sábado, 31 de outubro de 2015

Bom fim de semana



que yo me voy, que yo me voy, que yo me voy a la facción, a defender la bandera de Don Carlos de Borbón 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Contradições do laicismo?

para que conste: a imagem do progresso deste regímen,
uma caixa de fósforos, para breve 


O património histórico de Lisboa pode estar a cair aos pedaços, as demolições de arquitectura histórica podem continuar, a sujidade, a degradação, podem prevalecer, a suburbanização da zona que vai do Rato à Alexandre Herculano já revelou o que de pior podia fazer a Câmara de Lisboa, tão pouco lembrava o homúnculo que quis destruir os brasões da Praça do Império porque as insuficiências sexuais que o fazem homem de esquerda levavam-no a congeminar virozes contra o passado português (e assim se revela um pequeno tiranete), tudo isto pode acontecer, mas gastar milhões para construir (desnecessariamente) uma mesquita já se justifica.
 Já se sabe que para recuperar património nunca há dinheiro, para o destruir há sempre. Para recuperar igrejas nunca há dinheiro, até porque o Estado é laico e Deus é coisa de inquisidores, mas para erguer minaretes há sempre uns tostões. Aliás, a partir de 2017 essa será a realidade, o islamismo chegou meus senhores. Esse laicismo de pacotilha tão passadista e ainda a brincar com  o barrete frígido dá vontade de rir, não fosse tão trágico. Chesterton tinha razão quando afirmava que quem deixa de acreditar em Deus passa a acreditar em qualquer coisa, ainda que essa coisa seja completamente desfasada da realidade, ainda que essa "coisa" se chame multiculturalismo, i.e., a cedência perante os outros povos e o desprezo pela cultura nacional, o culto da vulgarização e a aceitação da globalização desenfreada.

A regra basilar do regímen traduz-se neste estado de coisas doentio, na medida em que se for para servir o dinheiro e as negociatas a CL é toda democrática, multicultural, progressista, contudo, se for para proteger o património cultural português, para defender a memória lusíada, para exibir o nosso orgulho enquanto nação, então, cuidado, que isso é coisa de salazaristas.
Os paradoxos servem toda a  linguagem do politicamente correcto com que ameaçam a nossa identidade. Se for para construir mesquitas ignoram o credo laico, porém, fosse o oposto, se se construísse uma igreja (ainda que desnecessário também, o que urge pensar é a requalificação daquelas que existem) a questão tornava-se mais delicada. Como se explica que o primeiro colégio da Companhia de Jesus (do mundo), localizado na Mouraria, esteja a cair aos pedaços?  Isto quando há milhões a serem desperdiçados?
Para que conste, a CL vai gastar 1,5 milhões de euros para a libertação dos prédios sitos entre os números 248 a 264 da Rua da Palma e os 137 a 151 da Rua do Benformoso, justificando a necessidade no sentido de "melhorar o espaço público", dizem eles. Leia-se que estes milhões servem para "expropriar", outros milhões servirão para construir a dita mesquita. Mas o imbróglio não acaba aqui. Saiba-se ainda que nenhum dos inquilinos que vivem na rua da Palma foi até agora contactado relativamente ao projecto que os vai despejar. Esta atitude da Câmara não deixa de ser curiosa ao pôr os portugueses num segundo plano para servir cegamente o multiculturalismo, um servilismo cego para cristalizar uma aparência aberta e democrática quando é na verdade uma decisão arbitrária. Podem justificar com todos os argumentos que tal não apaga a insensatez desta gente. Os edifícios estão devolutos e em mau estado portanto não vai fazer diferença, nem vai comprometer os grandes negócios, nem as negociatas, mandam-se uns quantos cidadãos para o olho da rua mas a justificação demoliberal e multicultural tudo justifica. E pergunto face a este rocambolesco programa:
- A CL recebeu alguma coisa da comunidade islâmica para a construção da dita mesquita?
- Precisa Lisboa de duas mesquitas?
- Fará sentido gastar dinheiros públicos nessas obras?

