domingo, 29 de novembro de 2015

A Direita e a Esquerda: monarquia, federalismo e nacionalismo



 Ler o texto integral em The European Conservative 
(...)
 Nationalism (in the European sense) is leftism; and Catalonian, Basque, and Gallegan (Galician)nationalism naturally assumed a radically leftist character opposing “Castilian” centralization. Hence,in Madrid, almost all movements promoting local rights and privileges, be they political or ethnic, are suspect as leftist, as automatically opposed to the present regime as well as to the unity of Spain. (Spain is “Una, Grande, Libre”!) Oddly enough—but understandable to anybody with a real knowledge of Spanish history—the extreme right in Spain, represented, naturally, by the Carlists and not at all by the Falangists, is federalistic (“localistic”, anti-centralistic) in the European sense.The Carlists are opposed to the centralizing tendencies of Madrid and when late in 1964 the central government made an effort to cancel the privileges of Navarra, the fueros, the Carlists of Navarra, nearly issued a call to rebellion—at which point the government quickly declared its own preparatory steps as a “mistake” and backed down. 
 All conservative movements in Europe are federalistic and opposed to centralization. Thus we encounter in Catalonia, for instance, a desire for autonomy and the cultivation of the Catalan language among the supporters of the extreme right as well as the left. The notorious Catalonian Anarchists always have been supporters of autonomy, but formal anarchism has always been a curious mixtum compositum. Its ultimate vistas were leftist, socialistic in essence, but its temperwas rightist. Much of present-day “communism” in Italy and Spain is merely “popularly misunderstood anarchism”. But, on the other hand, it is also significant that in 1937 open war broke out in Barcelona between the Communists and the Anarchists. And it was the Anarchists who resisted the Communists in Russia longer than any other group, until in 1924 they wereliterally exterminated in all Soviet jails and camps. Hope of “taming” them had been abandoned.  
(...) 
 Something similar is true of Maurrasism, which was also a curious blend of rightist and leftist notions, characterized by deep inner contradictions. Charles Maurras was a monarchist and a nationalist at the same time. Yet monarchy is a basically supranational institution. Usually the monarch’s wife, his mother, and the spouses of his children are foreigners. With two exceptions (Serbia and Montenegro), all the sovereign ruling houses of Europe in the year 1910 were foreign by origin. Nationalism is “populist” by contrast, and the typical republican constitution insists that the president be a native of the country. Maurras undoubtedly had brilliant insights and many a European conservative has borrowed from him. But it was by no means accidental that he collaborated when the Nazis occupied his country. Nor was he a Christian during most of his lifetime. He returned to the Faith, however, some time before his death.
 If we then identify, in a rough way, the right with freedom, personality, and variety, and the left with slavery, collectivism, and uniformity, we are employing semantics that make sense. (...)*

Erik von Kuehnelt-Leddihn, Defining Right & Left,
(trata-se de uma versão do capítulo IV do livro
"Leftism, From de Sade and Marx, to Hitler and Marcuse".)  



terça-feira, 24 de novembro de 2015

O conservadorismo de Evelyn Waugh

Evelyn Waugh aos 26 anos
pintado por Henry Lamb 


(do site First Principles)

Waugh não foi propriamente um escritor político (critico social mordaz e polemista feroz sem dúvida), mas deixou uma descrição exacta e fiel da sua maneira de pensar, nestas linhas concisas e objectivas, que podem igualmente ser lidas no seu livro Mexico: An Object Lesson (além das ideias que transmite nos seus romances fortemente influenciados pela sua mundividência e fé). 
Para todos os efeitos, Waugh foi um enfant terrible da direita, essa direita mal-comportada e com um snobismo aliciante que fascina mais do que indigna, um certo ar petulante e ao mesmo tempo inteligente, tão irreverente como feroz, altruístico e ao mesmo tempo provocador. Talvez o típico intelectual que um país como o Reino Unido pudesse produzir entre a época eduardiana e as duas grandes guerras, educado em Oxford, habituado à elite intelectual londrina, por sua vez herdeiro de uma linhagem antiga de intelectuais, que conviveu com o modernismo mas em bom tempo se converteu à fé Católica, amante como foi da hierarquia e da ordem social, da monarquia e da tradição católica - reaça até ao fim opôs-se ao Concílio Vaticano II. Mas um homem paradoxal também, no fundo, como todos os artistas o são. Ao mesmo tempo tradicionalista conservador e provocador astuto, aquele traço singular que podemos reconhecer em Chesterton, a sua maior influência. 

