terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Um Papa "liberal" contra o mundo moderno



Leão XIII ficou conhecido como o "Papa liberal do século XIX", mas tal deve ser contextualizado. Um homem que venerava a Idade Média e tinha grande admiração por Inocêncio III (o Papa das cruzadas), que acreditava que o Estado devia servir a Igreja, e jamais aceitaria o oposto. Na mesma inspiração que encontrava nos Papas medievais, concebia a autoridade de Deus e a missão da Igreja enquanto guardiã da Tradição, como bem expressou na encíclica Immortale Dei (1885).  Face a estas considerações adivinha-se como o Papa Leão foi um opositor à democracia e a todo o tipo de laicismo militante e secularizações adjacentes.
Tal como Pio IX, defendeu que os estados papais deviam ser restituídos. 
Novamente retomou a crítica dos antecessores à liberdade de expressão e de opinião, no fundo ao liberalismo moderno. 
As suas palavras e pensamentos inspirarão desde estadistas como Salazar, a militantes católicos como Ricardo Lino Neto, a escritores como Chesterton e Belloc. 
Podemos perguntar porque é considerado este Papa "liberal"?
Talvez em parte por causa da sua defesa dos sindicatos (desde que guiados por católicos no ênfase de trazer os operários para junto da Igreja) e a grande preocupação que demonstrou pelos pobres ao criticar o capitalismo (de origem protestante) na defesa dos operários e das classes trabalhadoras, na verdade procurou uma terceira via, bem celebrizada pela encíclica Rerum Novarum (1891), que funda a chamada "Doutrina Social da Igreja" .
A defesa do retorno ao escolasticismo ajudou a cultivar a mesma opinião relativamente a Leão XIII, contudo, o que o Papa propugnava era  em cortar directamente as relações da Igreja com as filosofias da modernidade.  
Talvez em comparação com o seu antecessor (Pio IX) e em comparação com o seu sucessor (Pio X, o primeiro Papa do século XX), Leão XIII não parecesse tanto um conservador.  
Na verdade moldou-o a grande compaixão. Foi este o mesmo Papa que condenou a escravatura e chegou mesmo a condecorar a princesa do Brasil, Isabel de Bragança, com a "Rosa de Ouro", por ter abolido a escravatura com a assinatura da "Lei Áurea". 
Em suma, reunia no pensamento a forte reacção que vinha já dos tempos de Pio VII, porém, em continuidade a uma sucessão de Papas identificados com a tendência mais ultramontana da Igreja, Leão XIII surgia um sucessor mais "liberal", ainda que, juntamente com todos os outros, um opositor à democracia, à revolução e à modernidade.  

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