Em jeito de provocação oferece o espaço onde historicamente se assinala a reconquista de Lisboa, firmando a trágico-comédia apenas conseguida no país de Abril, onde se dá uma no cravo e outra na ferradura, a não ser para oferecer favores aos amigos, claro está. O F. Medina lá se diz orgulhoso e bem pode estar. Já o D.Afonso I deve estar a dar voltas no túmulo.
Não cessa o argumentário demoliberal, no sentido que encontram ao defender que o catolicismo deve ser remetido para  privacidade dos lares, como mandava a neutralidade liberal de oitocentos e como manda por estas bandas o laicismo (palavra que não significa nada), já o islamismo tem de servir a vontade da comunidade, tem de justificar a expropriação arbitrária de cidadãos aos quais não é facultada qualquer informação.
Mas eis que o laicismo tem as suas brechas, a neutralidade republicana face à religião demonstrar-se-á para breve falível, pois o que é que fará quando outras religiões exigirem também espaços de culto? Continuará a mostrar-se neutral e a procurar conciliar culturas antagónicas e credos que entre si despertam ódios mortais, e, na sua ingenuidade, procurará conciliá-los dentro de uma mesma tolerância republicana? Estes senhores que acordem para a vida.

domingo, 18 de outubro de 2015

A Casa resistente

Parabéns à Nova Casa Portuguesa, um espaço privilegiado para pensar a Portugalidade. Perfaz hoje meia década de existência e resistência na blogosfera.  E que continue por muitos mais anos. 



Monarquia e Anarquia




Do site The Imaginary Conservative,  um texto que vivamente recomendo da escritora Marcia Christoff-Kurapovna, OF MAJESTY AND ANARCHY. Uma importante reflexão quanto aos fundamentos da monarquia numa contextualização histórica que visa o pensamento medieval (que é preciso melhor entender) principalmente a afirmação da monarquia germânica e do Sacro Império por mão do carismático Imperador Frederico II, a quem Nietzsche chamou o "primeiro europeu". Que foi verdadeiramente um intelectual, um estadista, um hábil diplomata, na essência um pensador. Falava várias línguas, correspondia-se com os sultões do mundo islâmico, lia os autores clássicos e foi principalmente influenciado pelo pensamento de Aristóteles. Ele, o grande rei, concebeu as bases da monarquia num mundo que parecia ter perdido os fundamentos à revitalização da ordem, desabada depois do colapso do Império Romano. Quando os reis são filósofos e os filósofos são reis, usando a máxima de Platão.

Indeed, the Great Prince is both Monarchist and Anarchist: he is the summa of the great currents of the centuries before him and an anomaly to his times; he is the caretaker of Order (historical memory) and also the curator of Revolution (the creation of history). At once the devoted heir to tradition and the avowed enemy of corrupted status quo, only he, the Great Prince, is intermediary between the Law of God and the realm of mankind; he must serve exclusively the Law of Justice.


 Ainda que fosse um dos homens mais poderosos da sua época nunca perdeu as relações de humildade para com os outros homens diante de Deus. O mesmo que escreveu: “As men stand equal to other men by their humanity,  “they have nothing to pride themselves on unless by virtue. (...) “People do not distinguish Kings and Caesars above other men because they are highly placed, but because they see farther and act better.” (é verdade, um imperador medieval escreve sobre a "igualdade" e proclama a virtude individual como a prossecução para alcançar a sociedade ideal). 

A autora apresenta-nos Frederico como o grande revolucionário e reformador, o autor da famosa "Constituição de Melfi"  também conhecida como Liber Augustalis, uma das principais constituições escritas conhecidas e o primeiro livro de leis monárquico surgido na Idade Média e permaneceu como a lei fundamental do Reino das Duas Sicílias até à chegada de Garibaldi no século XIX. 

The Liber Augustalis was framed with the special view of securing equal rights to all classes of Frederick’s subjects and of delivering them from feudal oppression. He stripped the nobles and prelates of their jurisdiction in criminal cases. He decreed that any count or baron, carrying on war on his own account “should lose his head and his goods.” These were amazing strides in the right direction, Pennington notes, but quite unprecedented in feudal kingdoms.

(...)