Deixo aqui uma pequena-grande proposta do pensamento waughiano através deste curto e profundo manifesto: 


 Let me, then, warn the reader that I was a Conservative when I went to Mexico and that everything I saw there strengthened my opinions.
I believe that man is, by nature, an exile and will never be self-sufficient or complete on this earth; That his chances of happiness and virtue, here, remain more or less constant through the centuries and, generally speaking, are not much affected by the political and economic conditions in which he lives; That the balance of good and ill tends to revert to a norm; That sudden changes of physical condition are usually ill, and are advocated by the wrong people for the wrong reasons; That the intellectual communists of today have personal, irrelevant grounds for their antagonism to society, which they are trying to exploit.

I believe in government; That men cannot live together without rules but that they should be kept at the bare minimum of safety; That there is no form of government ordained from God as being better than any other; That the anarchic elements in society are so strong that it is a whole-time task to keep the peace.

I believe that the inequalities of wealth and position are inevitable and that it is therefore meaningless to discuss the advantages of elimination; That men naturally arrange themselves in a system of classes; That such a system is necessary for any form of co-operation work, more particularly the work of keeping a nation together.

I believe in nationality; not in terms of race or of divine commissions for world conquest, but simply thus: mankind inevitably organizes itself in communities according to its geographical distribution; These communities by sharing a common history develop common characteristics and inspire local loyalty; The individual family develops most happily and fully when it accepts these natural limits. 
A conservative is not merely an obstructionist, a brake on frivolous experiment. He has positive work to do.

Civilization has no force of its own beyond what it is given from within. It is under constant assault and it takes most of the energies of civilized man to keep going at all.

Barbarism is never finally defeated; given propitious circumstances, men and women who seem quite orderly, will commit every conceivable atrocity.

Unremitting effort is needed to keep men living together at peace

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A Lei Moral



Durante a Segunda Guerra Mundial, C.S.Lewis fez várias leituras para a BBC, que mais tarde reuniria num livro, intitulado "Mere Christianity", onde estabelece argumentos para a existência de Deus, assim, de forma sucinta:

1 - Existe uma lei moral universal;
2 - Se existe uma lei moral universal, então é porque existe um legislador dessa lei moral;
3 - Se existe um tal legislador, deve ser algo que está por detrás do universo;
4 - Assim, há algo que está por detrás do universo.

Todos os seres humanos sabem que têm de agir de acordo com certas regras e de acordo com uma certa maneira, acatar com um determinado comportamento. Lewis argumenta que existe uma lei moral, que é ao mesmo tempo universal, o que significa liminarmente que vivemos num universo moral, um universo onde existe uma lei que nenhum de nós criou, mas que sempre nos pressiona. E, se nenhum de nós criou essa Lei Moral, então algo deve estar por detrás dessa Lei, uma espécie de Criador, ou de Legislador, que a concebeu.
O ateu pode contra-atacar, como Dawkins, de que a existência humana não tem outra funcionalidade a não ser a de perpetuar o ADN, tudo o mais não tem qualquer propósito, o bem e o mal não interessam (o perfeito sentido da pós-modernidade). Ou no mesmo sentido de Nietzsche, quando argumenta" tu tens o teu caminho, eu tenho o meu. Quanto ao caminho certo, não existe". Se admitimos que existe o mal objectivamente admitimos que existe o bem, ao admitirmos que existe o bem então admitimos que existe uma Lei Moral na sua base que nos permite diferenciar estes pólos em perpétua contradição e completude. Mas distinguimo-los tal como uma criança também distinguiria, não por ter conhecimentos filosóficos ou apurados os conceitos de injustiça, maldade, terror, mas porque vive inserida nessa mesma criação. Um criador supremo incute-nos essa ideia por firmar-se anterior ao universo. Realiza-se ante um homem sempre incompleto.

