quinta-feira, 30 de abril de 2015

Este Maurras III



‘La monarchie c'est l'anarchie plus un’ - fórmula apresentada na sua forma dedutiva e lógica a partir do racionalismo de oitocentos, imediatamente atribuída a Charles Maurras, muito proudhoniano, que preconizava uma sociedade livremente constituída nos seus corpos intermédios e que acreditava numa estado mínimo. Concepção essa que estava na iminência do primeiro Maurras, o que escrevia na esteira dos ideais do federalismo, que vibrava no helenismo, que estudava no ardor do positivismo comteano. Logo a esquerda ergue acusação contra Maurras, por ter roubado (ou desvirtuado) o conceito de “libertário”, talvez num instinto provocador, mas tal é não compreender as influências dos movimentos anti-liberais, anti-capitalistas e críticos à democracia da III República francesa que convergiam num mesmo sentido, quer o anarquismo de Proudhon, ora a tradição monárquica que romantizava uma originária forma orgânica pré-revolução. As contradições e sentidos dilatórios entre o pensamento contra-revolucionário e o sentido revolucionário de critica à sociedade burguesa depararam-se com algumas afinidades. Dirá Maurras, elogiando aquele maior, referindo-se ao pensador anarca como  "abstraction faite de ses idées, Proudhon eut l'instinct de la politique française" e que reverenciará na "passion révolutionnaire qui anime Proudhon", compreendendo a necessidade de se revoltarem contra os verdadeiros inimigos: o capitalismo judaico e a ordem social imposta pelo estrangeiro, em nome de um socialismo que cruzará (na fase derradeira) com o  nacionalismo, a necessidade da autoridade e da ordem. 
O rei é o garante da repartição igualitária da propriedade, apenas ele pode garantir o equilíbrio. Avulta essa postura tão radical e tão cara ao pensamento maurrasiano, refém das premissas arrancadas ao entendimento do racionalismo que cegou aquela geração de enganos. Mas há a finalidade última a alcançar e que merece ser preservada. Esse Maurras levado a defender uma sociedade livremente constituída nos seus corpos intermédios e, como a pedra que fecha a abóbada,  o Rei, coexistindo num Estado regulado minimamente, e cuja continuidade e independência são a garantia do princípio dinástico, patrimonial e familiar - encontramos ideias semelhantes em Salvador Dali,ou um Tolkien, ou nos monárquicos portugueses que se apaixonaram pelo anarco-comunalismo de Herzen, são outras tendências por exemplo. 
Ainda outros autores para quem a realeza representa o equilíbrio desejável entre a autoridade e a liberdade, garantidos pela transcendência, afinal o “pontifice”, aquele que une ambas as margens, o divino e o terreno - num entendimento clássico. Não é o semi-deus, mas aquele rei que tem a antecedê-lo a lei divina e a moderá-lo a própria constituição, entendida como constituição histórica - como na nossa monarquia sempre se conheceu. Mas, voltando a Maurras: que liberdade, que federalismo tão apologético desse doutrinador nos primeiros anos de polemista? 
As formas de liberdade sobre as quais o olhar maurrasiano soçobra encontram-se, a seu ver, na Suíça. Parece-nos neste instante tão contraditório, no seu anti-liberalismo, nas suas criticas à democracia, mas a luz é vasta e esplendorosa na leitura que não abandona os paradoxos e as vicissitudes do seu tempo. Para Maurras, a Suíça é como um traço precioso do organismo francês destruído pela revolução. Falta à França essa “coluna vertebral” da autonomia de governo e do sindicato local, que, na hierarquia da pátria, na sua diversidade e idiossincrasias, organizar-se-ia numa multitude de pequenas repúblicas federais, é a ideia alcançada naquele panfleto com que atacou o centralismo republicano 'De la liberté Suisse à l’unité française' in “Quand Les Française ne s’aimaient pas”. Eis o magma que reveste aquele particular raciocínio, a primeva exaltação da ideia que vem florescendo contra as formas barbáricas da modernidade. Não é contraditório nem paradoxal, antes defende uma concepção de liberdade que não confundida com o liberalismo; de democracia que não confundida com a revolução, talvez mais próxima à democracia orgânica e, contra o capitalismo e crítico do socialismo, contrapondo com o corporativismo. 
Conhecia os desígnios do homem e da história, classicista profundo, francês e homem europeu, da ascendência legada pelos quarenta reis, reclinava-se para a ideia mais profunda, a inteligência do raciocínio e a argúcia do pensamento, uma visão oracular que vem despertar as consciências. Será este o destino cruel das mentes inconformistas condenadas ao desterro na própria pátria. A Maurras aplicaria aqueles versos sublimes de Brasillach: Mon Pays m'a fait mal - e a pátria não o soube honrar, saibamos nós prestar a devida homenagem. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Este Maurras II


