domingo, 11 de outubro de 2015

Na era dos anões

Assim, o regime democrata é o regime da irresponsabilidade. Irresponsáveis no momento, irresponsáveis perante a História, dispersos e cómicos, comparsas de uma política instável de amadores, os partidos conspiram assim permanentemente contra o equilíbrio e o bem nacional. 

F. Rolão Preto, A monarquia é a restauração da inteligência, 
1920.




As eleições legislativas revelaram o que já se sabia: o vazio à direita e o avanço da esquerda e da extrema-esquerda. Aliás uma força significativa na extrema-esquerda, mas dividida, o que em principio não vinha sendo ameaçador, até que Costa veio propugnar uma espécie de “Frente Popular”, ainda que para tal as famílias das esquerdas se tenham de entender (esperemos que não o façam). Costa não é certamente um Léon Blum, nem Portugal é a França dos anos 30, ou a Espanha radical do tempo da república. 
A vitória da coligação terá sido o mal menor, ou a vitória possível dentro de um estado de coisas que parece irreversível. Ainda assim a direita portuguesa vive num estado de raquitismo mental da qual não se consegue libertar. Tenho os meus prós e contras (mais críticas do que elogios, contudo) em relação a esta permanência da coligação, quando lembro a reforma do mapa judiciário como uma confusão imensa. As privatizações, as quais, com razão ou sem ela, com todos os bons motivos ou sem eles, são quantas vezes malquistas. Já a privatização da TAP foi uma aldrabice, a privatização da educação será uma estupidez. 

O vazio na direita, contudo, é insofismável. Revela-se e revê-se nas condições políticas nascidas da Revolução de ‘74. O PSD, que durante os primeiros anos mantinha o retrato de Marx na sua sede, não perdeu a graça no que toca a confusões ideológicas. 
Não há em Portugal uma direita patriótica e eurocéptica (um UNIK ou uma FN), esse espaço é preenchido pela extrema-esquerda, do PCP ao Bloco. 
Outrora o CDS tinha o discurso da direita eurocéptica. No tempo de Manuel Monteiro falava em sair do euro e mantinha um discurso patriótico que a direita ficou a perder, e nem a criação do PND conseguiu superar este vazio, ficando aquém do que podia ter sido um novo revigoramento. Mas tal não aconteceu, à Nova Democracia faltou quase tudo para ser um novo espaço do conservadorismo português. 
O problema torna-se mais fundo. Do tempo em que a direita pregava a nação como valor superior a defender, quando cantava a independência da pátria, e outrora falava entusiástica do Império (antes de recuarmos às fronteiras do tempo de Afonso III), em que defendia valores indiscutíveis e hoje vulgarmente espezinhados, como a família, a religião, a nação, agora a direita tornou-se sofisticada e europeista, tão liberal na sua identidade que julgaríamos ver um brilho progressista a rejubilar. Estar no futuro é uma ambição dos homens pequenos que não sabem como resolver os problemas do presente. Idealizam o progresso porque sabem que preservar o que deve-ser é mais exigente do que destruir, e menos popular também, e na maré demagógica em que vivemos tal não seria bem-vindo.  

Dizem-se conservadores, mas não têm nada a conservar. São apenas liberais - mas seguem o pior do liberalismo. 
A direita apaixonou-se pelo neo-liberalismo que copia dos Estados Unidos e chega a  dizer-se “liberal-conservadora”. Lêem Burke e confundem-no com Hayek, estudam Maquiavel mas ficam-se pela iniciação à chico-espertice.
O dito “liberal-conservador” puro do nosso “centrão” é aquele que acha que o liberalismo é o único bem a conservar. Que a nação é coisa de fascistas e o que interessa é obedecer às regras de Bruxelas. 
O vazio das ideias é conforme à altura dos nossos homens políticos. Olhando a nossa classe política (procurando mesmo vários rostos entre a classe política europeia) dir-se-ia que o tempo dos “gigantes” acabou há muito. Gigantes - os estadistas que verdadeiramente estavam na dianteira dos seus povos. O tempo de quando a política era a defesa das pátrias acabou. Hoje, apenas em forças políticas dissidentes, estas ideia, por vezes, emergem. Mas o vácuo impera. 
Naquele tempo em que de Gaulle falava da sua “ideia de França”, com toda a imagética que constitui para o populismo gaulista a exaltação de uma nação (e ainda assim caiu em desgraça com a Argélia), já não suscita sequer ânimos mais ousados. 
Já acabaram os grandes discursos, verdadeiramente elaborados ao nível de obras literárias, o tempo dos grandes oradores que enchiam comícios, a identificação com um heroísmo inspirador, dos banhos de multidão e das grandes ovações.  

Podemos criticar essa forma de fazer a política mas vem de uma era em que a Europa ainda era constituída por pátrias e em que os Estados ainda eram soberanos. Hoje vivemos no tempo dos “anões”. 
Os “anões” são aquelas criaturas que vivem em função do seu tempo eleitoral, dizendo-se legitimados para todo o tipo de aldrabices, e constituem uma máquina burocrática eficiente para financiar os seus caprichos. Os “anões” têm uma ambição, no escasso tempo que têm procuram ser os primeiros dos reformistas e os mais destacados progressistas, todos bons democratas e determinados a fazer o “bem” (ainda que possam apenas produzir o “mal”). Tanto vale para a esquerda, como para a direita. A esquerda caviar e a direita catita. O centrão demo-liberal tão bem educado e sempre exaltado na primeira fila do progresso. 
Desejam ser grandes - mas são pequenos; ambicionam ficar na história - mas são insignificantes. 
Aprenderam tudo pela mesma sebenta. São alunos dos USA e da grande banca, os neo-cons cá do burgo com a ambição de conduzir as classes médias à miséria, desculpem (erro meu), à prosperidade. 
Os “anões” não têm ideologias, porque isso está ultrapassado, e quando a têm é para servirem os seus caprichos. Os “anões” são estes homens e mulheres que nos falam em gráficos do “Excel” e com “Power Points”, exaltando os cálculos e estudos vários que apenas eles percebem, que têm a grande salubridade de serem superiores, como revelam os doutoramentos que exibem, de Harvard ou de Oxford, e para quem o povo real é apenas um bicho que vêm governar.

Vivemos entregues a essa gente. Haja quem nos venha salvar. Ou salvemo-nos nós quanto antes. 

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