Mas não podia esta Lei Moral ser algo inerente ao próprio universo: apenas factos morais que existiriam nos próprios factos físicos? Ou meramente tratarem-se de factos físicos ou mesmo factos puramente materiais sobre a natureza humana?
C.S.Lewis responde aos mais cépticos e apresenta esse outorgador da Lei Moral em duas vestes: ou como parte do mesmo universo ou como estando por detrás do universo. Se esse legislador existe no próprio universo, então seremos capazes de observar os factos morais, e a realidade por detrás desses factos poderão ser observados através de métodos científicos, contudo, tal não será possível. Não é algo que seja materializado. Devemos antes concluir que esse Legislador está por detrás do universo. Dá-lhe um sentido. Por fim, existindo factos físicos (como defendem os materialistas) então devemos admitir que existem factos morais também.

Numa parábola interessante o escritor define a Moral:
"Na realidade, as regras morais são como que instruções de uso da máquina chamada homem. Toda regra moral existe para prevenir o colapso, a sobrecarga ou uma falha de funcionamento da máquina. É por isso que essas regras, no começo, parecem estar em constante conflito com nossas inclinações naturais. Quando estamos aprendendo a usar qualquer mecanismo, o instrutor vive dizendo "Não, não faça isso", porque existem diversas coisas que, embora pareçam muito naturais e até acertadas na forma de lidar com a máquina, na verdade não funcionam." - C.S.Lewis, Mere Christianity.
Mas o mesmo autor adverte que esse argumento “is not yet within a hundred miles of the God of Christian theology. (1)” Tudo o que ele estabelece é que existe algo que controla o universo, algo que estabelece essa Lei Moral. Novamente, existindo uma Lei Moral significa que existe um poder por detrás dela, um poder que nos pressiona, verdadeiramente que odeia grande parte dos nossos actos quando consumam um mal, mas ainda assim essa mesma força inspira-nos a procurar o bem. Imaginar esta conflituosidade propõe-se sombria. Pode ser ao mesmo tempo inspirador e trágico. Por um lado a crença de que existe um Bem superior, um poder invisível por detrás do próprio universo, mas, ao mesmo tempo, afirma o sentido trágico do homem, porque todos os dias nós (mais ou menos) falhamos o cumprimento dessa Lei Moral e praticamos o mal.
Uma tal pressuposição não será de todo uma catástrofe, ao jeito de um Raskolnikov que se vê confrontado na sombria perplexidade da sua mortalidade e tendente à expiação dos seus pecados, como uma ortodoxia mais rigorosa suporia em Dostoievski a procura terrena pela salvação. Não procurando o drama incauto das crises de fé devemos partir de um princípio, i.e., da tragédia - o homem enquanto pecador -, antes de podermos entender a divina comédia, um enlace bem ilustrado nos Evangelhos de um Deus tornado homem. A conclusão da história, se se pudesse aferir um enredo à tragédia, reside na crença de que o homem pode ser perdoado dos seus pecados. Como Lewis sublinha: existe uma Lei Moral e o homem é sempre incompleto, a sua incomensurável incompletude revela-se um fardo que tenta preencher, e desse sentido a filosofia procurou as respostas sempre insuficientes.

Se admitimos que existe o bem, então admitimos que existe uma lei moral absoluta na base da qual poderemos distinguir o bem do mal. Admitimos então que essa lei foi criada por um Legislador supremo, um Deus, e sem o qual tudo seria permitido.
Nas palavras de Lewis: “the Christian religion is, in the long run, a thing of unspeakable comfort. But it does not begin in comfort; it begins in…dismay….if you look for truth, you may find comfort in the end: if you look for comfort you will not get either comfort or truth—only soft soap and wishful thinking to begin with and, in the end, despair. (2)”


________________
(1)C.S. Lewis, Mere Christianity, Book I. Right And Wrong As A Clue To The Meaning Of The Universe, 4. What Lies Behind the Law. 
(2)Idem

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A fronteira cedeu


Adiante vou citar um comentário de Dominique Venner relativamente à imigração e ao multiculturalismo.

Quando passado passa a ser futuro de forma quase mimética e ainda mais tenebroso, no fundo, as advertências de ontem passam a ser as realidades de hoje, ou apenas a continuidade de uma bola de neve que vai crescendo em proporção, até ao desastre final.

Como bem lembrou o historiador, as fronteiras meridionais da Europa cederam, desde o dia em que Carlos V desembarcou em Argel para acabar com o tráfico de pirataria berbere.