‘Ênquete sur la Monarchie’ providencia a indispensável reflexão à restauração monárquica, mas é esse mesmo pensamento quem o enforma e quem o condena, a ideia do Bem Comum e da Virtude enviesada pelo positivismo de Comte não pode goirar num maior fortuito, está condenado o cientismo pelas suas próprias contradições. Não perde a substância, porém, o espírito sobrevive a um corpo defunto e marcado pela época. Onde cabe o pensamento de Maurras na nossa direita (pobre direita) portuguesa, tão carente de tudo o que seja verdadeiramente português e tradicional? 
Maurras acusa a República de não realizar o bem comum, mas apenas os interesses particulares, e na democracia via apenas a promoção do reino do dinheiro em vez do Espírito - aqui entrava muito da influência greco-romana, o leu helenismo particular. Era a família, a moral e a nação quem estavam ameaçados na confusão germinada no solo da III República, a vilipendiada e corrupta República, a do caso Dreyfus que Maurras, adepto entusiasta anti-dreyfusard, ataca. Difamado (foi acusado de anti-semitismo) e manchado num mundo do pós-Guerra, julgado e humilhado pelos vencedores, como Brassilach, Rebatet, Céline. Era ao mesmo tempo um incorrigível, como ficou memorialmente lembrado o ataque ao Procurador que o julgava como "colaboracionista": “A violência, senhor procurador, reside no facto de estardes vós no lugar em que estais e de não ser eu a estar aí, a desempenhar um tal papel!». Não é condenado à morte, mas fica em prisão perpétua, de forma impassível comenta: "C'est la revanche de Dreyfus!" 
Na esteira dos altos princípios encontra a grandeza dos ideais perdidos. Está na lógica do nacionalismo, porque a nação, defendia, não é a soma obscura e fantasista de liberdade apreciada pelos eleitores, mas antes a encarnação do imortal princípio da “terra e do sangue”, para os quais todos os indivíduos se deviam submeter. Na argúcia dos argumentos sustenta a necessidade do Estado em superar o sistema de classes e organizar a sociedade de acordo com as linhas de representação profissional e poder local. Conclui então pela monarquia, única instituição capaz de providenciar a protecção debaixo da qual a reorganização necessária da sociedade poderá ter lugar. 
Contrapõe a ineficácia da República face à restauração monárquica, objectivo concretizador daquele conceito a que nos habituámos a escutar, o “nacionalismo integral”. Não originaria a monarquia qualquer forma de tirania, na mediação exacta das forças, no equilíbrio dos poderes. Ficava então garantida a estabilidade, numa aliança favorável entre a autoridade de cima, com as liberdade a nível local; as repúblicas unidas pelas Realeza, as realidades locais, as províncias e corporações, a estabilidade horizontal e a hierarquia, a verticalidade, como um todo somado a partir dos diferentes organismos. 

terça-feira, 28 de abril de 2015

126 anos do nascimento de António de Oliveira Salazar



Foram 40 anos de um homem à frente dos destinos de um país, o bem, o mal, as virtudes, os defeitos, à luz doutros 40 anos se analisam, pensado-os, medindo-os na distância permitida, temos de afirmar e admitir que ombreou com os grandes da história. 


