quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Rodrigo Emílio, Presente!


Fotografia de Artur Nunes da Silva
(Casa de Rodrigo Emílio em Parada de Gonta)


Há homens cujo destino parece traçado desde o primeiro dia, fadados tanto para a glória como para a tragédia, Rodrigo Emílio prevalece nesse grupo.

A ascendência legara-lhe a excelência das letras, não fosse ele filho do poeta e crítico Rodrigo de Mello e bisneto do poeta Tomás Ribeiro, além de trazer na alma toda a vasta tradição portuguesa desde Camões a Camilo. Aquele vigor que lembrava a gesta medieval, a irreverência bocagiana, a cultura de um Portugal maior que se perdeu para sempre.

Pertencia a essa casta de homens que aliam o talento à audácia, a inteligência à coragem, por isso sofreu o isolamento dos contemporâneos, por isso escolheu o exílio a viver exilado na própria pátria. Homem frontal, sem papas na língua, de verbo acutilante, de palavra versátil. A cultura portuguesa deve-lhe muito e, contudo, de forma criminosa dele se esquece.

Sofreu as vicissitudes políticas sem se deixar abater, quando não ser de esquerda provocava iras aos democratas da revolução, aqueles do "quem não está connosco está contra nós".

Rodrigo Emílio prevalece ao lado de um Céline, de um Brasillach, de um Rebatet, de um Ezra Pound, homens de carácter incorruptível, que mesmo face à derrocada prevaleceram incólumes e íntegros. Ele foi ,na verdadeira acepção, o poeta soldado.

De Rodrigo Emílio recordo um episódio contado por Rui Teodósio, em "Rodrigo Emílio: Presente!", quando o poeta estava a ser julgado num processo político:

"Nunca mais me irei esquecer de muitas das suas palavras perante os juízes, mas há uma frase que de tempos a tempos me assalta o pensamento; foi a sua resposta à pergunta dos juízes:
- "Sr. Rodrigo Emílio, como caracteriza a Democracia?"
- " Sr. Dr. juiz, para mim, a Democracia é uma linha recta."
O Juiz intrigado pela sua resposta perguntou:
- "Uma linha recta, Sr. Rodrigo?"
A sua resposta foi pronta incisiva e cheia de vigor:
"Sim, Sr Dr. Juiz, uma linha recta, não tem principio, não tem fim e não tem ponta por onde se lhe pegue"

Rodrigo Emílio, Presente! (sempre)

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Viva a República! Viva o Rei! - O Pensamento de Agostinho da Silva

«Vai ter de se abrir a hora de Portugal se cumprir inteiro, de ser o duplo cavaleiro do místico e do real.»

«O regime de que o mundo precisa para sair do atoleiro em que está metido é realmente o da Monarquia Portuguesa anterior a D. João I (este já bastante infectado de Europa) (...) Acima disso, o município, clara e inteiramente "republicano". Como "coordenador geral" e "inspirador" o Rei (...)»

«Monárquico, eu posso dizer a palavra de duas maneiras. Monárquico é a monarquia da bandeira azul e branca, a coroa na cabeça do rei, etc. Mas se eu disser mono arquíco, então a ideia que pode entrar na cabeça das pessoas já é outra. É o regime em que um manda, mas há várias maneiras de mandar. Então a monarquia portuguesa na Idade Média, ao que me parece, era mono árquica, mas quem mandava propriamente não estava mandando, estava coordenando a vontade dos outros.»

Agostinho da Silva


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Quo vadis Delgado?

Da história ficam as pérolas. A notícia que agora corre para gáudio da saciedade e dos politiqueiros à espera de popularidade é notória: "António Costa quer mudar nome do Aeroporto da Portela para "Aeroporto Humberto Delgado", " porque: "foi uma figura notável do país político do século XX" e "contribuiu para manter activa a oposição ao regime" (etc. etc.) - Mas quem foi Humberto Delgado?

