sexta-feira, 8 de abril de 2016

Uma ideia da tradição


















Poucas coisas nos identificam mais do que os nossos hábitos e pouco mais nos distingue dos animais do que os nossos costumes.
O real não é racional,como postulava Hegel, nem o racional é real, a crença amorfa no progresso e na razão, um sentido que Heidegger e Soljenstsine ousaram atacar diagnosticando o mal ao orgulho do homem, escravo dos seus desejos e dos seus fantasmas. 
A concepção moderna veio quebrar o fio da tradição. Uma cultura não é a soma do progresso mas a procura da realização de um destino. Comecemos pelo mito. Porque o mito também é fundacional, como descobrimos na helénica Grécia, ou na fundação de Roma. Relacionam-se ambos os momentos, tão bem procurados respectivamente por Homero e Virgílio. Entendendo, como no mito de Ulisses, que toda a errância e todo o sofrimento alcançam o seu objectivo, daqui resulta o conteúdo político da religião romana, que será fundamento da Igreja Cristã. Uma unidade originária do declínio do mundo antigo e que nem a acendalha da reforma, nem a secularização puderam destruir na sua essência. 
Ao ser depositária de todo o conhecimento herdado de Roma e da Grécia, a Igreja encontrou o escopo ao ressurgimento na amalgama anárquica que sucedeu ao fim do Império Romano do Ocidente. E, sucessora dos antigos Césares, herdeira legitima dessa civilização, novamente devolveu a luz ao mundo.
Como pôde suportar tamanha empresa? Afinal conseguiu superar a mais pesada crise através do pensamento romano da morte e da ressurreição de Cristo lançando a pedra basilar de uma nova fundação que se tornou perdurável (e ainda hoje vive).

A religião seria a fonte da tradição. É este entendimento que tentarei explicar. 
Foram os romanos e não os gregos que sacralizaram a casa e a lareira e assim criaram o conceito da religião romana. Enquanto que na Grécia a piedade dependia da revelação dos deuses, em Roma a religião significava isso mesmo o “voltar a ligar”, procurando essa ligação no próprio mito da fundação da cidade. Daí a palavra autoridade (auctoritas), derivada do verbo “augere” (aumentar), porque aquilo que a autoridade aumenta é a fundação, quanto mais perto dos antepassados mais próximo está da tradição. 
Esse entendimento que a cristandade guardou do pensamento clássico é diferente do poder (potestas) porque esta (a autoridade) tinha a sua fonte de ligação ao passado tão vivo como a cidade.
Não é por acaso que apontamos a monarquia como próxima à tradição, liga directamente o povo à sua ideia fundacional. 
O Imperador Anastácio deixou-o explicito no século V: "Duas são as coisas pelas quais este mundo é principalmente governado: a sagrada autoridade dos papas e o poder real." 
Daqui compreende-se a reverência para com os idosos em Roma, não apenas porque representassem maior sabedoria, como hoje tendemos a conceber, o que também é certo, mas porque os mais velhos estavam mais próximos aos antepassados e aos tempos antigos. 
O passado era aqui santificado pela tradição, transmitida de geração em geração através dos testemunhos dos mais velhos.
Tal ensejo decorria da necessidade de procurar uma identidade e encontrar nos pais fundadores exemplos de autoridade também no plano das ideias. Mas, volto a sublinhar que esse entendimento é romano e não grego, um romano nunca levantaria a mão contra os seus maiores, nunca levantaria a mão contra o seu “pai espiritual”, como Platão levantou contra os sofistas. 
Se numa família um filho não amaldiçoa o seu pai tão pouco um português (ou qualquer outro povo) amaldiçoará o seu “pai espiritual”, em princípio, posso arriscar identificar essa origem no primeiro dos reis, isto é, aquele que une a nossa tradição a um passado fundacional: Afonso Henriques. 
Porque é que um português se reconhece no seu fundador, Afonso Henriques, tem aqui um carácter sagrado no sentido de que se este “algo” foi fundado, esse “algo” permanece como um vínculo para as gerações vindouras. 
A celebração da fundação, do nascimento (do começo) é um marco decisivo. Não é por acaso que a divindade mais importante para o romanos era o deus Janus, o deus do começo, que ainda hoje todos os anos nós celebramos (o mês de Janeiro), juntamente com outra divindade igualmente importante, Minerva, a deusa da lembrança. Celebra-se o começo e a memória desse começo. 
E num país tão antigo e quase milenar parece quase inédito que não se descubra uma data para celebrar o nascimento , ou o momento fundacional, histórico, mítico ou simbólico, da nacionalidade (pessoalmente tenderia a apontar o 5 de Outubro de 1143 e o 1 de Dezembro de 1640). O momento que anime os espíritos para encontrar uma simbologia maior, algo que nos identifique enquanto comunidade. 