«Devo à Providência a graça de ser pobre: sem bens que valham, por muito pouco estou preso à roda da fortuna, nem falta me fizeram nunca lugares rendosos, riquezas, ostentações. E para ganhar, na modéstia a que me habituei e em que posso viver, o pão de cada dia não tenho de enredar-me na trama dos negócios ou em comprometedoras solidariedades. Sou um homem independente. 
Nunca tive os olhos postos em clientelas políticas nem procurei formar partido que me apoiasse mas em paga do seu apoio me definisse a orientação e os limites da acção governativa. Nunca lisonjeei os homens ou as massas, diante de quem tantos se curvam no Mundo de hoje, em subserviências que são uma hipocrisia ou uma abjecção. Se lhes defendo tenazmente os interesses, se me ocupo das reivindicações dos humildes, é pelo mérito próprio e imposição da minha consciência de governante, não por ligações partidárias ou compromissos eleitorais que me estorvem. Sou, tanto quanto se pode ser, um homem livre. 
Jamais empreguei o insulto ou a agressão de modo que homens dignos se considerassem impossibilitados de colaborar. No exame dos tristes períodos que nos antecederam esforcei-me sempre por demonstrar como de pouco valiam as qualidades dos homens contra a força implacável dos erros que se viam obrigados a servir. E não é minha culpa se, passados vinte anos de uma experiência luminosa, eles próprios continuam a apresentar-se como inteiramente responsáveis do anterior descalabro, visto teimarem em proclamar a bondade dos princípios e a sua correcta aplicação à Nação Portuguesa. Fui humano.
Penso ter ganho, graças a um trabalho sério, os meus graus académicos e o direito a desempenhar as minhas funções universitárias. Obrigado a perder o contacto com as ciências que cultivava, mas não com os métodos de trabalho, posso dizer que as reencontrei sob o ângulo da sua aplicação prática; e folheando menos os livros, esforcei-me em anos de estudo, de meditação, de acção intensa, por compreender melhor os homens e a vida. Pude esclarecer-me.
Não tenho ambições, não desejo subir mais alto e entendo que no momento oportuno deve outrem vir ocupar o meu lugar, para oferecer ao serviço da Nação maior capacidade de trabalho, rasgar novos horizontes e experimentar novas ideias ou métodos. Não posso envaidecer-me, pois que não realizei tudo o que desejava; mas realizei o suficiente para não poder dizer que falhei na minha missão. Não sinto por isso a amargura dos que merecida ou imerecidamente não viram coroados os seus esforços e maldizem dos homens e da sorte. Nem sequer me lembro de Ter recebido ofensas que em desagravo me induzam a ser menos justo ou imparcial. Pelo contrário, neste país, onde tão ligeiramente se apreciam e depreciam os homens públicos, gozo do raro privilégio do respeito geral. Pude servir. »