It was under the influence of this stimulating environment of medieval Sicily that the Great Prince was able to conceive of one of the outstanding acts of anarchism of his day: the Bloodless Crusade—the Sixth. This was a “victory of diplomacy over force,” in the words of one historian,”of humanity over bigotry… the finest moment in the history of the Crusades.” Far more interested in exchanging strange mathematical puzzles with his royal, Eastern counterparts than going to war with these official enemies, Frederick—so warlike on his own turf—managed to assert Reason and crown it with Will in regaining Jerusalem, Nazareth and Bethlehem from the Abbuyid Sultan al-Malik al-Kamil of Egypt (the nephew of the great Saladin who, one might recall, Dante accorded a place in Heaven).


Depois da morte do grande imperador restou o caos, com analisou Kantorowicz:
“The world had never seen before on such a scale the spectacle that followed the death of the Emperor,” wrote Kantorowicz. “The complete disintegration in a night of the proud structure of government, the incoherence of all Germany taking place… the glorious pride and freedom of Hohenstaufen days lay in the dust.”

Gostei da conclusão final da autora, que muito bem fez a síntese do vazio que as actuais monarquias vivem e do sentido que uma verdadeira monarquia deve exaltar:

Today, wherever the intelligent among us may still be found, the idea of Monarchy—vague, strange, slightly beyond definition—shimmers and beckons along the periphery of our collective intellectual subconscious: we suspect it has something that will save us from the erosions of shabby egalitarianism; from our sordid democracies and their petulant, tiresome, subversive “rights.” We hope for a Personality (so socially unacceptable is he!) surrounded by a distinguished magna curia of philosophers and scientists; a figure who radiates the sunlit values of exalted Christianity and an exalted life of insatiable curiosity, all the while an oppressed cult of rational optimists goes on believing that he is possible because once upon a time he was possible. Or, it just may be that there is something deep with the human spirit—ingrained, instinctual, irrepressible—that longs to say “Your Majesty” and, for once, to mean it.

Leitura obrigatória. 

sábado, 17 de outubro de 2015

Era dos extremos?

O fascínio pelo comunismo voltou, se é que alguma vez desapareceu. Parece que nem o fim do PREC, a queda da União Soviética, ou as reformas de Deng Xiaoping demoveram os ortodoxos. Sempre que entro num alfarrabista não deixo de constatar na quantidade de publicações relativas ao comunismo, marxismo, à revolução russa, entre colectâneas de Marx e de Engels, que se amontoam empoeirados nestes espaços. Quase tudo de autores Franceses, datados de finais dos anos 60 e inícios de 70,precisamente do marcelismo. Outros já do período do PREC, sempre com o titulo sugestivo de socialismo e democracia, são a imagem do empobrecimento intelectual onde por décadas nada floresceu de inovador nas academias. Foi a época em que as esquerdas dominavam as universidades e o seu pensamento criava raízes numa geração de enganos, quando pela restante Europa esta literatura já tinha caido no esquecimento. Ainda Portugal sonhava com os amanhãs que cantam e já a URSS entrava em colapso (faltava pouco para a queda do muro), e na Inglaterra a sra. Thatcher afastava os Trabalhistas e iniciava uma série de reformas liberais (logo em finais dos anos 70). Mas a ortodoxia, ainda que empoeirada, ficou. Resistiu, aqui entre nós, ao teste do tempo. Ao mesmo tempo é curioso como o PCP foi sobrevivendo e como os grupos de extrema-esquerda se refugiaram por detrás da imagem rejuvenescida do Bloco, a quem muitos previam existência breve, mas afinal parece que veio para ficar.
As circunstâncias tornaram-se propícias à sua durabilidade também. Na ausência de uma direita eurocéptica ( o CDS gosta de dançar a valsa com o PSD) e mesmo de uma extrema-direita verdadeiramente representativa, o PCP ocupa esse lugar no discurso anti- União Europeia,anti-euro, na constante referencia ao patriotismo e à soberania nacional. Não temos propriamente uma Frente Nacional,o PNR ainda que tenha crescido (humildemente) não desempenha um papel decisivo, não desperta um maior fascínio junto a um determinado eleitorado que talvez noutras condições lhes dariam maior confiança. Corremos antes o risco da emergência de uma Frente Popular ( a ver vamos).