Um entendimento que a civilização católica herdou e legou, recebendo o ensinamento dos antigos, é a exaltação da individualidade. Nenhuma outra civilização o valorizou como no ocidente europeu, e para o comprovar basta percorrer os poemas de Homero, estes textos (a Ilíada e a Odisseia) vivem da relação entre deuses e homens com identidades e personalidades próprias e que entre si digladiam com as mesmas virtudes e vícios. Assim retomava Dominique Venner, que vê na ruptura da reforma o momento determinante em que este individuo (o herói) passa a ser o autómato do individualismo que receberia a consagração ideológica com aquela malfadada Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Esse egoísmo burguês (Sartre) numa sociedade dominada pelo lucro, onde a família e a comunidade se dissolvem. 
O dogma supremo da tradição católica e o dogma que as tradições humanas alteraram dissociam-se, o primeiro chama o homem à divindade,  o segundo, ludibriando-o fá-lo cair na perdição.
A valorização do individuo na tradição Cristã evitou a centralização bizantina ou moscovita, um católico como Lord Acton identificava esta especificidade demonstrando como o catolicismo se opunha à tirania. A resistência a todas as formas de tirania encontra em Tomás de Aquino e Marsilio de Pádua referências determinantes, que nada têm a ver com a subversão que séculos depois o liberalismo herdeiro do protestantismo deturparia. Uma vez mais exclusivo do cristianismo, quando este foi herdeiro legatário por excelência da civilização antiga. 
Uma nossa característica é assim o “indivíduo” enquanto pessoa, e não o individualismo grosseiro do liberalismo ou do socialismo.  Adão era individuo e era espécie, habitando ambas as essências, depois o individuo e a espécie foram separados para constituir a unidade e a variedade, e Adão pecou, na sua essência e na sua natureza, esse pecado vive em cada indivíduo e habita cada homem. Também os indivíduos que constituem a humanidade estão separados dos demais, o género humano constitui-se uno e vário ao mesmo tempo. 
Há uma alegoria em Hesíodo que vai de encontro ao nosso pensamento ocidental. Descreve-nos Prometeu, um titã cujo orgulho leva-o a desafiar os deuses, ele rouba o fogo aos deuses e entrega-o ao homem, acabando acorrentado a um rochedo enquanto uma águia lhe devora o fígado. 
Os gregos concebiam nestes termos a justiça, o homem que pratica o orgulho, o pecado da desmesura, é punido. 
A filosofia grega de Sócrates a Aristóteles, assim como a poesia de Homero, procuram a harmonia entre o cosmos e a ordem. No “Cosmos”, uma palavra grega que também designa “Universo”, e que será fundamento da Fé Católica, os deuses darão lugar a um Deus, que é o autor e o governador da sociedade civil e o criador e regulador da sociedade doméstica. 
A ideia de Deus, na fé católica, procura identificar a unidade que se dilata para criar perpétuamente a variedade, a palavra universo significa isso mesmo, uma unidade e variedade juntas num só.

Os gregos procuravam a harmonia e a ordem no cosmos, o catolicismo procura santificar a obediência, e, tal como no mito de Hesiodo, a religião cristã condena o orgulho na sua mais tenebrosa manifestação. Não posso deixar de relevar que há duas coisas que são impossíveis numa sociedade cristã: despotismo e revolução. Um mesmo Rousseau, que por vezes conseguia brilhar na palavra, não deixava de ilustrar, no seu livro “Emílio”: “os governantes dos tempos modernos estão em divida para com o cristianismo, pela estabilidade da sua autoridade e pela recorrência frequente de revolução”.
O cristianismo não foi uma ruptura mas uma nova fundação, a base da Igreja como comunidade de crentes passou a ser o testemunho da vida, do nascimento, da morte e da ressurreição de Jesus de Nazaré. Ele é o Filho de Deus, e rei, coroado com a mais gloriosa das coroas, aquela que é feita de espinhos. O dito bíblico diz-nos que “há uma só Fé e um só Pastor”, esta máxima é a que melhor designa o rito católico. Na ordem cristã encontramos esse profundo entendimento da tradição, que nos liga directamente aos tempos apostólicos, quando Cristo instituiu uma só Igreja, a Católica. 
Como lembrou Donoso Cortes, no cristianismo o homem é feito à imagem e semelhança de Deus, ao mesmo tempo Ele é diverso nas Pessoas, e uno na essência e na excelência, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, Deus é colocado no centro de todo o universo, Ele é uno e ao mesmo tempo diverso e um só, quando no entendimento grego os deuses são feitos à imagem e semelhança dos homens, tal como o grande poeta Xenofante no-lo recorda, e os deuses pode o homem procurá-los na natureza.