Salazar

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Este Maurras I




O pensamento maurrasiano nas suas vicissitudes e vícios, nos seus erros e corolários, vítima do século XIX por casado com o positivismo comteano (que aliás o afasta do Integralismo Lusitano), oferece, todavia, o grau mais elevado de raciocínio à ilharga de um pensamento edificado na sólida formação dos princípios. O "Sumo-Sacerdote da «Action Française»", como chamava Rodrigo Emílio, configura a resistência da inteligência contra o arbitrário jugo da modernidade e do monstro despertado pela revolução. Mas aí reside também a latente contradictio de Maurras: o agnóstico que assume o primado da fé católica; o reaccionário e tradicionalista na iminência do positivismo de Comte e do nacionalismo;  o anti-romântico cultivador da mais pura e sensível poesia, face ao agitador caústico cuja tez majestática desvela a inteligência pura do credo. O ideólogo que ergue o sustentáculo espiritual da pátria. Também a alma sensível conjuntamente à ferocidade do político.
Agnóstico, o excomungado, o católico convertido? Esse ser de complexidades e efervescências, o  mesmo autor de ‘La Démocratie Religieuse’ na exaltação da ordem católica onde profere: “Rien au monde n’est comparable à ce corps de prin­cipes”. Renascido duma crise espiritual (como sinto a proximidade àquele nosso António Sardinha, a Alfredo Pimenta, ou àquele trágico Homem Cristo Filho - impossível não invocar os eternos nomes) constatada na carta ao abade Penon: "Ma métaphysique intérieure aboutit au pessimisme noir et gris teinté de vagues roses par l'art libérateur" e como recorda, na intransponibilidade do génio, um mesmo Sardinha, quando desperto duma crise de alma, referindo-se ao século que "lhe queimara as asas de fé". 
Latitude de inteligência providenciada pela recta e profunda reflexão:  rejeita a revolução francesa, mas adere ao nacionalismo, grandemente pela mão de Maurice Barrés. As gerações que vibram entre a Comuna de Paris e o caso Dreyfus sentem o apanágio do idealismo na confluência dos ideais supremos -  a tradição organicista e antiliberal e o nacionalismo, nesse prisma onde os teóricos do Antigo Regime se cruzavam com a tradição republicana nacionalista e militarista. Eis onde Maurras consolida o seu pensamento. Lança-se numa carreira de polemista percepcionada nas criticas à irracionalidade do romantismo, tão irrisório num talentoso poeta romântico, ecce homo que na decadência dos tempos (como sempre ocorre nas crises fini seculares, crises de valor e de espírito) vive apaixonado pela cultura greco-latina, despertada pela viagem à Grécia, e como confessa sincero na carta ao Presidente Salazar (o seu mais bem sucedido discípulo e quiçá rara providência em que o discípulo alcança o mestre pela audácia). 
No panorama europeu atacado pela doença do liberalismo constrói um sistema. Politique d’abord, diria o Mestre do nacionalismo integral, no diagnóstico pessimista face à decadência francesa. Na hostilidade à república parlamentar e democrática clama contra os “inimigos do interior” e, na dedução lógica, parecia-lhe certa a solução: restituir a Realeza à pátria ameaçada. Maurras invoca os “40 reis que construíram a França em mil anos”, vociferando o verbo frontal com que fala à mocidade, determinando os princípios edificadores da "pátria eterna". Lança o mote da Monarquia orgânica, descentralizada, tradicional e anti-parlamentar, tratamento não baseado na metapolítica, mas alcançado de forma dedutiva e racional. Na percepção histórico-política amordaça-o a decadência apenas superada pela monarquia verdadeiramente restituidora da razão de Estado francesa. 
Um mesmo fervoroso federalista monárquico, saudoso da monarquia caída em 1789 - a qual garantira mais liberdades às províncias e comunas (defende). Reencontra-se na descentralização administrativa cujo argumentário racionalmente consistente é lançado no texto “Les idées de descentralisation” (1898). 
Na aforística provocação que cultivava, na sedução da inteligência, não está distante de de Maistre e não será tão provocador afastá-lo de Burke. O doutrinador da Action Française escreve na defesa da “França eterna”, nessa perspectiva de fundo Barrés encontra apoio, distanciando-se na questão monárquica que um mesmo Rebatet ignoraria por vê-la infrutífera, antes o nacionalismo auspicioso na restituição à França da sua grandeza. 
Dirá pois: «É preciso, é imperioso, é vital que a fragilidade humana seja socorrida e ampla, largamente compensada pela fortaleza das instituições»

sábado, 25 de abril de 2015

25 de Abril




A 25 de Abril de 1828 o senado de Lisboa proclamou rei D. Miguel e, na representação, assumiu a Real Dignidade. A esta representação respondeu D. Miguel que nada faria sem o assentimento das cortes da nação, e passou a convocar os antigos Três Estados. 

Escreveu Oliveira Martins: “Tudo assinava, tudo assinou. Assinaram homens e mulheres, frades e galegos, mendigos e prostitutas, as mães pelos filhos que traziam ao colo e que os energúmenos baptisavam com os laços realistas que lhes pregavam ao peito.”

sexta-feira, 17 de abril de 2015

O monárquico anarquista




Parece um oxímoro falar num "monárquico anarquista", mas João Camossa personificava bem o paradoxo, talvez por admirá-lo na indiferença para com a mundanidade, com aquelas barbas que bem podiam lembrar um Kropoktin ou um Bakunine. O anarca de Camossa tem liminar aproximação àquela ideia de Junger que gosta "da anarquia, mas não dos anarquistas", o  anarca é, de forma profunda, um solitário, como aqueles nomes primeiramente citados, dois príncipes russos que personificam o carácter aristocrático do anarca revoltado contra o mesmo mundo. Não lhe faltavam os costados da resistência, o pai capitão da marinha, fora um dos resistentes ao 5 de Outubro, interessa lembrar, para quem continua a suportar a ideia de que a monarquia caiu sem oposição, ainda houve um capitão-mar-e-guerra Augusto Saldanha (pai de João Camossa), ao lado de um Paiva Couceiro, aquela estripe guerreira que de forma romântica podemos associar aos leais soldados na estribeira do seu rei. Era, como todos os idealistas, um "rebelde contra os pressupostos prevalecentes" e um radical, como escrevia um outro monárquico chamado Kunnelth von Leddihn, também resistente contra todas as tiranias e crítico à loucura da modernidade. 