O fim da guerra na Argélia em 1962, ao retirar das tropas, abandonando franceses e partidários indígenas, deixou a França desprotegida. Incapaz que foi de analisar a situação como uma calamidade que, mais cedo ou mais tarde, a contaminaria, pecado igual cometeu a restante Europa ignorando as consequências que também lhe diziam respeito.

Antes, agravaram a situação, por fim, o choque de civilizações chega ao solo europeu.

«Os efeitos reactivos do islamismo começaram a fazer-se sentir aquando das eleições de 2002. Contra todas as expectativas, a lista "populista" de Pim Fortuyn (assassinado pouco depois por um ecologista) obtinha resultados impressionantes que provavam uma reviravolta da opinião pública. Essa mudança de sinal foi confirmada dois anos mais tarde pela indignação duradoura que se seguiu ao assassinato do realizador de televisão Theo Van Gogh (4 de Novembro de 2004), crítico virulento da sociedade multicultural, apunhalado por um militante islamita de origem marroquina. 
Num ano, do fim de 2004 ao fim de 2005, os três modelos europeus de integração dos imigrados foram postos em cheque. O modelo holandês abriu falência com o assassinato de Van Gogh, o inglês, com os atentados de Londres de Julho de 2005, o modelo francês, com a explosão dos subúrbios em Novembro de 2005. Cada um destes modelos tinha, no entanto, as suas virtudes, ancoradas na tradição nacional. O inglês privilegiava a liberdade das comunidades, o holandês, a tolerância, e o francês, a igualdade. Em vão. Numa hora de confidências ao seu ministro Alains Peyrefitte, que hoje lhe valeriam a fulminação dos tribunais, o general De Gaulle tinha formulado uma daquelas verdades grosseiras em que era exímio: "Aqueles que propugnam a integração têm um cérebro de colibri, mesmo que sejam sábios. Tente-se integrar o azeite e o vinagre. Sacuda-se a garrafa. Ao fim de um instante separam-se de novo."»

Dominique Venner, "O Século de 1914 - Utopias, Guerras e Revoluções na Europa do século XX", Civilização Editora.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A "liberdade"


António José de Brito, o último hegeliano português, o último gentiliano português, um velho discípulo de Cabral de Mocada, também um dos poucos que não mudou de camisa com a mudança de regime, igualmente, um dos últimos a pensar a Portugalidade (como parece que ainda vejo ressurgir a distinta e inconfundível silhueta de Alfredo Pimenta). Até ao fim continuou a pensar a identidade, a pensar as ideias, a criticar os sofismas, a contra-atacar os lugares-comuns. Como a Alemanha teve Heidegger e Schmitt, como a Itália teve D'Annunzio e Paretto, também aqui foi-nos legada a singularidade de um pensamento autenticamente vertical, intemporal, congruente. Vale a pena ouvir.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Coisas à portuguesa


Há quem diga que é a bandeira francesa e há quem diga que é a holandesa, não interessa, ainda assim, compreendo as boas intenções de uma ingenuidade democrática que desfralda uma bandeira estrangeira num órgão de soberania. Agora, se é a bandeira francesa, e não a holandesa como poderiam muitos sugerir, não sem motivos, dá que pensar que desde a invasão de Junot, em 1807, que tal símbolo não era desfraldado por cá (e porventura hasteada como foi à época no Castelo de São Jorge). Talvez ironia da história ver novamente a bandeira jacobina na capital, que diriam os portugueses de ontem ao ver o símbolo da ocupação que combateram? 

