segunda-feira, 27 de abril de 2015

Este Maurras I




O pensamento maurrasiano nas suas vicissitudes e vícios, nos seus erros e corolários, vítima do século XIX por casado com o positivismo comteano (que aliás o afasta do Integralismo Lusitano), oferece, todavia, o grau mais elevado de raciocínio à ilharga de um pensamento edificado na sólida formação dos princípios. O "Sumo-Sacerdote da «Action Française»", como chamava Rodrigo Emílio, configura a resistência da inteligência contra o arbitrário jugo da modernidade e do monstro despertado pela revolução. Mas aí reside também a latente contradictio de Maurras: o agnóstico que assume o primado da fé católica; o reaccionário e tradicionalista na iminência do positivismo de Comte e do nacionalismo;  o anti-romântico cultivador da mais pura e sensível poesia, face ao agitador caústico cuja tez majestática desvela a inteligência pura do credo. O ideólogo que ergue o sustentáculo espiritual da pátria. Também a alma sensível conjuntamente à ferocidade do político.
Agnóstico, o excomungado, o católico convertido? Esse ser de complexidades e efervescências, o  mesmo autor de ‘La Démocratie Religieuse’ na exaltação da ordem católica onde profere: “Rien au monde n’est comparable à ce corps de prin­cipes”. Renascido duma crise espiritual (como sinto a proximidade àquele nosso António Sardinha, a Alfredo Pimenta, ou àquele trágico Homem Cristo Filho - impossível não invocar os eternos nomes) constatada na carta ao abade Penon: "Ma métaphysique intérieure aboutit au pessimisme noir et gris teinté de vagues roses par l'art libérateur" e como recorda, na intransponibilidade do génio, um mesmo Sardinha, quando desperto duma crise de alma, referindo-se ao século que "lhe queimara as asas de fé". 
Latitude de inteligência providenciada pela recta e profunda reflexão:  rejeita a revolução francesa, mas adere ao nacionalismo, grandemente pela mão de Maurice Barrés. As gerações que vibram entre a Comuna de Paris e o caso Dreyfus sentem o apanágio do idealismo na confluência dos ideais supremos -  a tradição organicista e antiliberal e o nacionalismo, nesse prisma onde os teóricos do Antigo Regime se cruzavam com a tradição republicana nacionalista e militarista. Eis onde Maurras consolida o seu pensamento. Lança-se numa carreira de polemista percepcionada nas criticas à irracionalidade do romantismo, tão irrisório num talentoso poeta romântico, ecce homo que na decadência dos tempos (como sempre ocorre nas crises fini seculares, crises de valor e de espírito) vive apaixonado pela cultura greco-latina, despertada pela viagem à Grécia, e como confessa sincero na carta ao Presidente Salazar (o seu mais bem sucedido discípulo e quiçá rara providência em que o discípulo alcança o mestre pela audácia). 
No panorama europeu atacado pela doença do liberalismo constrói um sistema. Politique d’abord, diria o Mestre do nacionalismo integral, no diagnóstico pessimista face à decadência francesa. Na hostilidade à república parlamentar e democrática clama contra os “inimigos do interior” e, na dedução lógica, parecia-lhe certa a solução: restituir a Realeza à pátria ameaçada. Maurras invoca os “40 reis que construíram a França em mil anos”, vociferando o verbo frontal com que fala à mocidade, determinando os princípios edificadores da "pátria eterna". Lança o mote da Monarquia orgânica, descentralizada, tradicional e anti-parlamentar, tratamento não baseado na metapolítica, mas alcançado de forma dedutiva e racional. Na percepção histórico-política amordaça-o a decadência apenas superada pela monarquia verdadeiramente restituidora da razão de Estado francesa. 
Um mesmo fervoroso federalista monárquico, saudoso da monarquia caída em 1789 - a qual garantira mais liberdades às províncias e comunas (defende). Reencontra-se na descentralização administrativa cujo argumentário racionalmente consistente é lançado no texto “Les idées de descentralisation” (1898). 
Na aforística provocação que cultivava, na sedução da inteligência, não está distante de de Maistre e não será tão provocador afastá-lo de Burke. O doutrinador da Action Française escreve na defesa da “França eterna”, nessa perspectiva de fundo Barrés encontra apoio, distanciando-se na questão monárquica que um mesmo Rebatet ignoraria por vê-la infrutífera, antes o nacionalismo auspicioso na restituição à França da sua grandeza. 
Dirá pois: «É preciso, é imperioso, é vital que a fragilidade humana seja socorrida e ampla, largamente compensada pela fortaleza das instituições»

2 comentários:

  1. Veja um blog brasileiro sobre Monarquia Tradicional: http://nihilosinedeo.blogspot.com.br/2015/09/patrianovismo.html

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    1. Muito interessante. Vou passar a segui-lo.
      Os melhores cumprimentos

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