quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Cristianismo e democracia

I think that the Catholic religion has erroneously been regarded as the natural enemy of democracy. Among the various sects of Christians, Catholicism seems to me, on the contrary, to be one of the most favorable to equality of condition among men. In the Catholic Church the religious community is composed of only two elements: the priest and the people. The priest alone rises above the rank of his flock, and all below him are equal. 
On doctrinal points the Catholic faith places all human capacities upon the same level; it subjects the wise and ignorant, the man of genius and the vulgar crowd, to the details of the same creed; it imposes the same observances upon the rich and the needy, it inflicts the same austerities upon the strong and the weak; it listens to no compromise with mortal man, but, reducing all the human race to the same standard, it confounds all the distinctions of society at the foot of the same altar, even as they are confounded in the sight of God. If Catholicism predisposes the faithful to obedience, it certainly does not prepare them for inequality; but the contrary may be said of Protestantism, which generally tends to make men independent more than to render them equal. Catholicism is like an absolute monarchy; if the sovereign be removed, all the other classes of society are more equal than in republics.
(...)
 I am fully convinced that this extraordinary and incidental cause is the close connection of politics and religion. The unbelievers of Europe attack the Christians as their political opponents rather than as their religious adversaries; they hate the Christian religion as the opinion of a party much more than as an error of belief; and they reject the clergy less because they are the representatives of the Deity than because they are the allies of government. 
In Europe, Christianity has been intimately united to the powers of the earth. Those powers are now in decay, and it is, as it were, buried under their ruins. The living body of religion has been bound down to the dead corpse of superannuated polity; cut but the bonds that restrain it, and it will rise once more. I do not know what could restore the Christian church of Europe to the energy of its earlier days; that power belongs to God alone; but it may be for human policy to leave to faith the full exercise of the strength which it still retains.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O adeus de Cavaco

O veto do Cavaco à co-adopção e à lei do aborto levantou o estribilho do costume. Na hora da despedida lembrou-se dos poderes presidenciais e usou-os, nunca  tendo realmente pronunciado palavras sobre o assunto quando o poderia ter feito, nem nunca tendo demarcado uma ideia quando teve a oportunidade. 
Como espécie vetusta copiada ao monarca constitucional, o Presidente limitou-se, todos estes anos, a "presidir", não a "governar" - só para aproveitar aquela máxima que certos grupos (ditos liberais) sempre invocam. Ao mesmo tempo foi a ambiguidade e o afastamento que o marcaram, uma capacidade de surgir incógnito e sombrio no meio político que sempre o desprezou. Confesso que deu-me um certo gozo, ainda que momentâneo, ao descobrir as faces de ódio da esquerda que invoca a Constituição como magna carta da sua hegemonia ideológica. Mas não aplaudo, apenas na constatação de que mais cedo ou mais tarde essas leis vão voltar. 
Quanto a Cavaco, como um corpo moribundo a sofrer a última convulsão, conseguiu ali encontrar um drama apoteótico para a partida iminente, entre jubilos e aplausos à direita, insultos e insinuações à esquerda. Mas queria saber, o que realmente aplaudem: o movimento efémero de um paralítico ou a vida breve de um vegetal que decidiu dar um momentâneo sinal de vida? 
Eu não vou acusar mais o antigo Presidente do que acuso a restante classe política, a direita quantas vezes acobardada  que aceita o diktat da esquerda, mais interessada em descrever as leis do mercado do que em procurar o fundamento à realização de uma ideia (de um caminho). Não se define, vive apenas por oposição, ou, no medo, procura o centro, a neutralidade, o cinzentismo de quem não concorda nem discorda. 
Pelo menos uma coisa parece certa, se a Constituição serve para toda e qualquer legitimidade ideológica à esquerda, também serve, à direita, para dar um coice no traseiro de certas ideologias, nem que seja para passar a batata quente ao próximo convidado de Belém.  


