terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O adeus de Cavaco

O veto do Cavaco à co-adopção e à lei do aborto levantou o estribilho do costume. Na hora da despedida lembrou-se dos poderes presidenciais e usou-os, nunca  tendo realmente pronunciado palavras sobre o assunto quando o poderia ter feito, nem nunca tendo demarcado uma ideia quando teve a oportunidade. 
Como espécie vetusta copiada ao monarca constitucional, o Presidente limitou-se, todos estes anos, a "presidir", não a "governar" - só para aproveitar aquela máxima que certos grupos (ditos liberais) sempre invocam. Ao mesmo tempo foi a ambiguidade e o afastamento que o marcaram, uma capacidade de surgir incógnito e sombrio no meio político que sempre o desprezou. Confesso que deu-me um certo gozo, ainda que momentâneo, ao descobrir as faces de ódio da esquerda que invoca a Constituição como magna carta da sua hegemonia ideológica. Mas não aplaudo, apenas na constatação de que mais cedo ou mais tarde essas leis vão voltar. 
Quanto a Cavaco, como um corpo moribundo a sofrer a última convulsão, conseguiu ali encontrar um drama apoteótico para a partida iminente, entre jubilos e aplausos à direita, insultos e insinuações à esquerda. Mas queria saber, o que realmente aplaudem: o movimento efémero de um paralítico ou a vida breve de um vegetal que decidiu dar um momentâneo sinal de vida? 
Eu não vou acusar mais o antigo Presidente do que acuso a restante classe política, a direita quantas vezes acobardada  que aceita o diktat da esquerda, mais interessada em descrever as leis do mercado do que em procurar o fundamento à realização de uma ideia (de um caminho). Não se define, vive apenas por oposição, ou, no medo, procura o centro, a neutralidade, o cinzentismo de quem não concorda nem discorda. 
Pelo menos uma coisa parece certa, se a Constituição serve para toda e qualquer legitimidade ideológica à esquerda, também serve, à direita, para dar um coice no traseiro de certas ideologias, nem que seja para passar a batata quente ao próximo convidado de Belém.  


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