A ideia do rebelde não se esgota na sua finalidade primária de se apresentar apenas contra as regras do jogo convencional, ele deliberadamente enfrenta esse "totalitarismo democrático", na máxima jungeriana da luta contra a modernidade despida de alma, que absorve o individuo e o escraviza. É o rebelde que recusa eliminar a sua individualidade nas multidões, um sentimento aristocrático que o devolve à primazia da solidão. O anarca Camossa tem essa similitude com Junger, é o soldado desmobilizado e que novamente retoma à escrita, ou o trabalhador que se volta para a vida espiritual, mais um espadachim do que um bombista.  

Entendo quando convicto se denominava um"monárquico anarco-comunalista",  ou um "anarco-miguelista", não pretendendo com isto fabricar conceitos políticos ou entrar em derivas ideológicas, tinha a sua percepção do mundo e dos homens, da história e da política, não tinha ilusões, distópico e fundamentalmente crítico, na esteira de se isolar numa sociedade cada vez mais igualitária no sentido capitalista, em que o consumismo e as modas ceifam as inteligências, então a coragem de ser diferente apenas interessa aos corajosos, por originais e intransigentes na sua vontade de se assumirem como homens livres, como Camossa sempre foi.  

Podia ter tido vida fácil, não fosse um gastador, ou uma alma generosa, irresponsabilidade económica que o arrastou para a miséria, teve inclusive de vender a biblioteca herdada para poder sobreviver. Aristocrata por temperamento, anarca por condição, monárquico por convicção, caminhava em sentido contrário a quaisquer movimentos, regimes, grupos, tudo o que inculcasse cartilhas, ideologias, partidarismos. Mas sabia estabelecer alianças e, no miasma em que convergiam as inteligências, sabia dar a voz à luta. Algumas histórias ficaram para marcar o mito. Em Camossa, da sua eloquência, da sua personalidade, é difícil distinguir os factos da lenda. Sabe-se que durante o exercício da profissão (ele era advogado), e em plena barra do Tribunal Plenário de Lisboa, passou, em circunstâncias insólitas, de advogado a réu. Ora, para tal, tinha de despir a toga. Ameaçou o juiz de que estava nu por debaixo da toga. Se verdade ou não, tal não posso, na falta de mais dados, confirmar. Mas demonstra muito de um homem pouco convencional, conflituoso e de coragem determinante. Quando ser monárquico podia possibilitar uma entrada na Assembleia Nacional, tal nunca o seduziu. Nem monárquicos como Hipólito Raposo e Luís de Almeida Braga regozijaram com qualquer regime, o sentido da resistência era o mesmo. Preferiu o perigo, entre desilusões e fracassos, contra o ministerialismo do poder centralizador e contra outros despotismos que bem se podiam justificar entre ideologias e com os "amanhãs que cantam". 

Não estava para sectarismos, nem se reclinava perante a banalidade dos grupúsculos, exemplo desse carácter incoformista revelou-se quando recusou falar ao Diário Popular na cervejaria Trindade, alegando: "Que diriam os meus inimigos se me vissem retratado com um fundo de alegorias maçónicas?" - era esta a sua postura. 

Por um lado o anarca, o desregrado, o rebelde, por outro o activista, o político, o militante. Um homem de paradoxos e de complexidade marcante. Participou na revolta da Sé (1961) e no Golpe de Beja (1961), se se opôs ao Estado Novo também se oporia àquela transformação violenta orquestrada pelo Partido Comunista e tão pouco simpatizava com qualquer outro extremo à esquerda. Foi co-fundador da «Convergência Monárquica» e em 1974 funda o Partido Popular Monárquico, ao lado de Barrilaro Ruas, Rolão Preto e Ribeiro Telles. Figuras igualmente paradoxais, como Rolão Preto, o aventureiro quase quixotesco dos camisas-azuis, o mais jovem da primeira geração do Integralismo Lusitano, depois o velho e honrado idealista que vivera o frenesim do século XX entre a loucura das ideologias e a aventura da guerra, nacional-sindicalista que concebia o rei com os sovietes. Estes eram os homens capazes de brandir o seu credo com a força demolidora do verbo.