sábado, 14 de novembro de 2015

Liberalismo, tradição e Aristocracia

A história do liberalismo está repleta de contradições e por isso não é fácil encontrar uma definição comum, uma dedução do sistema que nos permita delimitar um traço concreto e objectivo. Fico-me pela definição de Alan S. Kahan ao chamá-lo de "liberalismo aristocrático", um discurso que pretende ser distintivo na tradição liberal europeia entre 1830-1870 (vou-me afastar de Portugal contudo). 
Não deixo de constatar nos traços comuns, e nas constantes dissonâncias também, entre Burke, Acton e Tocqueville, mas podia também falar em John Stuart Mill e Allan Kahan, e talvez de um Kenneth von Leddihn cujo pensamento se enquadrava igualmente nos fundamentos filosóficos dos três primeiros. O filósofo austríaco, na sua originalidade, passou grande parte da vida a dissociar o "liberalismo" da "democracia", o seu "Liberty or Equality" é um longo e profundamente eloquente tratado que vem repassar o drama da coexistente vivência entre liberdade e igualdade, entre nós Cabral de Mocada fez o mesmo, ou leia-se o ensaio "A Revolução e o Direito" do professor Castanheira Neves. Na mesma linha dos Founding Fathers e dos "Fedralist Papers" (o mais profundo tratado anti-democrático) coloca-se o problema da democracia e da liberdade. O problema da democracia é de quem deve governar, a resposta será a maioria. O liberalismo entende que a questão não se entende por quem deve governar, mas como deve o poder ser exercido. 

Tocqueville, Acton e Burke estavam preocupados com as condições de que padeciam a liberdade e desconfiavam do pensamento racionalista que procurava impor a liberdade como um já constituído corpo de doutrinas sobre uma supostamente razoável e conscienciosa sociedade. Entendiam esse sentido como o poder arbitrário do homem, o poder absoluto que corrompe (na máxima de Acton). Ao mesmo tempo não preconizavam qualquer milagre de felicidade na terra, não idealizavam nenhuma"cidade paradisíaca", como na filosofia moderno-iluminista do século XVIII. Pelo contrário, desconfiavam desses sonhos. Este paraíso, na verdade, tornava-se um inferno na terra, o melhor exemplo, contemporâneo de Burke, seria a Revolução Francesa e o reino de terror que originou, e que para estes liberais, mais não representava do que o pecado do orgulho. 
Contra a igualdade absoluta e contra o uniformismo (quase totalitário) apreciavam em contraste a grande complexidade da sociedade. Temiam o temperamento destrutivo e despótico de reformadores impacientes, preferindo, em vez disso, a multiplicidade de forças e de ideias representadas nas constituições existentes: as distinções de classe, a distribuição do poder político, as lealdades pessoais divididas entre a família, a província e a nação, valorizavam a tradição e as perpétuas idiossincrasias da história. 

A este liberalismo dissociavam um outro: o "liberalismo totalitário", para descrever o hábito de os liberais terem chamado ao Estado o protagonismo reformista por que apelavam, no sentido de proteger os direitos do trabalho, reforçar os direitos de sufrágio, estender o privilégio da educação, providenciar seguros e benefícios sociais, e assim controlavam o bem estar da sociedade. Por muito urgente que sejam estas reformas, não deixa de ser verdade que olhar para o Estado como uma vasta agência de trabalho-social tem os seus perigos, porque vai investi-lo de um grande poder forçando a liberdade a depender não dos direitos de grupos autónomos e corporações, mas de um governo omnipotente. A esse respeito escrevia Acton:
"Nenhum despotismo é mais completo do que o despotismo dos liberais modernos... A doutrina liberal pressupõe o desejo da liberdade ao desejo de poder, e quanto mais exige uma partilha do poder mais ele é avesso às suas excepções."

As críticas dirigidas ao Estado moderno (ao mundo moderno?) vivenciam a preocupação da destruição dos valores e da ordem das nossas comunidade. O que se tem visto nos últimos cem anos é verdadeiramente a aniquilação de todo o tipo de autoridade, excepto uma, a do próprio Estado. O Estado tornou-se o guardião de todos os valores e de todos os poderes, quer na religião, na nacionalidade ou no poder político.
 Aliás, o estado tornou-se uma unidade singular e as autoridades independentes que formalmente eram os mediadores entre os indivíduos e o Estado (igrejas, as lealdades locais e nacionais e as afiliações dos vários grupos) foram afastados. Mas não deixavam estes homens (Tocqueville, Acton, Mill, Kahan - não vou incluir Burke que merece outra análise) de ser filhos do seu próprio tempo, liberais que viam a neutralidade do estado e incorriam em todo o tipo de fragilidades face ao seu próprio pensamento. Sabiam bem os homens do século XIX que o verdadeiro liberal reverencia Deus mas respeita o diabo, e talvez aí estivesse a insuficiência e contradição do próprio liberalismo. Como alguns críticos apontaram também (e não foram poucos), o liberalismo procura a causa história específica do mal social e da corrupção da moral, mas ao fazê-lo generaliza da forma mais básica a origem desse mesmo mal, não o compreende, e não o consegue combater tão pouco. 

