sábado, 22 de outubro de 2016

Imperador Carlos da Áustria, o último monarca da tradição


publicado para a Causa Tradicionalista 


O último Imperador austro-húngaro permanece enquanto símbolo remanescente da ordem tradicional na Europa, aquela ainda resistente à revolução francesa e sucumbida com a grande guerra, "o suicídio da Europa civilizada", como lapidarmente referira o Santo Padre Bento XV, apóstolo da paz, a quem o Imperador Carlos dedicava especial atenção. Como rei católico servia lealmente o juramento e sentia o pesado peso da coroa de Santo Estêvão como missão apostólica para com o império ameaçado. A monarquia é um dever sagrado destinado a prover a salvaguarda do povo. Essa vocação podia ser comprovada nas atitudes para com os mais humildes, no amor ao próximo e no sacrifício para com os desfavorecidos, a missão de Cristo era no Imperador o corolário de todas as virtudes. Aliás era casado com a Princesa Zita de Bourbon, neta do nosso rei D.Miguel por via materna (a mãe era a Infanta D. Maria Antónia de Bragança). 

Na dianteira dos acontecimentos, tudo fez para impedir que a grande hecatombe se prologasse, chegando a desenvolver conversações com o rei dos belgas (Alberto I) para alcançar uma proposta de paz com os aliados. Sabia que a salvaguarda da civilização europeia dependia da resistência do império, o delicado equilíbrio criado por Matternich aquando do Congresso de Viena e mantida por Bismarck, estava prestes a desabar, levando consigo a Áustria-Hungria e fazendo sucumbir os velhos tronos. 

Dentro do seu pragmatismo concebia uma confederação de estados para acalmar os ânimos nacionalistas entre os povos do império. A visão do imperador Carlos era motivada pelas doutrinas sociais da Igreja. Influenciado por Leão XIII foi um monarca reformista que no império criou o primeiro ministério para assuntos sociais. Ardoroso pacifista aos prisioneiros políticos deu-lhes amnistia. O mesmo confessou: «Todo o meu empenho é sempre, em todas as coisas, conhecer o mais claramente possível e seguir a vontade de Deus, e isto da forma perfeita».
Não apenas devoto ao povo, mas também à família, inculcando nos filhos o mesmo sentido de responsabilidade, enfatizando neles a formação cristã e o amor ao próximo. Fundamentos tão necessários para reflectir, num tempo dominado pelo materialismo liberal, pela decadência na moral, pela dissolução dos vínculos antigos e na ameaça à antiga instituição da família.

O resultado final, logo com o desfecho da guerra, foi o afastamento do imperador. Acabou exilado. Da Suíça, partiu para Espanha e depois acabou em Portugal, na Madeira. Mas nunca desanimado, ao monarca bem podia aplicar as belas palavras do Salmo “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará”, enquadrando tão bem o espírito coerente e integro daquele devoto, nada lhe faltou, mesmo nas alturas de maior miséria, mesmo nos momentos mais tenebrosos. Tal como o Apóstolo das Gentes, depois de uma vida grandiosa de luta e entusiasmo, bem poderia proferir: "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia, e não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor a sua aparição.”

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