sábado, 28 de maio de 2016

Porque hoje é 28 de Maio...


foto: estudantes de Coimbra saúdam Gomes da Costa 


A 28 de Maio de 1926 os militares puseram fim à brincadeira (bandalheira) republicana, golpe forjado pelas espadas de velhos republicanos e por jovens tenentes já conhecedores das lides quando, em 1917, ainda cadetes, marcharam com Sidónio. O golpe se militar grandemente extravasou campos políticos em nome da regeneração nacional. Nele marcharam católicos, cansados das perseguições e fanatismo anti-clerical do Partido Democrático, nela estiveram monárquicos, cansados da censura e das perseguições, na esperança que o golpe vingasse no regresso do rei e na redenção monárquica, nela germinaram nacionalistas que fariam o furor nos gritos ao Chefe. Os estudantes de Coimbra estendem as capas negras à passagem de Gomes da Costa e gritam Vivas. Intelectuais como Fernando Pessoa não escondiam a admiração, aplaudindo no opúsculo "Interregno - defesa e justificação da ditadura militar em Portugal" a iniciativa militar: "provámos que é hoje legítima e necessária uma Ditadura Militar em Portugal" (Pessoa dixit). Um golpe militar que teve a anuência de uma nação cansada e desgastada por 16 anos de crises. Um regime que caiu docilmente e sem qualquer defesa. Ao menos a monarquia, quando derrubada na rotunda, ainda teve um Paiva Couceiro para a defender, a República velhaca nem isso conseguiu. O regime cai tal como viveu, de podre e feito de podridão.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O mito do atraso dos países de cultura católica ou a mentira de Weber



Hoje a propósito da velha história do atraso dos países de cultura católica demonstra como a tese de Weber tem grandes adeptos, ainda que não totalmente original, já tinha sido antecedida cerca de trinta anos pela tese de Antero de Quental com o sugestivo título de "Causas da decadência dos povos peninsulares" (mas claro, como é português a relevância é menor). Ambas as teses estão viciadas, mas não cabe aqui discutir isso (1).

É interessante como mesmo catedráticos e estudantes quase divinizem uma teoria que várias vezes já foi refutada pela historiografia. Talvez porque a tese de Weber pareça elegante a olhos deslumbrados, principalmente a povos como os de cultura católica que sempre desprezaram a sua identidade para preferir imitar o estrangeiro (i,e., os povos protestantes). E não é de admirar que um professor de direito se sinta tentado a preferir o protestantismo ao catolicismo, o próprio direito português é muitas vezes copiado de países protestantes (a Alemanha principalmente).

O trauma em questão vem a propósito do suposto atraso das nações católicas em relação ás nações protestantes, um velho estribilho oitocentista que ganhou raízes profundas nas nossas academias. O argumento falso e já o demonstrarei. Ofereço a proposta de Hayek que no discurso perante a Academia Sueca citou dois escolásticos ibéricos: Luís de Molina e Juan de Lugo, afirmando que a análise económica austríaca não era uma novidade, já tinha sido formulada nos século XVI e XVII e tinham origem católica e espanhola.

Exactamente, as ideias do capitalismo emergiram da Europa mediterrânica, herdeira da tradição grega, romana e tomista (3), influência muito mais decisiva do que na tradição dos filósofos escoceses do século XVIII (Adam Smith e David Hume). Um mesmo Hayek cita diversas vezes Molina, sim, Luís de Molina um padre jesuíta espanhol, a propósito da ideia do equilíbrio natural do mercado na formação do «preço natural» ou do «preço justo».

Aliás, foram dominicanos e jesuítas, professores de moral e teologia em universidades, como a de Salamanca e a de Coimbra, que constituíram os focos mais importantes do pensamento durante o Século de Ouro espanhol, antecedendo Smith e antecipando em séculos a escola Austríaca. E mesmo as teorias do protestante John Locke sobre o consentimento popular e a superioridade popular no governo já tinham encontrado fundamento num escolástico de Salamanca chamado Juan de Mariana, embora também descritas por Suarez, outro grande teólogo (e o fundador do direito internacional moderno).