Humberto Delgado foi um dos militares do 28 de Maio. Militou nas fileiras da Legião Portuguesa (de que foi dirigente). Foi um dos ultras da direita, como comprova o livro que escreveu "A Pulhice do «Homo Sapiens»". Na obra, recheada de parágrafos violentos, no uso de uma linguagem excessiva, acusando os traidores (os do "reviralho"), Delgado exalta a sua profissão de fé ultradireitista: “O povo soberano pela boca do seu soberaníssimo parlamento cuspia, falava, berrava na grande fábrica de destilação de saliva que era S. Bento”, e, sobre a ditadura, acrescentava ainda a "apreciação da obra da Ditadura, obra que só quem não quer não vê”.

E o que escreve sobre Oliveira Salazar? Pois, demonstra apreço pela obra do Presidente do Conselho: “Basta a obra de Oliveira Salazar que se sente nas mais pequenas cousas, e que pena foi tivesse a crise mundial a contrariá-la, para que merecesse a pena ter-se implantado a Ditadura”.

Cada homem é filho do seu tempo (nesse sentido Delgado não é excepção): seguiu os ventos do nacionalismo dos anos 30; entusiasta do estilo fascista apoiou o Estado Novo e a sua política anti-comunista, até aqui, nada de novo debaixo do sol.

A mudança de posição do general é contada por Jaime Nogueira Pinto em "Portugal os anos do fim", uma mudança motivada por antipatias no seio do próprio regime (mais do que qualquer idealismo anti-salazarista ou o romantismo motivado pela mítica da oposição ao Estado Novo...). Contava-se, na altura, que o Ministro da Defesa, Santos Costa, tinha largas responsabilidades no "caso Delgado", porque vetara a nomeação do general para o cargo de governador-geral de Angola, "depois de ter acalentado a sua vaidade e ambições". A atitude de Santos Costa lança Delgado para os braços da oposição. Salazar nunca perdoou este erro a Santos Costa. Delgado amuara também por outra circunstância, a certo momento fora preterido na chefia do Estado-Maior da Força Aérea a favor do general Costa Macedo (outro revés na vida do general). Acabou por ir para os Estados Unidos como adido militar onde ocupou (antes de se candidatar à eleição em 1958) o cargo de director-geral da Aeronáutica.

O general Delgado tinha os seus motivos para estar zangado (e amuado) com o regime. No final, converteu-se numa figura catalisadora para o descontentamento face ao Estado Novo. As peripécias do "general coca-cola" são já conhecidas, o seu destino preenche páginas que convêm à lenda do homem que um dia sonhou demitir Salazar.


Salazar e Carmona no acampamento da Legião Portuguesa (1937), Humberto Delgado, um dos dirigentes militares da organização, faz a continência (à esq.).




Salazar e dirigentes da Legião Portuguesa (Delgado é o da ponta, à direita) - 1937.





segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Em São Vicente de Fora, a excelente homilia do Rev Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, na celebração comemorativa do Regicídio:




«ÉRADES BOA PARA REI!»

Homilia na Missa de sufrágio por El-Rei D. Carlos I e pelo Príncipe Real
(Lisboa, Mosteiro de São Vicente de Fora, 1-II-2015)

1. Introdução. «Ficaram todos tão admirados que perguntavam uns aos outros: ‘Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade, que até manda os espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!’ E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte, em toda a região da Galileia» (Mc 1, 27-28). Poder-se-ia dizer, sem exagerar, que este espanto perdura, dois mil anos decorridos sobre estes acontecimentos. Se, por um lado, nos continua a maravilhar a doutrina, cheia de autoridade, do divino Mestre, bem como o seu poder, expressão da sua divina omnipotência, também nos espanta esta aguerrida oposição que Lhe é movida, desde então, pelos espíritos impuros que, embora confessando que Jesus de Nazaré é «o Santo de Deus» (Mc 1, 24), contudo a Ele se opõem através dos seres humanos que, por extrema infelicidade, por eles se deixam possuir. 
A história da humanidade se resume neste combate entre o bem e o mal, aquele presente no Senhor do universo e naqueles que O seguem pelos caminhos do mundo, enquanto o mal se manifesta por aqueles espíritos que, excluídos da celestial bem-aventurança por inapelável determinação do Juiz divino, tentam seduzir os homens, afastando-os do caminho da vida eterna, com enganadoras promessas de ilusória felicidade.

