sábado, 7 de março de 2015

Legitimismo e resistência antiliberal




"No legitimismo político articulavam-se o espírito contra-revolucionário e o tradicionalismo. Defendia-se nele a unidade do poder político que, detendo a suprema capacidade arbitral, garantia o equilíbrio e a coesão dos corpos sociais. Persistia uma concepção social de corpo, em contraposição a uma outra fundada na cidadania; isto é, a percepção do poder político e de sociedade por parte dos legitimistas opunha-se ao conceito e à prática da soberania nacional, que se exercia através de pessoas e grupos políticos sancionados pelas mediações eleitorais. Tratava-se, pois, de uma posição distanciada do sistema representativo, não por um simples retorno ao passado, mas pela alegação de uma outra percepção sobre a liberdade e sobre a função da chefia do Estado.

 A derrota miguelista e o exílio de D.Miguel tinham originado uma referência, com traços messiânicos, de resistência antiliberal quer no respeitante aos aspectos políticos mais institucionais, quer naqueles traços mais quotidianos das medidas governamentais sobre determinadas matérias. A esta atmosfera antiliberal juntara-se também o problema da obediência eclesiástica que, no contexto do «cisma religioso», provocara níveis importantes de reacção e resistência popular, onde a dimensão política se conjugava com a formulação da vivência religiosa local, questionadora da legalidade e da legitimidade constitucional e concordatária da Igreja Católica." 

in, António Matos Ferreira, 'Um Católico Militante Diante da Crise Nacional - Manuel Isaías Abúndio da Silva (1874-1914)', editado por Centro de Estudos de História Religiosa, Universidade Católica Portuguesa. 

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