quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A nossa sina

Várias vezes falava com pessoas que estranhavam as escolhas políticas dos portugueses, o facto de serem muito queixosos quanto aos poder mas no final "votarem sempre nos mesmos". Sempre mo confessavam num misto de indignação e de mistério.
Tinha andado a pensar no mesmo. Todas as transformações que ocorreram nos últimos duzentos anos foram feitas pela força e sem que as elties se preocupassem em consular esse povo que desde sempre dizem representar. A bem dizer, os portugueses (i.e. "o povo" propriamente dito, a "arraia-miúda") nunca derrubaram nenhum regime, esse trabalho ficou sempre para o exército e para grupos junto ao poder ou ligados à tropa. 
Da revolução de 1820 à guerra civil e Évora-Monte (1834) à república (1910) feita por oficias que ocuparam a rotunda, ao golpe dos cadetes com Sidónio, a chamada República Nova (1917), que, uma vez chegados a tenentes, fizeram o 28 de Maio de 1926, a chamada ditadura militar, à qual sucederia o Estado Novo (1933), com uma constituição (lembro sempre) plebiscitada, com maioria de votos a favor, e que se manteve por 42 anos, até ser derrubado por um novo golpe militar (25 de Abril).
Por 40 anos não conhecemos mais revoluções (o 25 de Novembro de 1975 longe ficou de originar uma guerra) e o regime consolidou-se e permaneceu, até ver. Em '74 não tivesse o exército avançado naquele dia "insólito" (numa oportuna observação de Jaime Nogueira Pinto) e o regime ter-se-ia mantido por mais dúzia de anos, mesmo com a guerra colonial, ou esquecem que pouco tempo antes Marcello tinha sido amplamente aplaudido no Estádio de Alvalade?
Fora o período da monarquia constitucional de 1860 a 1890 (a regeneração com Fontes e Braamcamp Ferreira que uniram os partidos em favor da monarquia) e o período do Estado Novo de 1960 a 1974 (mesmo confrontado com a guerra colonial), o país não voltou a conhecer um tão grande crescimento e uma tão grande estabilidade apenas comparado com a adesão à CEE e os fundos comunitários, momento que suplantou qualquer crescimento anterior. A classe média cresceu e endividou-se.
Não é de admirar, por esta cronologia, como a estabilidade não faz parte da nossa história caracterizada por momentos curtos de crescimento para confrontar seguidamente momentos longos de crise. Se esta cronologia revela uma sina negra a mesma pode corresponder a qualquer país católico.
Posso apenas constatar um tal efeito como manifestação de um carácter precioso e maldito. Começa pela sede dos povos católicos pelo absoluto, daí tornam-se mais radicais. Por curiosidade se constatar nos nomes anarquistas dos séculos XIX-XX facilmente se descobre que vêm exactamente de países católicos (Espanha e Itália principalmente) ou ortodoxos (Grécia e Rússia). Mas o cristianismo tem um paradoxo, face a este estrugir de violência e à grande liberdade que permite (mais do que nos países protestantes), ele é, ao mesmo tempo, autoritário. Aqui reside uma particularidade: é autoritário na sua organização, mas liberal e "personalístico" na sua teologia. 
Os povo católicos comungam em procurar a alternativa na imagem de um patriarca, que na Igreja é o Papa, traduzindo num sucedâneo secular, no Estado, historicamente, seria o rei. Hoje tendem a procurá-lo no Presidente, ou numa figura que enalteça autoridade, por vezes confundido com “autoritarismo” (algo diferente), nessa confusão acabam por optar, directa ou indirectamente, pela ditadura, ou seduzem-se facilmente por demagogos.  
Geralmente, nos países católicos, quando têm de escolher entre a forma de governo, ora preferem a monarquia, ora tendem para a ditadura. E, quando procuram instaurar repúblicas democráticas, tendem para o cesarismo, outras vezes caiem na anarquia, ou para a desordem, e, rapidamente, caiem na tirania, o que explica porque é que desde as revoluções do século XIX não conseguiram criar instituições próprias.
Como exemplo temos a primeira república que degenerou na anarquia e, primeiro com Sidónio, depois com os marechais do 28 de Maio e, por fim, com Salazar, apenas em “ditadura” ou com um governo autoritário os governantes conseguiram instaurar a ordem.

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