2. Aniversário do regicídio. A presente celebração eucarística rememora o regicídio que vitimou Sua Majestade el-Rei D. Carlos I e Sua Alteza Real o Príncipe D. Luís Filipe, no dia 1 de Fevereiro de 1908. É uma antiga tradição e devota praxe da Família Real, em que muitos patriotas, de todas as condições, têm por bem participar. 
É sempre com espanto que se evoca uma tão funesta página da História nacional, porque nela se adivinha, por intermédio da acção dos regicidas, a furiosa intervenção do poder do mal. Só aquele que é «homicida desde o princípio» (Jo 8, 44) pode explicar um acontecimento que, na realidade, parece ultrapassar a mera maldade humana. 
Estariam possessos os assassinos que atentaram cobardemente contra El-Rei D. Carlos e o Príncipe Real? Só Deus o sabe, mas um tão criminoso acto não exclui uma diabólica intervenção, que a cumplicidade dos regicidas fez possível. Esta aziaga hipótese obriga-nos a rezar pelas almas das vítimas inocentes, mas sem esquecer as que o juízo humano considera culpadas. Mesmo nestes casos desesperados, assiste-nos a esperança de que, na derradeira hora, aqueles desgraçados homens tenham acolhido a graça do arrependimento e do perdão, que Deus a todos liberalmente concede na iminência do trânsito para a vida eterna, tal como ocorreu com o bom ladrão (cfr. Lc 23, 39-43). A tanto nos obriga, com efeito, o mandamento novo da nossa santa religião (cfr. Jo 13, 34-35), que ensina a todos perdoar, sem esquecer os inimigos defuntos, cujas almas podem também, eventualmente, lucrar com os nossos sufrágios.
A esta evocação de Sua Majestade, el-Rei D. Carlos, e do Príncipe Real, Dom Luís Filipe, cumpre associar a memória de el-Rei D. Manuel II, bem como a de Sua Majestade a Rainha D. Amélia e os demais membros da Família Real já falecidos. Assim sendo, depois de celebrada esta solene Eucaristia dominical, seguir-se-á uma singela romagem ao panteão da Casa de Bragança, anexo a esta Igreja de São Vicente de Fora.

3. Cumprimentos vários. Cumprimento, em primeiro lugar, Suas Altezas Reais os Senhores Duques de Bragança e restantes membros da Família Real aqui presentes, na sua qualidade de representantes de el-Rei D. Carlos I e do Príncipe Real, bem como de todos os augustos soberanos de Portugal. Na certeza das minhas orações e fidelidade à tradição que tão dignamente representam, faço votos de que sejam sempre fiéis continuadores da arreigada devoção cristã que, desde os primórdios da história nacional, é apanágio da Casa Real portuguesa. 
Nestes tempos de tão intensas mutações sociais, mais necessário é que a Família Real, sobretudo pela exemplaridade da sua vivência cristã, seja um modelo, não apenas para os que se revêem no ideal monárquico, mas para todos os portugueses, quaisquer que sejam as suas tendências políticas ou opções religiosas. A condição de representantes dos Reis de Portugal, que só em Vossas Altezas Reais se realiza, ultrapassa os particularismos ideológicos ou político-partidários, porque se confunde com a identidade da Pátria que, graças a Deus e à Família Real, hoje somos.
Saúdo também, com especial gratidão, o Senhor Presidente da Causa Real, o Senhor Presidente da Real Associação de Lisboa, que muito amavelmente me convidou para presidir a esta celebração, o Senhor Presidente do Instituto da Nobreza Portuguesa, o Senhor Presidente da Associação da Nobreza Histórica de Portugal, o Senhor Presidente da Juventude Monárquica, os dignitários das Ordens dinásticas de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e de Santa Isabel, e ainda os meus muito estimados confrades na Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém e na Soberana Ordem Militar de São João de Jerusalém, também dita de Malta. 
Uma palavra ainda de agradecimento ao Senhor Padre Tiago Ribeiro Pinto, que muito me honra ao concelebrar esta Eucaristia dominical, ao Senhor Reitor de São Vicente de Fora, pela sua fidalga hospitalidade, aos acólitos, leitores, cantores e a todos quantos participam mais activamente nesta Santa Missa. 
Aos restantes fiéis, quaisquer que sejam as suas circunstâncias pessoais, dirijo também uma muito fraternal saudação, com a promessa de uma especial lembrança nas minhas orações. A todos peço a esmola de uma prece para que, na fidelidade a Cristo e à sua Igreja, possa também eu contribuir, ainda que modestamente, para a glória de Deus, o bem das almas e o esplendor de Portugal.

