segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Lisboa capital do mundo

Dois quadros descobertos em 2009 originaram um livro sobre Lisboa quinhentista e a Rua Nova dos Mercadores. Naquela artéria confluíam produtos do império e gentes de todo o mundo, transformando a capital portuguesa numa cidade global. (fonte: jornal Público)

A Lisboa quinhentista e seiscentista, essa da época dos descobrimentos, que o bom apóstolo dos direitos do homem vê como terra de esclavagistas, do tempo da contra-reforma, que o bom secularista vê como tempo de inquisidores e de livros na fogueira, entre o reinado de D.Manuel I e da monarquia dos Habsburgos, que o bom liberal e progressista vê como tempo de degeneração, de fogueiras contra judeus, indexes e perseguições, pois era esta metrópole a mais avançada culturalmente, onde o comércio mundial passava, que era centro do mundo, onde os negócios floresciam, onde crenças, raças e homens de toda a parte do mundo se cruzavam e conviviam, onde havia livrarias e a cultura era viva e florescente. Muito diferente do retrato sombrio da literatura de Antero e de Oliveira Martins, do traço fanatizado do anti-Portugal que anda em voga a tentar diabolizar o passado de uma nação que deu novos mundo ao mundo. Vale a pena ler o texto, um despertar da consciência para a nossa realidade histórica. Chega de anti-portuguesismo. 
Vale a pena ler:

"No século XVI, a Rua Nova dos Mercadores era uma pequena babel. Nos seus edifícios, moravam italianos, flamengos, andaluzes, portugueses. Enquanto isso, naquela rua da Baixa de Lisboa, cristãos-novos, judeus estrangeiros, escravos vindos de 20 nações africanas, escravos árabes passeavam-se, muitos faziam trocas comerciais." 
(...)

"Era no rés-do-chão dos edifícios que estava uma multitude de lojas. Em 1552, existiam 11 livrarias, onde também se encontravam livros de matemática, e 20 lojas de roupa e têxteis, onde se vendiam tecidos de veludo, sedas, tecido adamascado, tafetás vindos da Europa, da Índia e do Extremo Oriente. Em 1581, um ano após o início da dinastia filipina, existiam seis lojas especializadas na venda de porcelana Ming chinesa, nove boticas – as “farmácias” que na altura vendiam “produtos medicinais”, alguns importados da Ásia, como pedras bezoares, que se formam no sistema digestivo dos ruminantes, ou cornos de rinoceronte – além de artesãos, como alfaiates, calceteiros, barreteiros ou sirgueiros.

Era esta a dinâmica de uma cidade vibrante que estava a receber os frutos da rede comercial que tinha sido criada (só entre 1500 e 1521, o rei D. Manuel I enviou 237 naus para a Índia) e da crescente população cada vez mais misturada. De 1551 há um testemunho de que 10% dos 100.000 lisboetas eram negros. Dezassete anos depois, Lisboa tinha 150.000 habitantes, onde as minorias mais representadas eram escravos negros e índios. Em 1578, cerca de 20% dos 250.000 habitantes eram negros.

“Os quadros confirmam que Lisboa era muito misturada racialmente, que havia gente de muitos povos, muitos negros, que havia produtos exóticos”, diz Henrique Leitão ao PÚBLICO, acrescentando que uma das surpresas do livro provém da informação sobre o que existia dentro de algumas das casas da Rua Nova dos Mercadores. “[Os investigadores para este livro] descobriram documentação fantástica. Sobretudo inventários pessoais. E isto é muito importante, porque ficamos a ver o que é que as pessoas tinham mesmo dentro de casa. A grande surpresa é que estavam cheias de produtos exóticos. Dantes pensávamos que os produtos exóticos eram a marca de gente muito rica. Mas acabámos por ver que eram banalíssimos. A louça chinesa estava por todo o lado, os tecidos indianos estavam por todo o lado.”
(...)

Mas toda esta riqueza também transparece nos edifícios que se observam no díptico. Os sucessivos reis, começando com D. João II, foram financiando obras para alterar aquela famosa rua. “D. Manuel I tentou construir uma cidade mais regular. Por isso, ordenou que os balcões de madeira medievais fossem retirados. A rua passou a ser mais larga e foi pavimentada. Era uma rua que estava a tentar passar uma mensagem. Tinha apoio real e civil. Era importante que Lisboa tivesse uma rua comercial. Trazia dinheiro, impostos, comércio”, explica Annemarie Jordan Gschwend."






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