Camossa invocava uma corrente libertária para quem o rei devia ser o último vestígio do Estado. Podia também aliar-se a outro anarca-monárquico, o Salvador Dali, ou a um Tolkien, cujo pensamento não divergiria muito. Ou ainda, um pouco mais velho mas ainda assim conhecido, um homem livre como Afonso Lopes Vieira, e ainda, próximo e contemporâneo, um Agostinho da Silva, no reencontro entre um neo-republicanismo místico e uma concepção anarco-comunalista reivindicada por uma facção do Partido Popular Monárquico, ideias compreendidas da influência de Herzen e do federalismo municipalista que apaixonara, nos primórdios da contestação oitocentista, uma primeira geração de republicanos. Subsumiam-se as ideias de uma monarquia pré-absolutista, idealizada na sua formulação popular e democrática, porque o que é verdadeiramente tradicional é inventar o futuro (diria mestre Agostinho da Silva). 

A quem teima em colocar estereótipos sobre os monárquicos (e talvez eles sejam os principais responsáveis por essa imagem) Camossa permanece como uma figura fugida ao desinteresse deste mundo de banalidades e etiquetas. Não deixou uma obra escrita, um pensamento que possamos delimitar, ele próprio teria detestado um qualquer séquito de discípulos, mas deixou o Centro Nacional de Cultura, do qual foi um dos fundadores, deixou na memória uma luta inabalável em nome da instituição que compreendia melhor representar Portugal, para todos os efeitos a monarquia era a alternativa possível e nunca concretizada. 

Fica aqui a homenagem a um homem singular e grande. Um homem verdadeiramente livre que podia ter proferido aquelas mesmas palavras de Ernst Junger: "para se chegar a ser livre, há que ser livre, pois a liberdade é existência". 

terça-feira, 14 de abril de 2015

A origem do poder - confusões e medos




Voltei ao centro do furacão, cerceado pelos suspiros do demo-liberalismo republicano e pela indefectíveis considerações ao não-assunto que tanto aflige a burguesia de esquerda, o facto de existir um regime que consagre um poder hereditário e vitalício. Mas até aqui compreendemos o porquê da indigitação ao mais breve ódio e à razia de mentes perturbadas. É certo que um povo não escolhe as suas instituições por sua vontade, tal como ninguém escolhe a família onde nasce, ou as suas capacidades intelectuais, ou atributos físicos. Tal como ocorre na natureza, na sorte, ou de acordo com as circunstâncias, assim também um povo não pode escolher as suas instituições apenas pela sua vontade. Por muito que uns preferissem a sociedade mais socialista, outros mais liberal, outros a abolição do Estado, outros o Estado forte. Uns ainda prefeririam monarquia outros a república entendendo a primeira como o Chefe de Estado limitado e vitalício, decorativo talvez para ocasiões formais, cerceado por um parlamento e por claques; outros, seguindo um mesmo princípio, prefeririam o Chefe de Estado temporário cujo poder fosse delegado pela maioria. Ambas são repúblicas antitéticas do verdadeiro sentido do que é o bem comum e do sentido do justo. Deixam à maioria a opção de escolher, baptizando esse cidadão absoluto divinizado e desenraizado do sentido comunitário (a perfeição do liberal-comunismo). Do rei absoluto entramos na era do cidadão absoluto e da absolutização desse egoísmo individualista. E mesmo o Chefe de Estado a quem chamam Rei ver-se-á limitado por uma multidão de predadores que decidirão o que pode ou não o “soberano” decidir e de que modo deve actuar. Enquanto ao parlamento é deixado o poder delegado de tudo poder legislar, mesmo contra as próprias instituições (decidir o regimen); a vida e a morte (o aborto, a eutanásia); as relações humanas (ver o casamento homossexual). Podia o Estado todo poderoso abolir a propriedade privada, ou aniquilar a família. Como escrevia Kunneth von Leddihn se Luís XIV ressuscitasse e visse o poder que o Congresso dos Estados Unidos tem para aprovar leis morreria de inveja. O mesmo se podia dizer de qualquer parlamento hodierno.