4. A santidade no estado matrimonial. «Irmãos, não queria que andásseis preocupados. Quem não é casado preocupa-se com as coisas do Senhor, com o modo de agradar o Senhor. Mas aquele que se casou preocupa-se com as coisas do mundo, com a maneira de agradar à esposa, e encontra-se dividido» (1 Cor 7, 32-34), advertia São Paulo, no trecho da sua primeira carta aos coríntios, que antecedeu a proclamação do Santo Evangelho. 
Muito embora Saulo de Tarso enalteça a condição dos que, por amor do reino dos céus, permanecem célibes, não seria acertado concluir que os que contraem o santo sacramento do matrimónio ficam excluídos da bem-aventurança. Também entre os fiéis casados muitos há que alcançaram a perfeição da caridade, até de forma mais perfeita do que alguns dos que se consagraram a Deus na virgindade, ou no celibato apostólico. Com efeito, nenhum santo bispo, presbítero, monge ou religiosa, por muito excelsa que tenha sido a sua virtude, se compara com a santidade daquele casal que Deus escolheu para pais terrenos do seu Filho: Nossa Senhora e São José. Por isso, a devoção cristã atribuiu, desde tempos imemoriais, o título de Santíssima à Mãe de Jesus e, a São José, que, por felicíssima decisão do Papa Francisco é agora mencionado expressamente em todas as orações eucarísticas, confiou a guarda da Igreja. 
Em ano de Sínodo sobre a família, a realizar no próximo mês de Outubro, em Roma, estas palavras do apóstolo das gentes ganham uma especial actualidade, porque têm o condão de recordar que todos e cada um dos membros da família cristã devem alcançar, no fiel desempenho das suas funções familiares, profissionais, religiosas e sociais, a santidade a que todos os fiéis, sem excepção, são chamados.

