terça-feira, 30 de agosto de 2016

Fernando Guedes o "decano dos editores"




Portugal perde um expoente maior da sua cultura. Agradeço-lhe a obra maior que deixou: da editora Verbo para sempre guardarei as enciclopédias sublimemente encadernadas, uma companhia que nem esta época da digitalização pode roubar. 
Mas é o busto solene e sábio de um vetusto príncipe, a quem os louros não cabem apenas para enaltecer a excelência, quem me ocorre desenhar. Não lhe vou traçar a biografia que outros seriam capazes de invocar com maior talento. De resto traço um perfil que me parece justo.
Foi o "cavaleiro" dessa insigne "Távola Redonda", que juntou poetas alternativos ao neorrealismo dos ideólogos comprometidos com o comunismo. Nessa geração ombreou com nomes maiores desde David Mourão-Ferreira a Ruy Cinatti. 
Como homem de letras inspirado trilhou a palavra da poesia à doutrina. Dos poetas malditos aos enfant terribles, os maurrasianos e colaboradores de Vichy, condenados sucessivamente no pós-guerra e prescritos, até que um editor determinado os pudesse novamente devolver à vida; e uma vez mais ressuscitou esses autores reaccionários da Península e as velhas glórias da contra-revolução, de Agostinho de Macedo a António Sardinha; ainda outros contemporâneos: publicou Fernanda de Castro, António Ferro, Franco Nogueira, Veríssimo Serrão. Ademais criou secções dedicadas aos jovens e às crianças - quantas gerações que tanto lhe devem.  
E eis que chega às ideias, aqui a revista "Tempo Presente" seria o seu expoente máximo. Com destreza preencheu a lacuna cultural que à direita subsistia desde os tempos de António Ferro (esse sublime e excelso talento a quem Portugal tanto deve). 
Pertenceu a essa direita patriótica e culta, sem vencedores e sem vencidos, que permaneceu vertical e fiel aos seus princípios (i.e., fiel a Portugal). 
Foi, tanto quanto se possa dizer, um aristocrata, um príncipe. 
A uma direita órfã de ideias deu-lhes autores; e num período dominado pelas esquerdas apresentou uma alternativa ao pensamento. Mas foi muito mais do que essa dicotomia política, ele procurou dar aos portugueses um esteio de educação, um porto abrigado pela liberdade de pensamento, pela cultura, pela arte. Verdadeiramente: um livre pensador. 
Porque invocar o nome de Fernando Guedes é atrair uma legião de combatentes que nesses anos difíceis do PREC demarcaram com originalidade e valentia o espaço de um pensamento não corrompido pelos "amanhãs que cantam", é igualmente lembrar António José de Brito, Rodrigo Emílio, Goulart Nogueira, António Pedro, António Manuel Couto Viana, Malheiro Dias.
Foi um combatente, mais: um resistente. 
Foi um artista, um intelectual, um pensador - foi um príncipe da nossa cultura. 

Fernando Guedes, Presente!