domingo, 29 de março de 2015

Velhos ódios ou a mentira da "Geração de 70"




Leio Jesus Pábon, “A Revolução Portuguesa” (1957) e descubro justificações ao nosso descontentamento e ao tão característico desencanto face à nossa história passada. A historiografia desde a “Geração de 70” ao Ultimatum Britânico, assombraram o passado português com as mais obscuras memórias.

- Antero legou-nos o seu credo inspirado na rebeldia contra a organização do seu tempo e o optimismo na construção de um futuro de santidade, a loucura utópica levá-lo-ia ao suicídio.

- Teófilo Braga, imobilizado no seu positivismo de cátedra desdenhava da instituição monárquica. Obcecavam-no as teorias do cientismo e do racionalismo que o impediam de ver além das páginas dos manuais, era bom a desordenar as ideias dos outros (de Comte apenas entendeu o que de pior havia). Movia-o a fé inabalável no positivismo, a negação de toda a metafísica em nome do culto da Humanidade (entrava em rota de colisão com os seus próprios argumentos). A sua atitude desesperante fazia-o alucinar em desvairos nos quais a mulher amada voltava do além-túmulo à sua presença.

- Oliveira Martins analisou a história de Portugal imbuído num profuso“pessimismo critico” (Jesus Pábon), reconhecendo apenas indivíduos imorais, juízes corrompidos, aristocratas apodrecidos, sacerdotes de vocação duvidosa e a decadência dos reis a quem apontava loucuras, defeitos e vícios. Para este historiador o “passado é sombrio". Estes elementos reuni-os na força dramática do seu verso, a sua "História de Portugal" e o seu "Portugal Contemporâneo" têm de ser lidos como obras de ficção, faltava a Oliveira Martins a formação científica, era, em suma, um autodidacta com ensejos de artista.

Para estas gerações a fé era um mal e a história uma vergonha. Entendo o porquê do Rei D. Carlos suspirar na sua angústia (como recordou Fialho de Almeida): "Isto é uma monarquia sem monárquicos".

Desta historiografia, desta intelectualidade abusiva, ainda não nos livrámos, e muitos dos preconceitos hoje criados em torno da instituição Real a ela se devem. Do positivismo serôdio na sua fé inabalável para idolatrar a dita "Humanidade", aos recalcamentos sociais e às angústias políticas, o fastidioso verbo que faz degenerar a razão para a antecâmara da loucura regicida, o desencanto face ao passado e as representações manipuladas no sentido de reforçar os ódios aos poderes e às instituições, tudo isso foi mastigado, deglutido e vomitado por gerações e gerações, hoje resta ponderar no meio-termo entre a verdade dos factos e a facciosa representação dos mitos, ignorar a velha propaganda jacobina e ler a verdade na distância da história.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Abdullah II no Parlamento Europeu ou a relevância da monarquia no século XXI




Em boa hora o meu amigo Luís Russo Pistola chamou a atenção para este discurso do rei Abdullah II da Jordânia no Parlamento Europeu. A relevância das palavras do monarca vem revelar a distância entre o rei e estadista e a abstracção do parlamento enviesado de ideias e absorto na sua inocuidade, sem compreender realmente a significância do discurso de Abdullah II. Homem culto, tolerante, verdadeiro humanista, muçulmano de fé profunda e critico do terrorismo e das perseguições aos cristãos. 


O rei é um líder, é um soldado, é um guerreiro que não teme pegar em armas contra aquele fanatismo descontrolado que vem dominando grande parte do Médio Oriente. Como comandante das Forças Armadas surge como líder respeitado pela sua coragem mas também determinante pelas suas campanhas diplomáticas, não é o rei-faz-de-conta a imitar encenações, a sua palavra, a sua atitude, as suas decisões, revelam o carácter de um povo, fazem história, é, ao mesmo tempo o militar, o político, o diplomata, a voz do consenso, a voz da unidade. 