domingo, 24 de janeiro de 2016

Psicologia para momentos pós-eleitorais





Depois destes momentos entre ululantes exaltações, apostasias, viradeiras, reviralhos, júbilos vários feitos no vácuo do costume, volto-me para a leitura do homem que mais cedo percebeu a irracionalidade desse multitudinário extraviado. O decomposto corpo de uma sociedade moribunda faz-se destes ciclos onde amotina o ódio, o rancor, a paixão acéfala por todas as ilusões, pela futilidade e pelo egoísmo. A originalidade, as idiossincrasias, a liberdade, a identidade, tudo morre dentro dessa manada alimentada pelo delírio. Nem tão pouco cito a trivilidade do Churchill dos cinco minutos de conversa com o eleitor médio, Tocqueville conseguia-o descrever de forma mais eloquente. De demagogos, profetas e falsos ídolos, já muita promiscuidade por aqui vingou, os deuses é que devem estar doidos. Nesse sentido, Gustave Le Bon foi um bom analista para diagnosticar a demência das sociedades modernas.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Bom Fim-de-Semana




«Homem de um só parecer
Dum só rosto, uma só fé,
De antes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte, homem não é.»

Sá de Miranda 

*versos presentes em carta do poeta a El-Rei D. João III.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Aos republicanos com ânsias de realeza e aos reizinhos presidenciáveis

Este é dedicado aos candidatos que tomam o lugar dos reis ou às repúblicas de papel apreciáveis aos olhos da saciedade que muito se tem divertido nestes dias com candidatos à altura do circo.

Os mesmos que são guiados pelo Génio do Povo (que lhes vota a indiferença) e vivem na ansiedade dos anos eleitorais com esperança de ficar para a história (ainda que lhes votem o desprezo).

Aqui está o herói de todos os regimes, Luís Bonaparte (o tal Napoleão III) que recebe do Povo a coroa da República.

Já que temos tanto republicano coroado, fica aqui a minha homenagem aos senhores e senhoras que aos tropeções correm a caminho Belém.




ilustração: Louis-Napoléon Bonaparte Guidé par le Génie du peuple et la République reçoit des mains de la France la Couronne de la Présidence. 1848, lithographie 21,9 x 28,4 cm. Lorderdau, éditeur, rue Saint Jacques, 59 .Bibliothèque nationale de France.


Com o hino da campanha eleitoral e tudo



sábado, 9 de janeiro de 2016

Em resposta à estupidificação

Como anda uma campanha de difamação do Professor Pedro Arroja achei bem publicar esta declaração do mesmo no blog Portugal Contemporâneo
De Pedro Arroja admiro o pensamento original que sempre teve, um dos primeiros a defender o liberalismo em Portugal arrancando-o às amarras passadistas da velha guarda, preso que o país estava às ideias do século XIX, ou aos "amanhãs que cantam" da revolução, Arroja trouxe Misses, Hayek e Friedman, pensamento que evoluiu de forma independente e original (nem deixou de se assumir como monárquico da tradição cristã). Entendo que as virgens vestais da pureza falida do modelo social europeu sintam-lhe raiva. A esquerda pode bem nele reencontrar a profanação dos seus modelos ideológicos e nem me espanta que sintam complexos pelas palavras que agora toda a boa mesa de café discute. Neste último mês a opinião pública, incapaz de pensar livremente e sempre dependente das opiniões alheias, deixou-se seduzir pelo ódio (lembra como le Bon tinha razão sobre a acefalia das massas). 
É verdade, para difamar há sempre coros, mas para ter em atenção as obras e dedicação de um cidadão, então, vigora o silêncio. O texto que aqui transcrevo é a prova disso mesmo. Mas imagino que os políticos tenham outras preocupações, como ilegalizar o piropo, ou estejam demasiadamente preocupados com a implementação do desacordo ortográfico, ou a lutar por todo o tipo de direitos certamente importantes para o nosso destino colectivo... pena que não chegue para ajudar o Hospital de S. João... é pena... 

Pedro Arroja: 
Comento há dois anos no Porto Canal, todas as Segundas-feiras, no Jornal da Noite, entre as 20:00 e as 20:30. Todos os meses falo, pelo menos uma vez, de uma obra boa que estou a fazer juntamente com muitas outras pessoas - a construção da nova ala pediátrica do Hospital de S. João. 
As crianças internadas na Pediatria do HSJ estão desde há oito anos instaladas em contentores metálicos porque o Estado não tem dinheiro para construir um edifício condigno. 
A Associação Humanitária "Um Lugar para o Joãozinho" meteu mãos à obra e a obra começou no dia 2 de Novembro. 
É uma obra que custa 25 milhões de euros e que está para além da capacidade mecenática de qualquer pessoa ou grupo restrito de pessoas. Precisa da ajuda de todos os portugueses. E que não deixará de ser feita, só porque o Estado não a faz. 
Entretanto, hoje passa mais um Natal e as crianças lá continuam internadas num barracão próprio de um país do Terceiro Mundo. 
As observações que inseri no meu comentário do Porto Canal no dia 9 de Novembro - exactamente uma semana após o início da obra - acerca das deputadas do Bloco de Esquerda foram premeditadas e devidamente pensadas e visavam chamar a atenção sobre mim e, por implicação, sobre a obra que estou a fazer, e para a qual necessito pedir a ajuda de todos os portugueses. 
O resultado foi muito superior às minhas melhores expectativas.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Pensamento da reacção