5. Evocação da Rainha Santa. Não são escassos os exemplos de egrégia virtude na gloriosa história da Família Real portuguesa, mas talvez nenhum se compare à nossa Rainha Santa Isabel. É certo que, por nascimento, era infanta aragonesa, mas bem cedo trocou a sua terra pela nossa Pátria, que amou com extraordinária devoção e que serviu de forma exemplar, como excepcional Rainha, extraordinária mulher e admirável mãe. Se são naturais de um reino aqueles que nele nascem, foi em Portugal que a Rainha Santa nasceu para o reino dos Céus, pelo que não será descabido agregá-la à plêiade dos bem-aventurados que aqui nasceram para o mundo e que, por esse motivo, são também nossos compatriotas e especiais intercessores.
Nascida em 1270, a Infanta de Aragão recebeu no baptismo o nome próprio de sua tia-avó, Santa Isabel da Hungria, irmã da Rainha D. Violante, que foi segunda mulher do Rei D. Jaime I, o Conquistador. 
Não se sabe se chegaram ao conhecimento da jovem Infanta Isabel de Aragão relatos da virtude da sua tia santa, mas é pouco provável, porque S. Isabel da Hungria morreu quatro anos antes do casamento de sua irmã com o Rei de Aragão que, por este motivo, também não chegou a conhecer esta sua bem-aventurada cunhada. Contudo, sabe-se que foi para homenagear a sua vida exemplar que a pequena infanta aragonesa recebeu o mesmo nome próprio daquela sua tia-avó santa, a quem também se atribui, com fundamento histórico, o milagre das rosas que, muito mais tarde, será incorporado na memória da Rainha Santa, como se de um milagre de família se tratasse …
Mas a santidade cristã não se herda, recebe-se de Deus como um dom, que depois importa pôr a render, com a ajuda da graça e a correspondência pessoal. Tudo leva a crer que, não obstante a sua normalidade, aquela jovem princesa estava dotada de uma personalidade tão amável que a ela se afeiçoou, muito em particular, seu belicoso avô paterno que, embora cognominado o Conquistador, foi conquistado pela invulgar bondade desta neta. Com efeito, atribui-se à então jovencíssima princesa de Aragão a reconciliação de seu avô paterno com seu pai, na altura o Infante D. Pedro, que viria depois a reinar, sendo o terceiro do seu nome na Casa de Aragão. Nesta sua capacidade de alcançar, com a sua oração e amabilidade, a paz familiar, se prenuncia um rasgo muito próprio da personalidade humana e sobrenatural da futura Rainha Santa.

6. Exemplo de santidade na vida matrimonial. Dona Isabel de Aragão casa, a 11-2-1281, em Barcelona, com El-Rei D. Diniz de Portugal, que para o efeito se fez representar. Só um ano e quatro meses depois, a 24 de Junho de 1282, os noivos se conheceram. Consta que a Infanta Isabel de Aragão era o melhor partido entre as Casas Reais peninsulares e que o filho e sucessor de D. Afonso III de Portugal a melhor aliança para os interesses da coroa aragonesa.
Não terá sido fácil para D. Isabel, mesmo trazendo consigo alguns servidores oriundos da sua terra natal, adaptar-se à nova realidade: não só passava a pertencer a uma nova Família Real, como também se tinha que habituar a uma língua diferente e lidar com o ambiente da corte, tão propício a intrigas e maledicências. Mais difícil terá sido, ainda, a sua vida conjugal com D. Dinis, o rei trovador a que se atribuem muitas aventuras românticas, que não honravam a aliança nupcial. 
Na evidência destas infidelidades conjugais, nunca a Rainha Santa deu ouvidos aos rumores palacianos sobre a vida amorosa do Rei, a quem continuou a estimar e honrar com heróica virtude. Às damas do seu séquito não consentia quaisquer murmurações sobre a vida privada do monarca, que preferia ignorar, nem outras conversas que não fossem para a edificação do espírito. Fontes coevas relatam que a Rainha Santa, dando nisto prova da sua grande dignidade, «calava o desgosto sem se queixar» (José Miguel Pero-Sanz, Santa Isabel, Rainha de Portugal, Alêtheia Editores, Coimbra 2014, pág. 65). Mais heróica foi, ainda, a sua atitude de providenciar o sustento e a educação dos filhos e filhas naturais de ‘o Lavrador’, pois ordenava que «viessem à sua presença, dava-lhes de vestir e de comer e criava-os. E outro tanto fazia com os seus aios» (Idem, pág. 66).
Talvez outra qualquer dama, em idênticas circunstâncias, se apartasse do seu infiel marido, lhe reprovasse os seus contínuos adultérios e vingasse, nessa geração bastarda, todo o furor do seu despeito e da sua ira. Não assim a Rainha Santa Isabel, que respondeu à ofensa com o perdão e com a caridade com que sempre amou o seu augusto marido, oferecendo, pela sua conversão, a própria dor que ele lhe infligia com as suas recorrentes aventuras extra-matrimoniais. Não em vão porque, segundo um cronista da época, D. Dinis, ante tão extraordinário exemplo de dignidade e de santidade da Rainha, «envergonhado das suas fraquezas e temendo a Deus, o castigo da Sua justiça, e também para limpar as manchas que tanto dano causavam à limpeza da sua dignidade real e singular condição, […] com grande serenidade se privou de todos esses defeitos e se pôs no caminho recto e verdadeiro que devia, e até à sua morte o seguiu e guardou» (Idem, pág. 70).