Nestas linhas fica estabelecido o perfeito equilíbrio que existe na nossa tradição através da marca mais duradoura (e talvez a mais óbvia): os grandes autores. Aliás, ideia que já vinha dos clássicos. Se principiasse em Homero e prosseguisse pelos Evangelhos, até aos momentos derradeiros de crise, quando as consciências novamente procuraram a reconciliação com a Fé.  
Esse legado, como Pessoa bem reviveu, em "Mensagem", tem um forte impacto no fio da tradição. O próprio poeta traça o trilho desse sucedâneo fundacional: Roma, Grécia, Cristandade. Mormente o poeta compreendia que esse "Portugal hoje és nevoeiro" precisava de uma vez mais descobrir a tradição, não como um fim, mas como um novo começo, uma nova fundação. Não era o único ensejado nesse projecto, um seu contemporâneo, António Sardinha, novamente retomaria o brio. A tradição como lembrava o poeta de Monforte, não é um ponto imóvel no passado, ela é dinâmica e viva. 
É lícito acusar que as tradições desenraizadas correm o risco de se tornar uma fossilização passadista, uma carapaça vazia. Como lembrou Heidegger, na experiência e na história tudo o que é essencial e grande só o foi porque o homem tinha uma pátria (Heimat) e estava enraizado na tradição, em oposição àquilo que Spengler chamou a “civilização faústica”. Estas palavras ilustram exactamente aquilo em que se tornou a nossa era, numa Europa que se envergonha da sua história e esquece, na sua timidez inglória, as próprias tradições pátrias, tão singulares e únicas, irrepetiveis e inigualáveis.

Nesta esteira, a primeira palavra que nos vem à cabeça ao invocar a “tradição” é pátria. Conquanto a palavra “pátria” só ganha fundamento no contexto da história romana, na verdade a palavra remonta à terminologia grega (a “terra dos pais). 
Realmente trata-se da construção de um corpo político, ao qual os gregos não davam grande importância, mas que para os romanos ganhava um significado maior enquanto começo decisivo, porque ali encontravam (e encontramos) esses elos que nos ligam aos nossos maiores. 
Se nos identificamos como povo na nossa singularidade, se nos realizamos na nossa natureza dentro de um entendimento moral e se de acordo com ela determinamos as nossas acções, então precisamos de uma identidade também e é salutar seguir a recomendação de São Paulo "Tenete traditiones" (Guardai as tradições). 
Que tradições serão essas? As pequenas tradições, o “galo de Barcelos” ou as “danças tradicionais”, que mais não são do que criações modernas inventadas no século XX, ora aquelas que foram fruto do romantismo do século XIX? Temos de recuar ao tempo fundacional, esse prisma entre o mito e o real, entre o sonho e a matéria, sem esses elementos nada mais encontramos além de um vasto vazio.
Um povo, como lembrou o majestático “imperador da língua portuguesa” padre António Vieira, com um palmo de terra para nascer e o mundo inteiro para morrer, não pode, na sua singularidade, viver confinado apenas às suas madres fronteiras. Ele tem de se devolver ao mundo onde perdeu a gesta entre aventuras que lhe deram renome. 
Numa “pátria” esse elo de ligação pode também encontrar respostas mundo fora, nessas paisagens de África, Ásia, Américas, onde Portugal se expandiu, na Península e além-mar. Porque se a pátria representa, como o entendimento romano nos legou, um começo decisivo e irrepetível de toda a história, é nele que encontramos simultaneamente a identidade própria, mesmo que espalhada pelo mundo: “Ide e fundai uma nova cidade, pois onde quer que estiverdes sereis sempre uma polis”.

O mito vive na tradição e a tradição dá forma às pátrias, um começo irrepetível dentro da singularidade única e das grandes riquezas, do espírito e da matéria, que a constituem e lhe dão forma. 

Sem comentários:

Enviar um comentário