domingo, 24 de abril de 2016

Pétain: herói ou traidor?



Traído e humilhado assim acabou o grande herói de Verdun. Traidor para uns, herói para outros, paradoxal na sua actuação, ou última salvaguarda de uma França derrotada, as fileiras debatem a actuação deste homem singular. Traidor e ditador? A verdade é que os deputados da Assembleia Nacional por maioria dos votos (87%) elevaram-no à Chefia do Estado e, mesmo o regime de Vichy, manteria laços diplomáticos com a URSS, com os EUA e com a Austrália. Rebatet dá um bom entendimento do descrédito público a que a III República chegara, o regime corrupto e fragilizado que se deixara derrotar em 1940. Maurras descreverá a ascensão de Pétain como «une divine surprise», no contexto humilhante a que chegara a França. Salazar manterá estreitas colaborações com Vichy, a trilogia "Família, Propriedade, Trabalho" configuravam um mesmo credo do Estado Novo português, o Presidente do Conselho confirmava em entrevista: "nunca deixei de honrar a figura venerável de Pétain. Inclusivamente, sempre partilhei dos seus ideais e sempre lhe testemunhei a minha solidariedade." 
A popularidade de Pétain foi enorme, os banhos de multidões, as aclamações, reverenciavam um homem heróico que a custo preservava uma réstia de esperança no solo ocupado e numa Europa a ferro e fogo. Os ultra fascistas desconfiavam dele, impacientados, como Rebatet e Brasillach (aliás, espíritos verdadeiramente geniais e controversos), pela revolução nacional-socialista que Pétain comprometia. Para os colaboradores mais fanáticos, para os radicais mais intransigentes, Pétain surgia demasiadamente moderado e conservador, um tradicionalista, ou um nacionalista católico na linha de Salazar e Dollfuss, que o aproximava das facções monárquicas, católicas e dos republicanos conservadores. Aos olhos dos deturpadores traçava a feição severa e séria de um velho ministro do Ancien Regime. 
O seu credo condizia com os valores perenes do ocidente, cria na grandeza da Europa e no seu legado civilizacional, patriota francês de tudo fez para preservar uma réstia de glória no epicentro do caos. No seu realismo político adivinhava o resultado do pós-guerra: o avanço dos Estados Unidos e da União Soviética e o declínio do euro-mundo que se seguiria, não podia estar mais certo. A figura vilipendiada serviu como bode expiatório, de herói passou a criminoso, e ainda hoje a silhueta distante do velho marechal divide opiniões, terá sido para uns o traidor, para outros o patriota injustiçado encurralado num século de loucuras.



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