Quanto ao capitalismo das nações protestantes, tanto Hugh Trevor Ropper, como Michael Novak (4), tinham já explicado que «a ideia de que o capitalismo industrial de larga escala era ideologicamente impossível antes da Reforma é negada pelo simples facto de que ele já existia.» (ROPPER) Aliás Michael Novak descobre o desenvolvimento do capitalismo em cidades como Antuérpia, Lisboa, Milão, Lucena, refutando assim a tese de Weber da "ética protestante".

E vem acrescentar ainda Henri Pirenne, uma década depois da publicação do livro de Weber ("A Ética protestante e o espírito do capitalismo"), baseando-se em documentação anterior à Reforma, de que "os aspectos essenciais do capitalismo - iniciativa individual, avanços no crédito, lucros comerciais, especulação, etc. - se podem encontrar a partir do século XII nas cidades-república da Itália - Veneza, Génova e Florença".

Como explicar então o declínio Peninsular? O que aconteceu deve-se aos ciclos históricos de ascensão e decadência dos povos. Simplesmente, aproveitando as palavras de Rodney Stark, os países protestantes do Norte ocuparam o lugar outrora "ocupado pelos velhos centros capitalistas do Mediterrâneo". Depois os países mediterrânicos, Portugal e Espanha, falharam em deduzir o sistema económico para o qual tanto contribuíram e perderam o passo do tempo. Tragicamente, também povos que passaram os últimos duzentos anos a copiar instituições contrárias à sua cultura, o que resultou em guerras e revoluções constantes ao longo do século XIX até ao século XX.

Mas não perdendo o fio ao pensamento. O ciclo dos pensadores da escolástica da Salamanca teria ainda um novo fôlego com o catalão Jaime Balmes (1810-1848), que além de teólogo foi economista e político católico, foi ele quem elaborou a lei da utilidade marginal vinte e sete anos antes de Carl Menger.

Sim, é verdade que o capitalismo tem origem religiosa, mas não é protestante, mas católica.


(1) uma desmistificação da tese de Weber: "Max Weber: The Lawyer as Social Thinker" Frank Parkin,Stephen P. Turner,Regis A. Factor (pp.162, 164, 165).

(2) "The Victory of Reason - How Christianity Led to Freedom, Capitalism and Western Success", Rodney Stark (pp.11-12)

(3) "As raízes escolásticas da Escola Austríaca e o problema com Adam Smith", Jesús Huerta de Soto

(4) mais uma desmistificação de Weber: "The Spirit of Democratic Capitalism", Michael Novak (pp.276-277)

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Mystici Corporis Christi

Lauda Sion Salvatórem
Lauda ducem et pastórem
In hymnis et cánticis.


O milagre de Bolsena, 
Pintura de Simone Martini (1284 – 1344)

domingo, 1 de maio de 2016

Uma ideia para Portugal







"Que tipo [de organização] então preferir? Nós estávamos empenhados em encontrar uma fórmula que respondesse às seguintes condições:
a) A organização deveria aliviar o hipertrofiado e monstruoso Estado Moderno, desembaraçando-o de algumas das suas funções, serviços e despesas e defendendo só por esse facto a liberdade individual e as economias privadas;
b) A organização deveria ser decalcada, com prejuízo embora da sua pureza teórica e simetria, sobre a vida real do homem na família, na profissão, na sociedade; e sendo assim, aproveitar o mais possível as formas conhecidas e espontâneas de organização a integrar em plano de conjunto;
c) A organização não deveria dissociar o económico do social, pela razão fundamental de que todos os que de qualquer modo trabalham são solidários na produção e é da produção que todos devem viver;
d) A organização deveria não perder de vista as realidades supra-individuais e que, portanto, só é verdadeiramente útil se conseguir satisfazer os legítimos interesses privados e ao mesmo tempo promover o interesse colectivo.
E foi por estas razões que pretendemos estabelecer entre os vários tipos de organização e de corporativismo a organização corporativa portuguesa"
(Salazar, op. cit., pp. 361-2)