Já a extrema-direita francesa preenche um lugar peculiar na Europa. É errado colocá-la imediatamente ao lado do UKIP que vem da tradição do isolacionismo britânico e do típico nacionalismo das ilhas. Ou mesmo rotula-la logo como parente do Aurora Dourada. Há algo mais. Ao contrário do que certa opinião diz quanto à extrema-direita francesa,apresentando-a como inimiga da Republica ou dos ideais republicanos que Paris exporta desde o século XIX, tal não é de todo verdade. A FN segue a tradição nacionalista que a República despertou,e é herdeira de todo o discurso patriótico outrora jacobino e laico. "A França una e indivisível" é um velho corolário jacobino dos tempos da revolução. Claro que Le Pen (pai) um ex-militante da Action Fraçaise,reuniu muitos apoios junto aos saudosistas de Vichy, neo-fascistas, ou simplesmente nacionalistas, mesmo católicos e monárquicos. Maurras já no século passado tinha testado a mistura inicialmente impossível entre nostálgicos do Antigo Regime e republicanos nacionalistas. Atacarão outros: porque são racistas e querem fechar as fronteiras da França? A história é muito mais antiga, desde o genocídio cultural promovido pela Terceira Republica na eliminação das culturas locais e dos dialectos das províncias em nome da Nação, ou o caso Dreyfus que manchou a reputação daquele regime lançando os germens que hoje bons socialistas (e quantos deles estiveram em Vichy) tanto criticam. O poder em Paris diz-se europeu, mas aposto que a França tradicional (usando a ideia das" duas Franças" que Maurras induziu na sua critica à República) não seja da mesma opinião.

 Em Portugal o casamento das direitas pôde talvez ter sido proporcional ao Estado Novo, mas a questão que a velha direita  se confrontou logo depois de ver enterrar o Presidente do Conselho foi Se havia vida para além de Salazar. O integralismo nos inícios do século XX já fizera o casamento possível entre o nacionalismo e a monarquia constituindo-se a plataforma possível de um novo ideário para uma "direita" que talvez não tenha resistido à absorção pelo próprio regime, até determinado ponto, ressalvando os velhos mestres integralistas que resistiram à tentação. O sidonismo embora efémero teve algum sucesso. É verdade que as famílias da direita sempre foram diferentes,ora monárquicas, ora fascistas ou nacionalistas, republicanas ou conservadoras, católicas ou revolucionárias. Do movimento Jovem Portugal não restou mais do que a memória, e tal como muitos dissidentes do lado oposto das ideias( no MRPP por ex.) vamos encontrar alguns nomes conhecidos desses antigos militantes nas listas do PSD.

Mas passada a Revolução e o período do PREC o chamado Arco da Governação conserva a direita possível e a esquerda necessária,i.e., a direita que se diz democrática e do centro e a esquerda e extrema-esquerda que logo exibe os galões da resistência. Em França a senhora Le Pen ainda pode associar a sua defesa da pátria às ideias da republica, até determinado ponto, até onde o politicamente correcto permite. Até onde a oligarquia obediente a Bruxelas o permite, se fosse bem contabilizado os ditos europeístas traíram mais a republica francesa do que a senhora Le Pen, Robespierre já teria mandado cortar a cabeça a Hollande, Napoleao já o teria mandado desterrar, o santo Gambretta já o tinha desafiado para um duelo. A Europa das pátrias que de Gaulle exaltava já não é bem-vinda.
Já o nosso patriotismo ora liberal,ora republicano, esgota-se na senda das revoluções. O PCP recuperou algumas das ideias desse ideário, o projecto de um Portugal soberano longe do domínio de Bruxelas e longe do euro. O eurocepticismo entre nós entrincheirou-se nessa dimensão, que pode mesmo parecer estranha.
Mas o que temos a temer desses partidos além do programa que, se olharmos de forma realista, não deixa de parecer desastroso? o PCP que admira a Coreia do Norte, que foi partido da classe operária e hoje vive um tempo em que o proletário e o campesinato já não existem no ocidente.  Ganha na militância fiel, na doutrinação virulenta mas sempre propicia, e tem o discurso próprio para os tempos de crise. Mas bastará procurar a ideologia num tempo que parece já não se preocupar com as ideologias e que vive tão desencantado depois de ver fracassar no século passado as aventuras ideológicas? Temos visto que o interesse pelas ideias não se esgotou e consegue sempre reinventar-se.
Resta a direita saber reinventar o seu caminho.
Portugal precisa de uma direita a sério. E já!


sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Pensamento do dia

Para os anais da história política portuguesa:



O bigode nietzschiano numa figura quasi casual de apetites proletários não deixa enganar a mente iluminada que tão bem deduziu o sistema. A República portuguesa cada vez mais se parece com um bordel, e ainda por cima mal frequentado.

Ainda, do grande "educador":

sobre o PCP - “um partido revisionista e social-fascista”

o berloque de esquerda - “bloco da classe média urbana”


domingo, 11 de outubro de 2015

Na era dos anões

Assim, o regime democrata é o regime da irresponsabilidade. Irresponsáveis no momento, irresponsáveis perante a História, dispersos e cómicos, comparsas de uma política instável de amadores, os partidos conspiram assim permanentemente contra o equilíbrio e o bem nacional. 

F. Rolão Preto, A monarquia é a restauração da inteligência, 
1920.




As eleições legislativas revelaram o que já se sabia: o vazio à direita e o avanço da esquerda e da extrema-esquerda. Aliás uma força significativa na extrema-esquerda, mas dividida, o que em principio não vinha sendo ameaçador, até que Costa veio propugnar uma espécie de “Frente Popular”, ainda que para tal as famílias das esquerdas se tenham de entender (esperemos que não o façam). Costa não é certamente um Léon Blum, nem Portugal é a França dos anos 30, ou a Espanha radical do tempo da república. 
A vitória da coligação terá sido o mal menor, ou a vitória possível dentro de um estado de coisas que parece irreversível. Ainda assim a direita portuguesa vive num estado de raquitismo mental da qual não se consegue libertar. Tenho os meus prós e contras (mais críticas do que elogios, contudo) em relação a esta permanência da coligação, quando lembro a reforma do mapa judiciário como uma confusão imensa. As privatizações, as quais, com razão ou sem ela, com todos os bons motivos ou sem eles, são quantas vezes malquistas. Já a privatização da TAP foi uma aldrabice, a privatização da educação será uma estupidez. 

O vazio na direita, contudo, é insofismável. Revela-se e revê-se nas condições políticas nascidas da Revolução de ‘74. O PSD, que durante os primeiros anos mantinha o retrato de Marx na sua sede, não perdeu a graça no que toca a confusões ideológicas. 
Não há em Portugal uma direita patriótica e eurocéptica (um UNIK ou uma FN), esse espaço é preenchido pela extrema-esquerda, do PCP ao Bloco. 
Outrora o CDS tinha o discurso da direita eurocéptica. No tempo de Manuel Monteiro falava em sair do euro e mantinha um discurso patriótico que a direita ficou a perder, e nem a criação do PND conseguiu superar este vazio, ficando aquém do que podia ter sido um novo revigoramento. Mas tal não aconteceu, à Nova Democracia faltou quase tudo para ser um novo espaço do conservadorismo português. 
O problema torna-se mais fundo. Do tempo em que a direita pregava a nação como valor superior a defender, quando cantava a independência da pátria, e outrora falava entusiástica do Império (antes de recuarmos às fronteiras do tempo de Afonso III), em que defendia valores indiscutíveis e hoje vulgarmente espezinhados, como a família, a religião, a nação, agora a direita tornou-se sofisticada e europeista, tão liberal na sua identidade que julgaríamos ver um brilho progressista a rejubilar. Estar no futuro é uma ambição dos homens pequenos que não sabem como resolver os problemas do presente. Idealizam o progresso porque sabem que preservar o que deve-ser é mais exigente do que destruir, e menos popular também, e na maré demagógica em que vivemos tal não seria bem-vindo.  