7. Obreira da paz familiar. Como já acontecera na Família Real aragonesa, quando se desavieram el-Rei D. Jaime I, o Conquistador, e seu filho primogénito e sucessor, que viria a ser o Rei D. Pedro III de Aragão, pai de Santa Isabel de Portugal, também ocorreram graves desentendimentos familiares na Coroa portuguesa. E a Rainha Santa que, ainda adolescente, tanto contribuiu para o apaziguamento das relações entre seus augustos pai e avô paterno, mais uma vez foi chamada a ser obreira da reconciliação e da paz entre seu marido, el-Rei D. Dinis, e o seu filho e sucessor, D. Afonso, que viria a ser o quarto deste nome, entre os Reis de Portugal.
Foi particularmente difícil a mediação da Rainha Santa neste grave conflito familiar que não só opôs pai e filho, como também provocou uma autêntica guerra civil. Santa Isabel, na delicada posição de cônjuge do monarca reinante e de mãe do pretendente, procurou serenar os exaltados ânimos do infante rebelde e do irrequieto soberano, mas com tanta infelicidade que acabou por ser mal vista por ambos. Com efeito, como junto de seu marido intercedia pelo infante, D. Dinis tinha-a por aliada de D. Afonso e, portanto, sua inimiga. Porque procurava reconduzir o herdeiro à obediência e fidelidade a seu pai e senhor, seu filho considerava-a como contrária às suas reivindicações e, em consequência, a desestimava.
A finais de 1323 as hostes dos dois partidos encontraram-se às portas de Lisboa, para um recontro que parecia fatal. Quando, no lugar de Alvalade, já voavam flechas e pedras entre os dois exércitos, a Rainha Santa, sem escolta nem palafreneiros, humildemente montada numa mula aparelhada, interpôs-se entre as duas forças beligerantes, obtendo desta forma a reconciliação familiar: «D. Afonso, com seis cavaleiros, apresentou-se a beijar a mão de D. Dinis, a quem prometeu a mais sincera obediência. A antiga Relação diz que o filho e o pai se separaram com amizade: D. Dinis para Lisboa e D. Afonso para Santarém» (Idem, pág. 150).
Os méritos de Santa Isabel não passaram desapercebidos, não só em Portugal, mas também no estrangeiro. O Papa João XXII, então reinante, tendo notícia de que, por intermédio da Rainha, se lograra a paz familiar e do reino, teve por bem felicitar a grande responsável por essa vitória, em termos que não são comuns na correspondência pontifícia: «À sua queridíssima filha Isabel, Rainha de Portugal: Com razão nos alegramos no Senhor, porque o Altíssimo fez-te ministra e cooperadora Sua para converter o teu filho primogénito ao coração do seu pai, e ao pai, o do seu filho. Como pedra angular uniste os que estavam perigosissimamente separados. Mas, como a recaída costuma ser pior do que a queda, exortamos a providência real, a fim de que te empenhes com solícita diligência, de modo que subsista o que Deus providencialmente fez com a tua cooperação» (Idem, pág. 148).

