terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Nas origens da tragédia



"Assim, podemos hoje olhar com alguma objectividade estes meses 
do fim do Império, entre Abril de 1974 e Novembro de 1975, na razão 
directa do empenho, da esperança e da paixão com que então os vivemos,
 ou da raiva, da fúria e da sensação de queda final com que lhes vimos o desfecho." 
(Jaime N. Pinto, Portugal, Ascensão e Queda) 


Nasci dezassete anos volvidos sobre a Revolução (ou golpe militar, como for preferível) do 25 de Abril, data conjurada numa mítica quase divina. Quatro décadas não permitem a avaliação consciente dos factos nem a representação clara dos acontecimentos. Na distância dos fenómenos históricos apenas posso ponderar os factos no desassossego da história, nos processos utilizados pelos protagonistas, nas suas ambições e nos seus desvairos. Do que li sobre a revolução, do que estudei, constatei na miríade de libelos da ortodoxia dominante, o pasmo geral, a idolatria da esquerda, as dúvidas e apreensões da direita. Salazar o génio, ou Salazar o ditador; a revolução necessária, ou a revolução que podiam ter evitado; o "fascismo" e o "anti-fascismo", as moralidades da esquerda e as angústias da direita, tudo elementares constatações, frémitos que aliciam a prosa ao sabor dos sentimentos, poética exuberante que não deixa de constatar a alucinação dos apologistas da revolução.

 Não se tratou propriamente de uma "revolução francesa" ou de uma "revolução russa", mas se olharmos no seu conjunto, nas dimensões extra-continentais, nas consequências da revolução na Guiné, em Angola, ou em Moçambique,  caiem por terra muitos mitos e ressaltam-se muitas incertezas. No final restam as dicotomias e as indiossicracias que criam ódios e rancores, admirações e idolatria, sem se conseguir pensar no meio termo do que significaram esses anos. Entregues à sua sorte, Guiné, Angola e Moçambique foram devastados pela guerra civil, porquanto em Portugal preferissem contar os cravos nas baionetas e deixassem os civis extasiados passear de tanque pelo Chiado.

O país não se libertou das angústias da sua história - é a verdade. Nações divididas pela guerra civil e pela revolução dificilmente superaram a gangrena moral que os divide. Há casos similares, como por exemplo na divisão dos Estados em plena guerra civil americana, entre os Estados do Norte e os Estados do Sul (da Dixie); na Espanha, entre Carlistas e Liberais; na França dividida entre vendeanos e jacobinos; e, no nosso caso, liberais e miguelistas, republicanos e monárquicos, apoiantes do Estado Novo e revolucionários (entre a visão da direita e os cantares da esquerda).

Nos derradeiros anos da democracia, muitos portugueses, órfãos de um império que jamais conseguiram perceber o significado, e afastados de uma história que jamais compreenderam o sentido, aceitaram, sem resignação, o novo estádio revolucionário. A descolonização é um debate aceso. Se a esmagadora maioria dos retornados (por razões óbvias e historicamente identificáveis) não consentiu com aquilo que Harold Macmillan chamava "os ventos da história" ("ventos" que empurraram Portugal para a catástrofe em que se tornou aquela"descolonização exemplar"), também é certo que outros houve que preferiram desculpar o comunismo e os grupos armados que lhes roubaram a terra, obrigando-os forçosamente a fugir. Ou, pelo menos, esforçam-se por esquecer o drama, sem que realmente tenham conhecido os preliminares da situação.

Educados numa concepção materialista da história, toda uma geração, à qual pertencem nossos pais e tios, e também avós, renegaram os valores antecedentes: Deus, Pátria, Família (por vezes até a Propriedade!) porque ensinaram-lhes, naqueles anos de transição, entre declamações da poesia de Agostinho Neto, ou o estudo da mediocridade literária dos neo-realistas, além dos cantares das Grândolas e cantigas intervencionistas, cujo conteúdo se repetia ad nauseam, que esses princípios eram malévolos, responsáveis pelo atraso português, pelo retrocesso das mentalidades.

O Estado Novo e Salazar podem, perfeitamente, servir de bode-expiatório para muitos dos nossos dramas colectivos, podem até mesmo servir de justificação para muita da incompetência desta nossa "jovem" democracia, o que é mais fácil de responsabilizar do que a "imbecilidade" dos homens do nosso presente. Passados quarenta anos, ainda não há distanciamento histórico para perpassar o drama e julgar à luz dos factos, de forma rigorosa e fria. Afinal, a ditadura, no seu todo, primeiro militar, depois chamada de "Estado Novo" (a II República), salazarista e depois marcelista, viveu por quarenta e oito anos, muitos mais anos do que actualmente conhece a nossa III República, dita "democrática", desse passado, os estigmas prevalecem, e os nossos pesadelos também.

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