domingo, 31 de maio de 2015

Onde anda o Nuno Rogeiro?



N. R. ‑ Somos, por forma­ção e convicção política, nacionalistas, isto é, concebemos uma realidade tridimensional, a Nação portuguesa, alicerçada nas gerações passadas, conti­nuada na geração presente, dada de herança à geração futura. Por isso, entendemos Portugal superior ao egoísmo de classes, grupos, partidos ou personali­dades, e por isso também te­mos uma visão social da reali­dade portuguesa. Face à proli­feração partidária e ao despo­tismo parlamentar, contrapo­mos algo de radicalmente dife­rente. Para nós é o "país real" que deve estar representado no poder, através das suas entida­des mais representativas (sindi­catos, municípios, escolas, etc.). Defendemos, para além disso, uma estrutura económica que não se baseie no domínio dos "trusts" multinacionais e que assegure o eficaz mecanis­mo de distribuição de rendi­mentos, apontando para uma política avançada de justiça so­cial. Defendemos, ainda, o ver­dadeiro sindicalismo, liberto da intromissão partidária. Face aos que nos apelidam de "es­querdistas", por lutarmos por tudo isto, dizemos claramente que nunca fomos capazes de pensar a nação separada do po­vo que a constitui. Àqueles que nos apodam de "fascistas", pensando insultar‑nos, lançamos, para além do nosso des­prezo, a firme determinação de nunca ceder perante a traição, a ignorância e a opressão. 
De tudo isto deriva a nossa discordância em relação ao ac­tual espectro político, reflexo de um sistema injusto que se prende nas construções formais e não liga à realidade nacional. Não somos um partido nem as nossas ideias são partidarizá­veis. 

"A Rua" ‑ Não se inserem, então, no esquema partidário da "direita"?

N. R. ‑ Evidentemente que não. Temos um estilo, uma éti­ca e uma atitude ideológica que nos afastam do espírito mera­mente reaccionário, meramente anticomunista, e do fulanismo tão próprios às seitas "direitis­tas" hoje muito em voga. 


da entrevista concedida ao jornal "A Rua", a 1 de Fevereiro de 1978 (ler a entrevista completa aqui

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Karma


Uma história curiosa, que não sei se pode ser corroborada por alguém, já que foi sendo transmitida oralmente e ficou no ouvido. Conta-se que numa reunião para eleição da direcção da SPA, nos idos anos 60, tanto Sophia de Mello Breyner como Francisco Sousa Tavares declararam alto e bom som que se iam retirar da sala, não querendo ficar no mesmo lugar onde estava um dos regicidas. E retiraram-se. O dito regicida ali presente chamava-se Aquilino Ribeiro. Lembrei-me a propósito da transladação do corpo de Sophia para o dito Panteão, repousando eternamente entre Aquilino Ribeiro e Humberto Delgado (o troca-tintas que passou do Estado Novo para a oposição). O karma tem destas coisas. A estupidez dos políticos também. Mas, afinal, todas aquelas personalidades ali sepultadas detestar-se-iam umas às outras, como diria o Vasco Pulido Valente, se os mortos falassem aqueles certamente não se falariam.


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Aclamação de D. Manuel II



No dia 6 de Maio de 1908, D. Manuel II é aclamado Rei de Portugal, aos 18 anos confronta-se com um país em rebuliço, explosivo nos ódios à coroa e à religião. Um Rei que não estava destinado a sê-lo, um rei inesperado, ainda no luto da morte do pai e do irmão. Aceitou o pesado cargo que desde Afonso Henriques assegurara a independência e a liberdade da pátria. Não tinha como recuar, os desígnios dos povos são sempre misteriosos e a história que encarna vem devolver as esperanças às pátrias sem rumo. Esperançou uma «Monarquia Nova», marcada pelo avanço do Partido republicano, pelas conturbações e ataques que não auspiciavam o melhor. Estava destinado à tragédia. João Chagas escrevia "«Vossa majestade chega demasiado novo a um mundo demasiado velho», como articulando todas as desvantagens que sobre o rei caiam. Procurou a reconciliação, mas o ódio crescia; procurou recuperar a confiança na coroa, mas o reinado de D. Carlos acumulara inimizades, mesmo no interior da monarquia. Se D. Carlos fora o rei interventivo e energético e a sua ousadia levara-o à morte, D. Manuel procurou o rumo contrário, não intervindo, reinando, mas não governando, ainda que sempre com grande interesse pelos assuntos do Estado, estudando-os a fundo, discutindo-os com os ministros, os velhos e corruptos ministros dos partidos do rotativismo que o traíram, como tinham traído ao seu pai. O exílio ajudou-o a descobrir um estudo mais profundo, aliás, a alcançar o estatuto de um erudito bibliófilo. Na Primeira Guerra Mundial prestou auxílios a Portugal, e pediu aos monárquicos que não continuassem com acções revolucionárias contra o Governo, estávamos na época da Monarquia do Norte, das incursões de Paiva Couceiro, quando no poder ocupava o cargo de presidente o almirante monárquico Canto e Castro, um jornalista da época encontrava a ironia, indicando que "Portugal é um país de paradoxos: tem um rei republicano no exílio e um presidente monárquico no poder". Morreu a 2 de Julho de 1932, o corpo voltou à terra que tanto amava, mas creio que a alma nunca de cá saiu, o mar e a terra portuguesa nunca o abandonaram e foi, até à morte (mesmo quando ilegitimamente deposto) rei de Portugal e como rei legítimo veio a enterrar na "Lusitânia antiga liberdade".



sábado, 2 de maio de 2015

Monarquia e sindicalismo




Como passou o 1º de Maio deixo aqui uma sugestão de leitura: "Anarquia ou Monarquia", publicado em 1923 pela "Juventude Monárquica Conservadora", mas que de "conservador" tem muito pouco. O texto é um apelo às classes do operariado e à necessidade de uma "revolução monárquica". Confronta-nos com a ambiguidade de conceitos e o encontro de terminologias tão antagónicas, mas afinal possível. Propõe o autor (ou autores?) cruzar a monarquia e o sindicalismo. A ideia já não era nova, vinha da influência de George Valois, um dos ideólogos da Action Française e fundador do "Cercle Proudhon", nesse movimento cruzava o nacionalismo e a concepção monárquica da AF de Maurras com as ideias do sindicalismo. As críticas dos movimentos sindicalistas ao individualismo, ao liberalismo, à "ordem burguesa" e ao capitalismo fundem-se num mesmo sentido face às concepções do integralismo monárquico (António Sardinha e Rolão Preto estão na esteira dum mesmo pensamento). Havia também a necessidade percepcionada de ampliar as adesões ao movimento monárquico, apelando às classes do operariado. Foram monárquicos quem, nos anos 20, escreveram estas palavras: "Operariado português! Somos como vós sindicalistas, queremos, como vós ,o triunfo do sindicalismo". E também " a ordem sindicalista só é possível dentro da Monarquia". O opúsculo mostra as influências do maurrasianismo e de George Valois, propaga as ideias do nacional-sindicalismo e nele vê-se germinar o fascínio pelo fascismo que move já uma geração empolgada em rebelar-se. É talvez uma parte da história política que falta estudar melhor.