Uma reflexão para tempos eleitorais. A morte de Sócrates às mãos da democracia ateniense e a morte de Cristo decidida pela maioria. Madariaga já lembrou que a nossa civilização repousa sobre a morte destes dois homens: um filósofo e o filho de Deus, ambos vítimas da vontade popular. Não é por acaso que os antigos guardassem para a palavra democracia a terminologia demagogia e que a 'anakyklosis' de Polibio inspirada em Platão demonstre como a democracia pode degenerar na tirania (A República Livro VIII-IX). Do mesmo modo que a monarquia degenera na tirania e a aristocracia na oligarquia. Mas os três sistemas podem equilibrar-se e garantir o bom governo.

domingo, 3 de janeiro de 2016

O circo chegou à cidade


Basta olhar para os candidatos às presidenciais para constatar no desprestígio a que chegou a dita "Alta Chefia". Dizer que a república é mais "democrática" do que a monarquia exige uma ponderação terminológica e filosófica que permita encontrar a coerência nos conceitos, há uma vertente ingénua nesse argumento em que democratas insistentes quanto à Vontade Geral acabam sempre por incorrer. Quando se olha a Chefia como uma espécie de meta a conquistar, uma escalada gradual onde do término da base se pode alcançar o topo, mesmo que para tal se tenha de roubar, enganar ou destruir (o prefeito raciocínio maquiavélico hoje em voga), mas ainda assim justificável pela democracia, demonstra as falsificações dos nossos sistemas plastificados. O ocidente não tem soluções às suas crises e consome-se nas ânsias profundas comuns a povos decadentes.
  Para procurar o bom governo já nem exigiria o filósofo-rei tão caro à filosofia de Platão. Propunha (ao jeito dos clássicos) procurar no político uma representação do "Belo e Bom" [1], em que a virtude se torna fundamental para a prossecução do Bem Comum. É verdade que numa sociedade utópica onde todos tivessem a concepção do Belo, do Justo e do Bem, as escolhas nem sempre seriam tão atrozes, o filósofo-rei poderia então vingar o seu mando nessa Polis onde todos os reis são filósofos e todos os filósofos são reis. Esta realização aristocrática podia servir os propósitos dos regimes temperados onde à ilharga da vontade da maioria contrapusessem a representação dos melhores, porque mais sábios ou mais aptos, onde estes governariam para o Bem, impedindo formas degenerativas [2]. Essa seria a fórmula de Platão que idealizava entregar o governo aos políticos autênticos, portanto uma forma de governo perfeita.  
Certamente Aristóteles e Platão (esses perigosos reaças) não veriam com bons olhos os sistemas hodiernos. Aquela máxima do "qualquer cidadão pode chegar à Alta Chefia" numa República (argumento paupérrimo mas muito aliciante) enquanto numa monarquia fica impedido, novamente demonstra as confusões que enraivecem o espírito mais lúcido. Os clássicos sempre se opuseram a essa ideia e da mesma concepção desde os pensadores medievais aos modernos, todos beberam a essência, de São Tomás a Bodin, de Burke a Tocqueville e Lord Acton, há um substrato que não deve ser ignorado. As críticas de Maurras à democracia devem muito à inspiração clássica, sendo demasiadamente simples analisá-lo apenas como anti-democrata, porque grande parte dos melhores nomes que conceberam a tradição política ocidental também o seriam.
 Tal confusão apenas se percebe pelas ideias despertadas no incómodo dos tempos revolucionários em que a Nação passou a sobrepor-se ao individuo, o facto do "filho do gasolineiro" chegar a Presidente de uma qualquer república acarreta desde já o axioma falacioso da "justiça social" (socialismo) em acção. É verdade que não se trata do filho do gasolineiro tout court, essa é a imagética que procura mostrar-se justicialista, confundindo o Bem com a demagogia. A República torna-se no verdadeiro circo de aberrações com que todos os dias somos premiados. Não vivemos na história alegórica do "Príncipe rico" e do "Príncipe Pobre" como procurando uma alternativa aos desajustes do mundo (diria: às desigualdades, hierarquias, iniquidades, injustiças). Aqui há uma outra realidade desenhada por partidos que se tornam verdadeiras máquinas de controle da sociedade civil, que põe e dispõe o monopólio do poder e facilmente podem pegar num qualquer desgraçado e fazê-lo rei de uma república de miseráveis. Eis a justiça contrária ao Bem, em que a aristocracia a que devia almejar a República (entendida no sentido da Politeia) degenera na oligarquia e a democracia, forma para os antigos já por si degenerativa [3] depressa corresponde à demagogia. 
A maioria nem sempre toma a decisão mais útil e nem sempre decide de acordo com o bem comum, quando uma multidão pode facilmente subjugar uma minoria. Um tal sistema seria recusado pelos Pais Fundadores [4] (mas além de Madison e John Adams, podia também referir Políbio, Aristóteles, Cícero, Burke, Tocqueville). O sistema eleitoral americano ao consagrar a eleição indirecta do presidente pretendeu fugir a este abuso, podemos acusar tal sistema de oligarca, de anti-democrático, e certamente seria tudo isso, mas tinham o exemplo pior do domínio das maiorias na França revolucionária. 

