domingo, 3 de janeiro de 2016

O circo chegou à cidade


Basta olhar para os candidatos às presidenciais para constatar no desprestígio a que chegou a dita "Alta Chefia". Dizer que a república é mais "democrática" do que a monarquia exige uma ponderação terminológica e filosófica que permita encontrar a coerência nos conceitos, há uma vertente ingénua nesse argumento em que democratas insistentes quanto à Vontade Geral acabam sempre por incorrer. Quando se olha a Chefia como uma espécie de meta a conquistar, uma escalada gradual onde do término da base se pode alcançar o topo, mesmo que para tal se tenha de roubar, enganar ou destruir (o prefeito raciocínio maquiavélico hoje em voga), mas ainda assim justificável pela democracia, demonstra as falsificações dos nossos sistemas plastificados. O ocidente não tem soluções às suas crises e consome-se nas ânsias profundas comuns a povos decadentes.
  Para procurar o bom governo já nem exigiria o filósofo-rei tão caro à filosofia de Platão. Propunha (ao jeito dos clássicos) procurar no político uma representação do "Belo e Bom" [1], em que a virtude se torna fundamental para a prossecução do Bem Comum. É verdade que numa sociedade utópica onde todos tivessem a concepção do Belo, do Justo e do Bem, as escolhas nem sempre seriam tão atrozes, o filósofo-rei poderia então vingar o seu mando nessa Polis onde todos os reis são filósofos e todos os filósofos são reis. Esta realização aristocrática podia servir os propósitos dos regimes temperados onde à ilharga da vontade da maioria contrapusessem a representação dos melhores, porque mais sábios ou mais aptos, onde estes governariam para o Bem, impedindo formas degenerativas [2]. Essa seria a fórmula de Platão que idealizava entregar o governo aos políticos autênticos, portanto uma forma de governo perfeita.  
Certamente Aristóteles e Platão (esses perigosos reaças) não veriam com bons olhos os sistemas hodiernos. Aquela máxima do "qualquer cidadão pode chegar à Alta Chefia" numa República (argumento paupérrimo mas muito aliciante) enquanto numa monarquia fica impedido, novamente demonstra as confusões que enraivecem o espírito mais lúcido. Os clássicos sempre se opuseram a essa ideia e da mesma concepção desde os pensadores medievais aos modernos, todos beberam a essência, de São Tomás a Bodin, de Burke a Tocqueville e Lord Acton, há um substrato que não deve ser ignorado. As críticas de Maurras à democracia devem muito à inspiração clássica, sendo demasiadamente simples analisá-lo apenas como anti-democrata, porque grande parte dos melhores nomes que conceberam a tradição política ocidental também o seriam.
 Tal confusão apenas se percebe pelas ideias despertadas no incómodo dos tempos revolucionários em que a Nação passou a sobrepor-se ao individuo, o facto do "filho do gasolineiro" chegar a Presidente de uma qualquer república acarreta desde já o axioma falacioso da "justiça social" (socialismo) em acção. É verdade que não se trata do filho do gasolineiro tout court, essa é a imagética que procura mostrar-se justicialista, confundindo o Bem com a demagogia. A República torna-se no verdadeiro circo de aberrações com que todos os dias somos premiados. Não vivemos na história alegórica do "Príncipe rico" e do "Príncipe Pobre" como procurando uma alternativa aos desajustes do mundo (diria: às desigualdades, hierarquias, iniquidades, injustiças). Aqui há uma outra realidade desenhada por partidos que se tornam verdadeiras máquinas de controle da sociedade civil, que põe e dispõe o monopólio do poder e facilmente podem pegar num qualquer desgraçado e fazê-lo rei de uma república de miseráveis. Eis a justiça contrária ao Bem, em que a aristocracia a que devia almejar a República (entendida no sentido da Politeia) degenera na oligarquia e a democracia, forma para os antigos já por si degenerativa [3] depressa corresponde à demagogia. 
A maioria nem sempre toma a decisão mais útil e nem sempre decide de acordo com o bem comum, quando uma multidão pode facilmente subjugar uma minoria. Um tal sistema seria recusado pelos Pais Fundadores [4] (mas além de Madison e John Adams, podia também referir Políbio, Aristóteles, Cícero, Burke, Tocqueville). O sistema eleitoral americano ao consagrar a eleição indirecta do presidente pretendeu fugir a este abuso, podemos acusar tal sistema de oligarca, de anti-democrático, e certamente seria tudo isso, mas tinham o exemplo pior do domínio das maiorias na França revolucionária. 

Quando vejo os candidatos (e já não falo nos debates) perpassa-me um arrepio, basta constatar nas dez candidaturas (inicialmente, creio, apresentavam-se catorze) para encontrar a miséria e a alarvidade que vive no âmago deste povo. Há de tudo e do mais sórdido, não descurando o idealismo de uns e a ingenuidade de outros, ou a capacidade académica e os méritos de poucos. Comentei já com um amigo, como o início das presidenciais parece-se com a época dos saldos, mal anunciado tudo acorre à Alta Chefia com a mesma sofreguidão dos desejosos de desforrar os preços. Aqui o preço é o poder, atiçando à plebe um osso apenas para ver salivar os ambiciosos quando a própria corrida está determinada para poucos. Não é apenas um jogo de corrida ao poder mas a forma como se determina essa corrida também.

 Não vejo solução em qualquer candidato, já nem me posso desforrar no argumento do "mal menor", porque o Mal parece depauperar qualquer razão. Não sei o que a maioria decidirá, esperando que o bom senso deste povo impere contra os desvios lunáticos que acorrem à praça pública. Pelo menos contra os poderes mais sórdidos sempre demonstrou boa consciência. Mas ao mesmo tempo não deixo de constatar nos defeitos das maiorias quando dessas percentagens abusivas já resultaram a morte de Sócrates (o filósofo evidentemente) e de Cristo [5], duas histórias alegóricas sobre as quais repousa a nossa identidade ocidental (como lembrou Maradiaga), precisamente duas mortes que a democracia determinou, e que constituem também boas reflexões para esta época eleitoral: a imposição da vontade da maioria sem dó nem piedade, ou a procura do útil e do razoável, a prossecução da legitimidade que permita identificar o povo com a sua existência, ou a escolha destituída de certezas? 
Mas a resposta a esta provocação não está nesta república, nem nestes candidatos, como poderão imaginar. 

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[1]Platão, O Político

[2] Aristóteles, no Tratado da Política, refere: "Em qualquer Estado há duas coisas a considerar, a qualidade e a quantidade das pessoas: a qualidade, ou seja, a liberdade, a fortuna, o saber, a nobreza; a quantidade, ou seja,a parte superior em número. Pode acontecer que, das duas partes de que um Estado se compõe, uma esteja à frente pela quantidade e outra pela qualidade; que haja mais plebeus do que nobres e mais pobres do que ricos, mas de tal modo que o que valem a mais em quantidade não compense  que valem a menos em qualidade." 

[3]Platão, A República (livro VIII)

[5] Erik von Kuehnelt-Leddihn, Liberty or Equality e Leftism Leftism: From de Sade and Marx to Hitler and Marcuse, neste útlimo onde escrefe:"The hostility of Plato toward democracy (more apparent in the Politeia than in the Nomoi) was similar to that of Aristotle, who finally fled the democratic rule of Athens and went to Chalcis on Euboea admittedly in order to avoid the fate of Socrates."


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