Dizem-se conservadores, mas não têm nada a conservar. São apenas liberais - mas seguem o pior do liberalismo. 
A direita apaixonou-se pelo neo-liberalismo que copia dos Estados Unidos e chega a  dizer-se “liberal-conservadora”. Lêem Burke e confundem-no com Hayek, estudam Maquiavel mas ficam-se pela iniciação à chico-espertice.
O dito “liberal-conservador” puro do nosso “centrão” é aquele que acha que o liberalismo é o único bem a conservar. Que a nação é coisa de fascistas e o que interessa é obedecer às regras de Bruxelas. 
O vazio das ideias é conforme à altura dos nossos homens políticos. Olhando a nossa classe política (procurando mesmo vários rostos entre a classe política europeia) dir-se-ia que o tempo dos “gigantes” acabou há muito. Gigantes - os estadistas que verdadeiramente estavam na dianteira dos seus povos. O tempo de quando a política era a defesa das pátrias acabou. Hoje, apenas em forças políticas dissidentes, estas ideia, por vezes, emergem. Mas o vácuo impera. 
Naquele tempo em que de Gaulle falava da sua “ideia de França”, com toda a imagética que constitui para o populismo gaulista a exaltação de uma nação (e ainda assim caiu em desgraça com a Argélia), já não suscita sequer ânimos mais ousados. 
Já acabaram os grandes discursos, verdadeiramente elaborados ao nível de obras literárias, o tempo dos grandes oradores que enchiam comícios, a identificação com um heroísmo inspirador, dos banhos de multidão e das grandes ovações.  

Podemos criticar essa forma de fazer a política mas vem de uma era em que a Europa ainda era constituída por pátrias e em que os Estados ainda eram soberanos. Hoje vivemos no tempo dos “anões”. 
Os “anões” são aquelas criaturas que vivem em função do seu tempo eleitoral, dizendo-se legitimados para todo o tipo de aldrabices, e constituem uma máquina burocrática eficiente para financiar os seus caprichos. Os “anões” têm uma ambição, no escasso tempo que têm procuram ser os primeiros dos reformistas e os mais destacados progressistas, todos bons democratas e determinados a fazer o “bem” (ainda que possam apenas produzir o “mal”). Tanto vale para a esquerda, como para a direita. A esquerda caviar e a direita catita. O centrão demo-liberal tão bem educado e sempre exaltado na primeira fila do progresso. 
Desejam ser grandes - mas são pequenos; ambicionam ficar na história - mas são insignificantes. 
Aprenderam tudo pela mesma sebenta. São alunos dos USA e da grande banca, os neo-cons cá do burgo com a ambição de conduzir as classes médias à miséria, desculpem (erro meu), à prosperidade. 
Os “anões” não têm ideologias, porque isso está ultrapassado, e quando a têm é para servirem os seus caprichos. Os “anões” são estes homens e mulheres que nos falam em gráficos do “Excel” e com “Power Points”, exaltando os cálculos e estudos vários que apenas eles percebem, que têm a grande salubridade de serem superiores, como revelam os doutoramentos que exibem, de Harvard ou de Oxford, e para quem o povo real é apenas um bicho que vêm governar.

Vivemos entregues a essa gente. Haja quem nos venha salvar. Ou salvemo-nos nós quanto antes. 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O dia da desordem

Não foi fenómeno único da "república", Pombal fê-lo, o liberalismo com o saque às ordens religiosas também, o "Mata-Frades" foi disso exemplo, mas em 1910 ainda persistir com estes ódios demonstra a demência daquela gente, desde tosquiar os padres para lhes medir os crânios e provar que a vocação religiosa era um desvio genético, às perseguições arbitrárias, aos assassinatos políticos (a “noite sangrenta” de 1921 demonstrou o pior daquele regime). Logo a 5 de Outubro é assassinado o Padre Barros-Gomes (humanista, homem de cultura e de ciência que deixou importantes contributos a nível da botânica). Apenas comparado com a "anarquia" de 1834, viveu-se depois de 1910 um recuo nos direitos e liberdades, no respeito à lei e à ordem. Recuou-se de um estado que garantia a lei e o direito para um estado que institucionalizou a desordem, que governou com partido único durante anos e que restringiu o direito de voto. Também é verdade que a república de hoje (bem ou mal, cheia de vícios e podre até à medula) não tem nada a ver com a república do Dr. Afonso Costa e dos seus sequazes, mas o que veio em 1910 nada tem que se recorde de bom. Comemorem o que quiserem.







sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Catalunha Invertebrada


Miré los muros de la patria mía,
si un tiempo fuertes ya desmoronados
de la carrera de la edad cansados
por quien caduca ya su valentía.