Quando vejo os candidatos (e já não falo nos debates) perpassa-me um arrepio, basta constatar nas dez candidaturas (inicialmente, creio, apresentavam-se catorze) para encontrar a miséria e a alarvidade que vive no âmago deste povo. Há de tudo e do mais sórdido, não descurando o idealismo de uns e a ingenuidade de outros, ou a capacidade académica e os méritos de poucos. Comentei já com um amigo, como o início das presidenciais parece-se com a época dos saldos, mal anunciado tudo acorre à Alta Chefia com a mesma sofreguidão dos desejosos de desforrar os preços. Aqui o preço é o poder, atiçando à plebe um osso apenas para ver salivar os ambiciosos quando a própria corrida está determinada para poucos. Não é apenas um jogo de corrida ao poder mas a forma como se determina essa corrida também.

 Não vejo solução em qualquer candidato, já nem me posso desforrar no argumento do "mal menor", porque o Mal parece depauperar qualquer razão. Não sei o que a maioria decidirá, esperando que o bom senso deste povo impere contra os desvios lunáticos que acorrem à praça pública. Pelo menos contra os poderes mais sórdidos sempre demonstrou boa consciência. Mas ao mesmo tempo não deixo de constatar nos defeitos das maiorias quando dessas percentagens abusivas já resultaram a morte de Sócrates (o filósofo evidentemente) e de Cristo [5], duas histórias alegóricas sobre as quais repousa a nossa identidade ocidental (como lembrou Maradiaga), precisamente duas mortes que a democracia determinou, e que constituem também boas reflexões para esta época eleitoral: a imposição da vontade da maioria sem dó nem piedade, ou a procura do útil e do razoável, a prossecução da legitimidade que permita identificar o povo com a sua existência, ou a escolha destituída de certezas? 
Mas a resposta a esta provocação não está nesta república, nem nestes candidatos, como poderão imaginar. 

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[1]Platão, O Político

[2] Aristóteles, no Tratado da Política, refere: "Em qualquer Estado há duas coisas a considerar, a qualidade e a quantidade das pessoas: a qualidade, ou seja, a liberdade, a fortuna, o saber, a nobreza; a quantidade, ou seja,a parte superior em número. Pode acontecer que, das duas partes de que um Estado se compõe, uma esteja à frente pela quantidade e outra pela qualidade; que haja mais plebeus do que nobres e mais pobres do que ricos, mas de tal modo que o que valem a mais em quantidade não compense  que valem a menos em qualidade." 

[3]Platão, A República (livro VIII)

[5] Erik von Kuehnelt-Leddihn, Liberty or Equality e Leftism Leftism: From de Sade and Marx to Hitler and Marcuse, neste útlimo onde escrefe:"The hostility of Plato toward democracy (more apparent in the Politeia than in the Nomoi) was similar to that of Aristotle, who finally fled the democratic rule of Athens and went to Chalcis on Euboea admittedly in order to avoid the fate of Socrates."