Se dizemos que apenas somos livres porque o rei é livre (como apelavam no grito de Almacave) que liberdade garantirá um rei diminuído na sua essência, e como podemos num regimen construir a base em que se fundamente o poder? A monarquia caída em 1789 já pouco guardava das concepções da monarquia absoluta de Bossuet, como fora apanágio de outras eras, quando a fé católica parecia inseparável da monarquia e fundamentava a sua essência. Mas é preciso compreender a diferença tética entre o absolutismo monárquico e o absolutismo do estado, e nele encontrar a explicação ao nascimento do Estado moderno centralizador e burocrático. Quando a França chega ao reinado de Luís XVI, da referência ao “poder divino dos reis” já pouco subsistia. Turgot quase nada consagra a esse respeito. O respeito pela lei divina, as regras da justiça natural e as leis fundamentais do reino, numa tríade que constituía, segundo Loyseau, o limite ao poder do soberano, são depressa esquecidas na iminência da modernidade. Porque o poder absoluto não significava poder ilimitado, nem era sinónimo de poder despótico: a tirania era uma sua consequência, na esteira de Aristóteles que analisava a degeneração da monarquia na tirania, assim como a aristocracia podia degenerar na oligarquia, e a democracia degenerava na demagogia. O absolutismo vem com a modernidade, com o Estado centralizador, grandemente saído da pena de Maquiavel ou de Lutero. Assim, uma vez separada a Igreja e a ideia do príncipe cristão (Bodin) está aberto um vazio que rapidamente será preenchido pelo Estado. A Revolução Francesa e as Revoluções liberais foram apenas uma sua consequência. A conclusão? Para uns seria o Estado ético, para outros o não-Estado. Para uns uma entidade controladora como se se tratasse do próprio Deus no mundo (Hegel); para outros uma entidade a abater (Proudhon, Bakunini). Ou quererão a abolição das fronteiras e o aniquilamento das nações para construir aquela Babel indefensável governada por burocratas e banqueiros e que mais parece uma união de repúblicas soviéticas da Europa? Qual será a escolha do pensamento republicano demo-liberal na procura pelos imortais princípios? 

domingo, 12 de abril de 2015

O fantasma da guerra civil


Exército negro da Confederação


A 12 de Abril de 1861 rebentava a guerra da secessão, um fantasma que continua a pairar sobre os Estados Unidos - nações divididas pela guerra civil dificilmente superam a gangrena moral que as divide. O problema simplificou-se num paradoxo que vê ainda na contenda a divisão entre o Norte industrializado anti-esclavagista e o Sul tradicional e esclavagista que não queria abdicar do seu status quo. O que seria banalizar a essência da questão que originou a mais sangrenta das guerras, tão ignorada (infelizmente) na Europa da época, sem que alguém compreendesse como este conflito prefigurava de certa forma a "modernidade" (antecipava o século XX). Numa jovem nação ainda escassamente povoada , com cerca de 32 milhões de habitantes, custaria a vida a 620 mil almas, muito superior a qualquer outra guerra travado pelos EUA, incluindo a Segunda Grande Guerra.

A busílis da questão era de teor constitucional, um princípio forjado pelos "founding fathers", nos termos do qual tudo aquilo que não for competência expressa da União cabe aos Estados decidir (ideia que se pode extrair da X Emenda). Os EUA resultam de um acordo entre os Estados que abdicavam de uma parcela da sua soberania para a depositar nas mãos do governo federal: legalmente os estados podiam separar-se da União à qual tinham aderido de livre e espontânea vontade. Ademais, os estados de Virginia, New York e Rhode Island, ao assinarem a Constituição tinham incluído uma cláusula que lhes permitiria separarem-se da União no caso de o novo governo se tornar "opressor".