Francisco Quevedo


A Catalunha é um bom exemplo das contradições do demo-liberalismo dominado pelos pequenos interesses de grupo e pelos interesses da burguesia capitaleira. Os motivos da desagregação espanhola foram bem enunciados por Gasset na sua “Espanha Invertebrada”, um processo histórico de declínio que começado na decadência do império universal dos Habsburgos veio a alastrar-se à dinastia dos Bourbon. Depois de perdida Cuba restou a nostalgia de um império. Por fim, perdida as forças que faziam da Espanha a super-potência explodiu, interiormente, para fenómenos independentistas e nacionalistas - o populismo, a demagogia, alimentados pelo romantismo oitocentista. 
Mas as nações não são fruto do acaso (sabemos), nem nascem ex nihilo, são, citando o velho filósofo, produto de “um génio superior”.  Os homens que as forjam têm esse dom excepcional, os povos que as edificam têm o sangue capaz de as elevar. Um partido político alimentado pelo republicanimso demo-liberal alicerçado numa Vontade Geral entra em rota de colisão com estes princípios, com uma Ordem superior, e só pode almejar condenar um povo à decadência. 
Há uma história forjada ao gosto de cada qual.
As razões históricas que os motivam vêm do imaginário do século XIX. A Catalunha pertencia ao Reino de Aragão, a verdade é que os condados catalães nunca formaram um reino independente, passando da soberania dos reis francos para a coroa de Aragão. As instituições valencianas e catalãs foram derrogadas por Filipe V. Mas deduzir daí um auto-governo, uma “nação” ou um “estado” soberano vai um largo passo. 
Sei que houve motivos económicos para exigir o separatismo: a Catalunha é uma das regiões (ou “a” região) mais rica de Espanha e tem de contribuir muito mais para ajudar as regiões mais pobres, mas parece que também  houve motivos economicistas que não permitiram que a Catalunha se tornasse independente (foi o que ouvi). O argumento economicista tanto bateu para um lado como correu para o outro, as finanças preenchem o lugar mítico das pátrias, neste vazio que corre nos regimes do ocidente. Crises como a Inglesa com a Escócia, e a Catalã, apenas revelam a insuficiência das instituições, mais irónico por se tratarem de monarquias (melhor: repúblicas com um rei), não dando a ver o vazio em que se sustentam os tronos da Europa (fica a advertência).

