sexta-feira, 1 de abril de 2016

outros tempos













Portugal não é um país muito dado ao pensamento filosófico, nem à teorização política. Quase tudo o que concebeu nos últimos duzentos anos foi copiado do estrangeiro. Aliás, os autores mais interessantes que o século XIX deu a conhecer não estavam nas fileiras azuis e brancas, mas transportavam o branco legitimista, nomeio três: José Acúrcio das Neves, Gama e Castro e António Ribeiro Saraiva. Houve um prosador original e mordaz: Agostinho de Macedo...
Na outra facção, se houve algum autor liberal que valesse a pena lembrar no meio da balbúrdia da guerra civil esse foi Herculano. Não perderia Garrett de vista, mas foi o autor de "Eurico" quem mais repercutiu um eco do seu génio. Só este constituiu um verdadeiro pensamento político, no final da vida, aliás, bastante original, já reconciliado com o catolicismo e defensor do municipalismo que inspiraria meio século depois aquele António Sardinha também reconciliado com a fé e com a monarquia. Em momento de desespero todos os homens se voltam para estas duas forças: monarquia e fé católica, nem desejando parafrasear Balzac na sua introdução à "Comédia Humana". São dois pilares indispensáveis ao pensamento europeu e ocidental. 
De resto o país não produziu mais nada a nível intelectual que mereça a pena ser lembrado. A geração de 70 pouca originalidade logrou na grande confusão mental daquele "estúpido século XIX".  Em jeito de conciliação posso apontar a obra de Oliveira Martins, então fascinado com uma nova ideia: o socialismo. Um mesmo apaixonado pelo cesarismo, que tinha como modelo Bismarck. Era um potencial republicano, mas incapaz de esconder a paixão pelo exercício do poder pessoal que teria repercussões no século XX encarnado na idealização do "Chefe". Oliveira Martins certamente gostaria do estilo cesarista de Sidónio, Herculano não, mas Herculano era bem capaz de sentir alguma simpatia com Salazar, Oliveira Martins não. 
O século XIX foi um mar de arguciosos diletantes, alguns que produziram bons romances, boa poesia e muita má língua, mas pouco de um pensamento político determinante. O republicanismo limitou-se a traduzir da França o que lhe convinha. Teófilo não largou Comte e apenas entendeu o que de pior havia. O papel que encadernou faz vista em alfarrabistas, não subsistiu à época e deixou de interessar aos vindouros. Este será também o destino intelectual de muitos profetas da nossa era. 

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