A liberdade, dizia Acton, não reside no poder da maioria para identificar a sua vontade com a do Estado, mas na segurança de uma maioria não ser encurralada por esse Estado. Seria tão indigno a opressão por parte de uma minoria como por parte de uma maioria, daí que rejeitassem a democracia, enquanto domínio da maioria, uma forma degenerativa que se tornava a pior inimiga da liberdade. Herculano seguia o mesmo pensamento entre nós, na defesa da liberdade contra a democracia e ao estudar os antigos forais na tentativa de recuperar o velho municipalismo que perpassará um sonho invicto de republicanos descentralistas e do próprio Integralismo mais tarde (isso fica para outra discussão) procurou, já tardiamente, uma resposta aos males do seu tempo que se verificaria infrutífero.
Seria almejado pela "democracia" a igualdade entre todos, o que pode significar uma tirania pior do que a de um homem só, Tocqueville escreveu algures que a ideia moderna de nivelar as populações numa única classe haveria de agradar a Richelieu, acrescentando que "this level surface facilities the exercise of power." Uniformizar a língua e a cultura torna mais fácil o controlo centralizado e facilita ainda mais o exercício do poder, um qualquer ditador agradeceria.

O mesmo Acton (da primeira fase) que admirava o conservadorismo austríaco, negava que as instituições representativas e o constitucionalismo, eram essenciais para o bom governo e para a própria liberdade, elogiava o feudalismo e elogiava a Inglaterra por assumir a "gloriosa missão de representar na Ásia a civilização cristã." 
Para Acton a Áustria era um ponto valioso da Europa porque preservava a única nobreza real do continente. E defendia que o Antigo Regime da França, com os seus direitos e classes privilegiadas, a França dos direitos provinciais e das liberdades regionais, era preferível à igualdade e centralização que eram o fruto da revolução. Afinal é o mesmo Acton quem defende o direito do Sul à secessão também, e quem vê a subjugação por parte do norte como uma arbitrariedade. O denominador comum deste julgamento era o desejo de ver o poder político distribuído entre uma parte de grupos sociais, multiplicando assim a fonte da autoridade, e nesse sentido quebrar a identidade do Estado e da sociedade. Era o equivalente para a sociedade do princípio do "checks and banlances" no governo. Para Acton interessava a aristocracia como uma utilidade, uma verdadeira força política. 

Mais tarde o velho historiador renegaria estas crenças, o tempo tornou-o menos conservador e mais crítico dessa mesma Áustria que primordialmente o tinha fascinado, não poupando críticas ao feudalismo e mesmo em Edmund Burke, a quem devia o crescimento intelectual que tanto o tinha inspirado nos primeiros tempos, acabava por criticá-lo.  Mas guardou do mestre um interessante mecanismo de crítica através da análise empírica dos factos, negando as distracções metafísicas do direito e da justiça. 
A partir da maturidade começou a preocupar-se mais com o teste prático dos princípios políticos e das instituições, o que o aproximava mais de uma atitude doutrinária. Acton dizia estar disposto a aceitar uma revolução, mas talvez tivesse em mente a revolução americana ou a revolução gloriosa de Inglaterra que, como bem sintetizou Arendt e Russel Kirk "was a revolution not made but prevented". O que procurava era esse sentido de uma "revolução evitada", mais do que uma revolução francesa. Aliás, nas suas considerações sobre a revolução francesa nota-se a influência de Burke, ainda assim descobre-se a contradição: Lord Acton procura equilibrar dois princípios incompatíveis, o puro princípio ético que providencia o incentivo inicial à revolução e à sua justificação moral; e o princípio da liberdade da sociedade que deveria ter sido o resultado dessa revolução, organizada num sistema de "checks and balances". 
Burke dissera que a revolução ao serviço de um ideal absoluto deveria necessariamente dar lugar a um estado ao serviço desse poder absoluto. Se as leis, tradições e irracionalidades da história são sujeitos às discriminações do homem, se elas são julgadas pela consciência a uma lei superior, então o curso da racionalismo leva fatalmente ao absolutismo, porque já não haveria espaço para a multiplicidade de forças sociais relativamente às quais a liberdade depende.  
Acton percebeu esta ideia e escreveu: "Government by idea tends to take in everything, to make the whole of society obedient to the idea. Spaces not so govened are unconquered,  beyond the border, unconverted, unconvinced, a future danger."
Mais frequentemente ignorou os avisos de Burke, acusando-o de substituir a experiência da política pelas percepções da moralidade. Acton não terá percebido o seu mestre, no final da vida incorreu em erro, foi pena.