O que verdadeiramente estava a ser discutido não era a preservação da escravatura, mas o direito constitucional à secessão. O argumento da escravatura foi bandeira imediatamente erigida no pós-guerra na diabolização do sul, cuja economia se baseava essencialmente na agricultura e na exportação de algodão, exigindo para tanto baixas tarifas alfandegárias, entrando em conflito com os interesses do norte, mais voltado para uma incipiente produção industrial, determinado em proteger seus mercados internos. Lincoln viu-se então envolvido numa guerra, não para libertar os escravos (como romanticamente o ingénuo leitor podia supor) mas para preservar a união. Lembro-me de uma observação de Eça de Queiroz no livro "O Conde de Abranhos": "Na Rússia autocrática, a vontade de um só Homem, do Czar, realiza com uma palavra o que a América do Norte só pode conseguir despendendo milhares de milhões e regando o solo de sangue..."





I wish I was in the land of cotton,
Old times dar am not forgotten,
Look away! Look away! Look away! Dixie Land.
In Dixie Land whar' I was born in,
Early on one frosty mornin',
Look away! Look away! Look away! Dixie Land.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

"L'univers esthétique des Européens"


Face à la radicalisation de l'Islam
Face au déracinement
Face au règne de la marchandise
Face à la laideur institutionnalisée
Insoumission!
Réaffirmons nos valeurs!
L'Univers esthétique des européens



René Marchand: « les grandes civilisations ne sont pas des régions sur une planète, mais des planètes différentes ». Car pour Dominique Venner, « elles sont faites de valeurs spirituelles qui structurent les comportements et nourrissent les représentations » (entretien avec Laure d’Estrée, 01/09/2011).

Alain de Benoist (« L’art européen, un art de la représentation »), Slobodan Despot (« L’art européen et le sentiment de la Nature »), Christopher Gérard (« La beauté et le sacré »), Jean-François Gautier (« La polyphonie du monde »), Javier Portella (« La dissidence par la beauté ») et des présentations de hauts lieux européens (Duarte Branquinho, Adiano Scianca, Philip Stein, Marie Monvoisin). O colóquio terá lugar na Maison de la Chimie (28 Rue Saint Dominique, 75007 Paris), a partir das 14 horas.




terça-feira, 7 de abril de 2015

Equívocos da razão



"Mentiras Convencionais" foi escrito por um médico húngaro nos finais do século XIX, de seu nome Max Nordad. Um livro cheio de corolários positivistas, o que andou a alimentar a boca dos republicanos aqui do burgo, basta dizer que o dito senhor era amigo de Teófilo Braga com o qual se correspondia. De resto, a obra transpira os equívocos e as redundâncias positivistas, o pathos científico que se apoderou das inteligências conduzindo-as às loucas interpretações estético-filosóficas que marcaram aquele século de equívocos. Na obra soa arrebate os ataques à Igreja, à monarquia, à aristocracia - como não podia deixar de ser! mas tem alguma audacidade que talvez não tenha sido compreendida pelo estrábico positivista que conspirava na sombra da carbonária. 

Ora leia-se como ponderava um republicano positivista quanto à divergência de regimes: "Se instruo o processo da monarchia, não é para condemna-la em proveito da republica. Estou até muito longe de ter pela republica esse ingenuo enthusiasmo dum tão espalhado liberalismo que se deixa seduzir pelo som duma palavra, sem procurar determinar-lhe o sentido. Para muitos liberaes, a republica é o primeiro alvo que deve attingir-se; para mim, é o último. Se a republica tem de ser um progreesso e uma verdade, importa necessariamente uma serie completa de instituições sociaes, economicas e politicas, absolutamente differentes das instituições que estão em vigor."


domingo, 5 de abril de 2015

Quando Berlioz ressuscitou....



Berlioz compôs a "Resurrexit", parte central da "Messe Solennelle", aos vinte anos - desconsiderada pelo criador, alegadamente destruída, reencontrada mais de cem anos depois (foi inicialmente composta em 1824). Teve assim algumas vicissitudes. Acontece que Berlioz afirmou sempre que tinha destruído toda a sinfonia, poupando apenas a "Resurrexit", que estreou em 1825. Porém, em 1991, um professor Belga descobriu toda a restante obra escondida num órgão, na Antuérpia. Malhas que o destino tece. O mundo voltou a ouvir Berlioz. "Ressurrexit" revela um adolescente sensível, um romântico, é talvez a mais profunda idealização da ressurreição. Ressurreição de Cristo, da "Missa" de Berlioz, uma arte ressurrecta, que sobreviveu "ao tempo, ao ferro e ao fogo".


FELIZ PÁSCOA