8. Santidade cristã na vida profissional e familiar. No imaginário popular, identifica-se a santidade com grandes milagres, curas extraordinárias, visões celestiais ou infernais lutas mas, na realidade, nada disto ocorreu na vida de Santa Isabel. Com efeito, até mesmo o milagre das rosas, que só no século XVI se lhe atribuiu, não tem fundamento histórico: segundo alguns dos seus mais abalizados biógrafos, esta lenda não corresponde à realidade factual da sua existência e ter-se-ia ficado a dever a uma compreensível confusão com a sua homónima tia-avó, protagonista deste facto extraordinário, que já ocorrera a uma outra princesa, Santa Cassilda (cfr. Idem, págs. 44-45). 
O verdadeiro sinónimo da santidade cristã não são as coisas extraordinárias, mas, pelo contrário, fazer extraordinariamente bem as coisas comuns. Também não se conhece nenhum milagre realizado, em vida, por Nossa Senhora, a quem, por ser Santíssima, muito justamente se atribui a santidade superlativa. No mesmo sentido, mas não no mesmo grau, também a Rainha Santa alcançou a perfeição da caridade cristã e é, por isso mesmo, um exemplo para todos os portugueses e para todos os cristãos. Não foi santa apesar de ser Rainha, casada e mãe, mas precisamente através dessas suas circunstâncias, que soube santificar. 
Os leigos cristãos estão também chamados à santificação do seu trabalho e do seu desempenho familiar, nomeadamente fazendo do seu ofício uma ocasião de oração a Deus e de serviço ao próximo e excedendo-se no cumprimento dos seus deveres familiares, quer honrando o seu compromisso matrimonial, quer assumindo com generosidade as exigências da maternidade e da paternidade.

9. Conclusão. «Jesus chegou a Cafarnaum e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga e começou a ensinar, todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque os ensinava com autoridade e não como os escribas» (Mc 1, 21-22). 
É a coerência de vida do Mestre que dá autoridade à sua palavra, como também é a vida santa de Santa Isabel de Portugal que dá fundamento à sua devoção. Seu augusto marido, numa inspirada trova da sua autoria, disse-o de forma particularmente bela e expressiva: «E pois sabedes entender, Sempre o melhor e bem escolher, Verdade vos quero dizer, -Senhor que sirvo e servirei: - Pois Deus assim o quis fazer, Érades boa para Rei!» (http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=516&pv=sim; ob. cit., pág. 56).
Ao invocar, uma última vez, a egrégia memória de El-Rei D. Carlos I, certamente um dos melhores Reis de Portugal, e do Príncipe Real, que tão bem preparado estava para lhe suceder, queremos crer que não foi em vão que derramaram o seu sangue inocente. Como, seu augusto avoengo D. Dinis que, no dizer do poeta da Mensagem, foi «o plantador das naus a haver» (Fernando Pessoa, Mensagem, Lisboa 1934, pág. 25, verso 2), também as vítimas do regicídio foram a semente de que há-de nascer, assim o queira Deus, um novo Portugal!

P. Gonçalo Portocarrero de Almada

domingo, 1 de fevereiro de 2015

107 anos do regicídio


"Mas o pior crime que a República cometeu foi o de abalar pelo esquecimento a fidelidade monárquica. E a Coroa não pode nem deve ser um sinal de divisão, ou uma sigla de partidos. Mas sim o cristal em que todos os portugueses possam encontrar a sua imagem. O cristal é frágil. E não sei até que ponto, quando se quebra pode readquirir o seu brilho e a sua transparência. Não irei àquela cerimónia fúnebre que todos os anos se repete na Praça do Município. E se fosse, iria de gravata preta, porque acto tão triste, ali, só pode ser para que não esqueça a memória de um rei e de um príncipe vilmente assassinados." 
- Francisco Sousa Tavares (5 de Outubro de 1991)



Interessante documentário para assinalar os 107 anos do regicídio

"Como é que tudo aconteceu no derradeiro dia 1 de Fevereiro de 1908? 
A investigadora Margarida Magalhães Ramalho, autora de trabalhos como 
"Rei D. Carlos" e "1908, Um Olhar sobre o Regicídio",
 lembra os pormenores da história que cem anos depois continua a gerar polémica"  
(Expresso Online).