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Armistício - Recordar



11 de Novembro de 1918 assinala-se o fim da Primeira Guerra Mundial, conflito que formalmente acabou às 11 horas do dia 11 do mês 11, de acordo com armistício assinado entre a Alemanha e os aliados. Em Inglaterra e na Commonwealth seguindo uma tradição inaugurada pelo rei Jorge V o dia passou a intitular-se "Remembrance Day" ou "Poppy Day" porque o símbolo que homenageia os mortos no conflito é uma papoila, adaptado dum poema de John McCrae intitulado "In Flanders Fields" onde fazia referências às papilas que cresciam na campa dos soldados, as mesmas que cobriam os campos da Flandres e que passaram a simbolizar o martírio dos milhares de homens sacrificados numa guerra desastrosa.

Só por curiosidade, em Portugal não assinalamos este dia, o governo da república escolheu o 9 de Abril, data que assinala a derrota dos soldados portugueses face à Alemanha, em La Lys. Ficou-se pela consagração de um túmulo dedicado ao "Soldado Desconhecido", aliás, mais como um acto simbólico, ao qual acresceu toda a mitologia enaltecendo os mortos da guerra, e onde se faz arder a "Chama Eterna". *

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*nota: Em Portugal, vários Núcleos locais e a Direção Central da Liga dos Combatentes assinalaram a evocação deste 97.º aniversário do Armistício da Grande Guerra. Este dia também é chamado de “Dia do Armistício”.




terça-feira, 10 de novembro de 2015

E agora?




Ao início da tarde seguia a manifestação de apoio ao governo, ao fim da tarde ouvia a demissão do governo. Vi pessoas do CDS a manifestarem-se,  com pouca distância dos sindicalistas e grupos anti-governo, que também se manifestavam. Como não sou anti-governo nem pró-governo, não pertencendo a nenhuma organização, nem partido, nem seita, fico como aquela máxima de Sá de Miranda de que ás vezes me espanto outras me envergonho. Espantou-me por momentos o acordo dos partidos de esquerda, afinal o que é que o PS tinha de comum com o PCP e o Bloco? Pouco, mas logo se verá como se entendem as comadres. Espantou-me o assalto ao poder de Costa, nunca gostei do tipo, sempre me pareceu um pequeno tiranete, afinal, pensando bem, não é tão espantoso como julgava. Envergonhou-me o senhor Presidente da República em quase tudo, a falta de atitude a incompetência, o discurso de seita. Até aqui, tudo mal. 
A restante tragédia é como se conhece e o resultado era expectável. Era certo que o governo tinha os dias contados. Agora, se é um assalto ao poder, um "golpe de estado constitucional", se é uma hipocrisia do Costa, maquiavelismo, jogo de interesses? Será tudo isso, mas a legitimidade vale o que vale, i.e., não se trata de dizer, como num jogo de futebol, que se ganhou ou perdeu porque teve mais "pontos" (diremos "votos"), mas o que conta efectivamente é o número de mandatos efectivos. Depois, o PS não está obrigado a fazer acordos apenas com os partidos à sua direita, o fim da suposta "tradição" é que a esquerda uniu-se e o "centrão" cedeu. Verdade que vêm aí os bolcheviques e o assalto ao Palácio de Belém (não é propriamente o Palácio de Inverno dos Czares), e lá vem a direita a agitar o fantasma do PREC, mas o PCP não mete qualquer medo, ao contrário da provocação de quem ainda persegue os comunistas que vêm comer as criancinhas. Acredito que o realismo político falará mais alto. Já se escutaram as vozes da Europa: Schauble e Dijsselbloem já disseram que Portugal vai no bom caminho, o mesmo dizendo que as aventuras anti-euro e anti-austeridade não poderão ir muito longe. Vejamos como cumprirão as promessas para levar a acabo todo aquele projecto: aumentar o salário mínimo? restituir o valor das pensões? acabar com a sobretaxa fiscal? voltar a pagar a TAP com fundos públicos? acabar com a austeridade? Aplaudo, mas vão fazer tudo isto com o dinheiro de quem? (até que acabe o dinheiro dos outros de certeza). 
Podemos não gostar do que aconteceu - esbracejar, gritar, eclodir na cólera feroz - mas o certo é que os resultados falaram por si, e a matemática não engana: 123 é maior do que 107. A esquerda está em maioria. É a vida. Melhor: é a democracia. O problema já não é constitucional, nem parlamentar, é apenas de álgebra. Quanto à direita, agora derrotada - bem ou mal, legitima ou ilegitimamente, como pretendam interpretar esta queda - aproveitem para pôr a mão na consciência, aprendam bem a lição, doutrinem-se, leiam, estudem, o que falta é pensamento.  