A saciedade alimentada a ódios e recalcamentos, condenada a este servilismo, não compreende, ignora, ou vê-se agrilhoada a esta partidocracia sem rumo... Os burocratas e tecnocratas desta dita "União Europeia" que aprendam alguma coisa.



Rei da Jordânia Abdullah II pronto para a batalha,
que distância abismal para com a nossa pequena Europa
de burocratas e tecnocratas enfiados nos gabinetes e
desligados do próprio povo que dizem representar.  

sábado, 7 de março de 2015

Legitimismo e resistência antiliberal




"No legitimismo político articulavam-se o espírito contra-revolucionário e o tradicionalismo. Defendia-se nele a unidade do poder político que, detendo a suprema capacidade arbitral, garantia o equilíbrio e a coesão dos corpos sociais. Persistia uma concepção social de corpo, em contraposição a uma outra fundada na cidadania; isto é, a percepção do poder político e de sociedade por parte dos legitimistas opunha-se ao conceito e à prática da soberania nacional, que se exercia através de pessoas e grupos políticos sancionados pelas mediações eleitorais. Tratava-se, pois, de uma posição distanciada do sistema representativo, não por um simples retorno ao passado, mas pela alegação de uma outra percepção sobre a liberdade e sobre a função da chefia do Estado.

 A derrota miguelista e o exílio de D.Miguel tinham originado uma referência, com traços messiânicos, de resistência antiliberal quer no respeitante aos aspectos políticos mais institucionais, quer naqueles traços mais quotidianos das medidas governamentais sobre determinadas matérias. A esta atmosfera antiliberal juntara-se também o problema da obediência eclesiástica que, no contexto do «cisma religioso», provocara níveis importantes de reacção e resistência popular, onde a dimensão política se conjugava com a formulação da vivência religiosa local, questionadora da legalidade e da legitimidade constitucional e concordatária da Igreja Católica." 

in, António Matos Ferreira, 'Um Católico Militante Diante da Crise Nacional - Manuel Isaías Abúndio da Silva (1874-1914)', editado por Centro de Estudos de História Religiosa, Universidade Católica Portuguesa. 

quinta-feira, 5 de março de 2015

Oliveira Martins sobre a decadência nacional


Caricatura de Oliveira Martins, por Rafael Bordalo Pinheiro


 "A consequência mais profunda da revolução liberal foi a ruptura da tradição, o acabamento definitivo do sebastianismo: exprimindo por esta palavra simbólica todo o corpo de ideias, ambições e costumes históricos. Substituiu-se-lhe, porém, a consciência de uma nova pátria moral? Acordou-se o sentimento de um verdadeiro individualismo, fundado na religião democrática? A personalidade tornou-se forte e consciente dos seus direitos? A inteligência apurou-se? Cresceu o saber? Pôde, com estes elementos, constituir-se o corpo homogéneo de uma nação real e viva?

Afigura-se-nos que não; e oxalá isto seja apenas a ilusão de um espírito triste. A vazia agitação política, resultado necessário dos regimes parlamentares, parece condenar os pequenos países a uma esterilidade intelectual, porque absorve todas as capacidades desde que desabrocham. (...) Vê-se, pois, uma educação aparentemente mais extensa, mas de facto sem intensidade, nem vigor, condenada a uma decadência fatal.

(...)

"Daí vem o caso, talvez único na Europa, de um povo que não só desconhece o patriotismo, que não só ignora o sentimento espontâneo de respeito e amor pelas suas tradições, pelas suas instituições, pelos seus homens superiores, que não só vive de copiar, literária e politicamente a França, de um modo servil e indiscreto; que não só possui uma alma social, mas se compraz em escarnecer de si próprio, com os nomes mais ridículos e o desdém mais burlesco. Quando uma nação se condena pela boca de seus próprios filhos, é difícil, senão impossível, descortinar o futuro de quem perdeu por tal forma a consciência da dignidade colectiva".

in, Oliveira Martins, "História de Portugal", Guimarães Editores 1964.