadão, tão bom que até os ingleses já o abandonaram. Para finlandeses, gregos, checos franceses, belgas, holandeses,ingleses, estonios, foi dia de festa pois levaram todos os prémios. A União Europeia vai mesmo a duas velocidades e a distância, para nós, é de anos de luz.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Mons. Marcel Lefebvre



"Sem preferir a democracia, o Doutor comum considera que, concretamente, o melhor regime político é uma monarquia na qual todos os cidadãos têm uma certa participação no poder elegendo, por exemplo, aqueles que vão governar sob as ordens do monarca; este é, diz São Tomás, “um regime que alia bem a monarquia, a aristocracia e a democracia”
A monarquia francesa do Antigo Regime, como muitas outras, era mais ou menos deste tipo apesar do que dizem os liberais; existia então entre o monarca e a multidão de súbditos toda uma ordem e hierarquia de inúmeros corpos intermediários que podiam expor suas opiniões diante das autoridades superiores, quando necessário.
A Igreja católica não dá preferência por este ou aquele regime; admite que os povos escolham a forma de governo mais adaptado à sua índole e às circunstâncias:
“Nada impede à Igreja aprovar o governo de um só ou de vários, sempre e quando o governo seja justo e ordenado para o bem comum. Por isto, em absoluto, não está proibido aos povos esta ou aquela forma política que melhor se adapte à sua índole ou às suas tradições e a seus costumes”"

Do Liberalismo à Apostasia – Mons. Marcel Lefebvre

quarta-feira, 15 de março de 2017

Infâmia

A campanha infame para difamar a Nova Portugalidade ficará para os anais como uma das mais sujas e ridículas de sempre. Ali houve conluio e ajuste de contas da Associação de Estudantes, ali houve a hipocrisia e cobardia do director que num momento ora conhecia (e reconhecia) a NP e noutro momento já assumia desconhecer o grupo, o mesmo, num email dizia ter cancelado a conferência e noutro comunicado já dizia apenas ter adiado. A sociedade civil depressa seria assolada com os jornalistas a deturpar ideias e a confundir informações numa guerra absurda para alimentar ódios. A (extrema-)esquerda com os trejeitos totalitários não perdeu a oportunidade de revelar o que de pior há na ideologia do politicamente correcto e constatou o predomínio do pensamento único dentro da academia. 
Tudo porque o orador era Jaime Nogueira Pinto, assumido intelectual da direita? Não surpreende que a extrema-esquerda viva agarrada aos fantasmas do passado, sem os quais perderá todas as causas. A quem poderá chamar "fascista" sem o temor levantado pela imagem de Salazar? Sem ideias novas, sem força, sem capacidade para se reinventarem, além dos "amanhãs que cantam", o folclore começa a cair no entorpecimento e as ideias a petrificar. 
Pior é descobrir as proporções do escândalo. A Assembleia da República e o Presidente a pronunciarem-se sobre um assunto que compete à Universidade resolver. Aqui o público encontrou o espectáculo delicioso e não perdeu a oportunidade de avançar com tochas e forquilhas contra os "fascistas" e adoradores do salazarismo. É ridícula a campanha de difamação de uma página de facebook sem associações ou conotações políticas, sem forma ideológica, onde os autores provêm de várias famílias políticas. Que uma página dedicada a divulgar a cultura e a história portuguesa seja maculada na fogueira dos novos inquisidores espanta, não será contudo inverossímil dado não subscrever as teorias históricas culpabilizadoras com que certa esquerda ideológica alimentou várias gerações. Persistir numa historiografia positivista como foi a republicana, ou numa historiografia materialista como quer certa esquerda, é bloquear o avanço do pensamento. Persistir numa auto-flagelação para redimir o passado, acusando o próprio povo a que pertencemos de todos os crimes revela o ódio que os portugueses têm a si mesmos. Esse ódio frutifica em campanhas de inveja, em ajuste de contas e em vinganças, como não deixou de ser o caso. 
A NP tentou desfazer mitos, acabou acusada de colonialismo, tentou procurar a riqueza do nosso património, tentou orgulhar a singularidade portuguesa, acabou acusada de nacionalismo e xenofobia. Ridículo! De associação cultural acabou conotada com a extrema-direita, da qual em vários comunicados, e em entrevista explicativa, se dissociou. Mas como disse um certo estadista (vocês bem conhecem) "politicamente o que parece é". Portanto se aos olhos da sociedade civil e da opinião pública a NP parece todas essas coisas, então, mesmo não sendo nada disso, realmente é. Realmente parece tudo aquilo que não é.  Com a ajuda do jornalismo pasquineiro, mais dado à má língua e à contra-informação, poderemos agradecer esta tragédia. 
Parece ate que a NP tem milícias neo-nazis - pasmem-se! Admirável o que uma página registada no facebook pode fazer. O ridículo prossegue. E o circo não vai parar por aqui, ainda teremos muito para ouvir nos próximos dias. A boa telenovela será o prelúdio de um fim, a velha extrema-esquerda sairá aleijada. Que a Nova Portugalidade inspire um tempo novo.