Mas a história tem as suas interpretações. Como a de os catalães terem perdido o que restava da sua independência em 1714 porque apoiaram o candidato austríaco, outra vez, não é certo que se pudesse considerar então um “Estado”. Terão perdido autonomia? Tal como os foros e liberdades foram ameaçados por toda a Europa pela centralização do Estado Liberal, na verdade, mais centralizador (à napoleónica) do que o estado do Ancien Regime, também a Espanha viu destruídas as suas autonomias regionais (e não apenas em Espanha, o mesmo aconteceu em Portugal). 
Os Catalães nunca se consideraram espanhóis? Não vou criticar a acusação. Mas leia-se também Jaime I, no século XIII, o seu livro “Llibre dels feits”, onde descreve como os catalães lutaram orgulhosamente por Castela: «Porque lo hemos hecho en primer lugar por Dios, en segundo por salvar a España, y en tercero para que tengamos el gran honor de que gracias a nosotros se haya salvado España».
Sei que têm (bons e maus, até mesmo péssimos) motivos para pedir independência. Ou para a desejar. Sei que têm história. Como Coimbra também tem, e foi originariamente o condado Conimbricense, que enquanto comunidade autónoma desapareceu em 1091, o que não significa que dê a loucura a um atrevido desejar separar as antigas terras de Hermenegildo Guterres do restante país (cuidado leitor, aqui trata-se apenas de um gracejo de mal graça). O mesmo podia dizer do Algarve. Ou a Madeira. Ou os Açores. (Bom patriota, não te assustes com esta provocação.) 
Já agora, o que dizer da restante Europa? A velha Prússia, a gloriosa Baviera, ou o que dizer da Itália, porque não restituir o Reino das Duas Sicílias, a República de Florença, a República de Veneza. Ironizo evidentemente: a Alemanha é um Estado Federal e a Itália garante suficientemente a autonomia às suas regiões. O que me leva a crer que o federalismo é a fórmula que um estado pode desejar - Gasset, por exemplo, odiava a ideia, um estado constituir-se-ia enquanto federação aquando da sua formação; uma nação antiga que se constituísse depois como federação tenderia à dissolução [1] . Não o vou discutir por ora. Mas o que são as nações senão “comunidades imaginadas”, estou a citar Andersen. Ou como escrevia Renan,“o homem não se improvisa. A nação, como o indivíduo, é o resultado de um longo passado de esforços, sacrifício e dedicação.” Como gritam muitas vozes nas capelinhas: a constituição espanhola precisa de ser revista, talvez caminhar para o federalismo? A ideia da nação "una e indivisível" é um velho corolário jacobino dos tempos da revolução, ideia que vem subjacente às modernas constituições dela herdeira, mas o nacionalismo agregador e construtor daquele grande Estado pode libertar no seu interior vários monstros, como vários nacionalismo desagregadores que ideologicamente motivados procedem à desagregação do próprio Estado. Mas que nação é essa? Uma realidade física, ou uma ideologia?
O que me dizem é que a "história" não tem importância neste processo. A vontade da maioria impera. Têm um economia forte que os permitirá sustentar. Mas aqui está a contradição. Dizem que não interessa o passado, mas é no passado que vão buscar fundamento à sua motivação. O demo-liberalismo não se importa com a história, e quando finge importar-se, inventa-a.
A Catalunha tem o grande poder retroactivo sobre a história, quando não tem argumentos cria falácias.
Aqueles nacionalismos espanhóis - variados e insuficientes - são tão vazios como o próprio Estado que os visa reunir e tão superficiais como a monarquia desligada do princípio monárquico que deu forma à pluralidade do Império hoje o Estado-nação (Napoleão sempre venceu a guerra). 

Reside aqui o elemento mais obscuro. Imagine que 70% da população de uma região decide separar-se do resto do território, mas leia-se que o restante território não se pronunciaria, evidentemente, se nascesse uma nova “nação” seria porque uma tribo de homens assim o entenderia. Legítimo e democrático? eis a vontade da maioria. A maioria capaz de dissolver as pátrias. O que foi forjado por séculos é dissolvido em poucas horas ou dias. Mas o motivo é ainda mais obscuro. Uma vontade totalitária pode destruir um Estado-Nação unificado por séculos de esforço colectivo. Podemos imaginar que metade de uma nação se queira separar da outra, veja-se a Secessão Americana, mas aí o particularismo, a Vontade que a move atritosamente constitucional, tem uma razão-de-ser diferente à questão espanhola (i.e., catalã) que é movida pelo interesse egoísta e que encontra resposta na Vontade Geral que move o demo-liberalismo hodierno. Ele crê que um determinado conjunto de indivíduos porque movidos pela sua superioridade possa desagregar uma nação e esse particularismo é tão monstruoso como o facto de querer quebrar toda a estrutura de um Estado apenas porque assim manda a sacro-santa democracia, ou decidir sobre a vida e a morte, como condenar à morte pela escolha popular, como bem ilustra a morte de Cristo quando o povo preferiu o ladrão Barrabás (uma alegoria sempre pertinente). 
Mas talvez no meio de toda esta confusão algo de bom consiga nascer. Algo de bom, que seja o menor dos males, para um “Estado-Nação-Império” (uso a expressão de Ferguson) em constante ebolição e que a qualquer momento poderá explodir.


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[1] Ortega y Gasset, ESPAÑA INVERTEBRADA BOSQUEJO DE ALGUNOS PENSAMIENTOS HISTÓRICOS