domingo, 8 de novembro de 2015

Homens Livres



Homens "livres e seguros" precisam-se para uma regeneração nacional. 
Livres da Finança & dos Partidos. 
A revista que uniu o Pelicano e a Seara. 

“Anima-nos o mesmo fogo sagrado contra a barbaria dos tempos presentes, – é nosso comum mandamento desafrontar o claro sorriso de Minerva das fumaradas insolentes de Vulcano…A esse brado respondemos sempre a tudo que seja por Portugal e a que não falte o selo dignificador da inteligência”.



sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O Anjo

Paul Klee, Angelus Novus, 1920. Museu de Jerusalém.


Sei que isto é um pouco um corolário básico e um lugar comum extraído de uma imagem de Klee, o Angelus Novus (O Anjo da História), o qual vale mais pelas interpretações feitas do que pelo traço, a verdade é que a análise de Walter Benjamim tem uma inspiração um pouco baudelairiana (em "As flores do Mal" leia-se o poema “Une gravure fantastique" que vai ao encontro do sentimento do filósofo), mitigada pelas influências que entretanto tinha apreendido na filosofia clássica e essencialmente no fascínio descoberto nas alegorias religiosas. No fundo o filósofo vive o conflito entre o sagrado e o profano, o progresso e a condenação ao inferno. As linhas de um homem desesperado com o curso da história:

"Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Temos olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas.O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés.
Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Este vendaval arrasta- o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval." - Walter Benjamim

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A ressurreição de Schmitt



Interessante artigo sobre Carl Schmitt: Springtime for Schmitt. Escrito pelo professor Jeremy A. Rabkin, da George Mason University School of Law, e publicado pelo site Library of Law and Liberty, com alguma atenção dada ao famoso livro "O conceito do político" e apresentando os traços cimeiros do pensamento do jurista alemão, grandemente desenhados no período conturbado de Weimar, e na polémica que manteve com Kelsen (o jurista austríaco autor da Teoria Pura do Direito). 

Das críticas ao liberalismo à ideia de "soberania" e "estado de excepção"; perpassando a visão crítica relativamente aos conceitos de democracia e de ditadura , a concepção de "amigo-inimigo" (que entre nós foi seguida também por Cabral de Moncada, com quem manteve longa correspondência). Mas também a relação próxima com o regime Nazi, ainda que mais niilista do que nacional-socialista, como lembrou Heinrich Meier, enquadrando-o antes como um crente dos "absolutos teológicos", afinal um católico que mais tarde se desiludiria com o Concílio Vaticano II. 

Um texto interessante que desenvolve alguns destes aspectos, mas sempre insuficiente para conseguir compreender um homem tão complexo e com um pensamento tão profundo. Fica aqui a dica.

"Schmitt was an existentialist before the term existentialism became popular. He called his doctrine “decisionism” but it amounted to much the same thing. In the postwar period, Schmitt welcomed interest in his work from intellectuals of quite varied stripes, even French Leftists. He corresponded with them and sometimes received them at his home in the Rhineland. One could fairly describe Schmitt as a precursor of postmodernism. He beckoned to something beyond the staid calculations of modern bourgeois society— something with more passion and more excitement."
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