terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Portugalidade




Só a Portugalidade é inteiramente nossa, característica e tipicamente nossa. Portugalenses, portugaleses, portugueses, assim nos chamamos e nos chamaram, ao nascer; assim nos chamamos e nos chamaram, durante séculos, até que a pedantaria dos humanistas nos crismou de — lusitanos. Portugueses nascemos, portugueses devemos morrer. Doutrinador de Portugalidade — eis o sector da minha multiforme actividade intelectual, que, como íman fatídico, atrai as dedicações luminosas que me cercam, aqui, e lá fora, e encandeia os ódios e os rancores que me seguem a sombra...

Porque doutrinador de Portugalidade — monárquico, porque foi a Monarquia que fez Portugal, mas a Monarquia pura, a Monarquia tradicional, a que vem de 1128, se afirma em Ourique, se consolida em Aljubarrota, rasga o caminho marítimo da Índia, cria o Império, sucumbe, devagar, em Alcácer, e ressuscita em 1640, para cair, apunhalada pelas costas, em 1884, em Évora-Monte.

Porque doutrinador de Portugalidade — monárquico, mas da Monarquia que fez a Nação, e não da que começou a desfazê-la; da Monarquia em que o Rei é a síntese viva do Povo, da Monarquia que ama o Povo, que se confunde com o próprio Povo — mas o Povo verdadeiro, e não o Povo dos Partidos, o Povo pulverizado em indivíduos que são números; a Monarquia que é o próprio Povo, o Povo trabalhador, — camponês, soldado, marinheiro, artífice, doutor, padre, letrado, sábio, artista, funcionário, e não o Povo vadio e tunante das conjuras, das alfurjas, dos apetites das facções, dos grupos e dos clubes políticos, dos demagogos e arruaceiros.

Alfredo Pimenta 
 Guimarães, 11.10.1947

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

'Antichrist'

 by Holy Royal Martyr Prince Vladimir Paley

The dark times are coming, are coming,
He promises power and wealth,
Under slogans on fiery banners:
Liberty, equality, and fraternity!
He comes in bright vesture,
He shall rule for a moment,
He is the forerunner of thunder…
Republican confusion.
With blasphemous praise
He lies with arrogance,
To get earthly happiness
We must oppose God’s kingdom.
But his reign shall be short,
His diabolical ravings smothered,
For the cross shall shine on high,
At the time of the Last Judgement.



segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Uma lição de Maurras




"Le roi et la nation sont identifiés. L'intérêt de la nation est celui de la dynastie. Deux choses rendent clairvoyants les esprits les plus ordinaires : c'est l'amour et c'est l'intérêt. L'amour de soi, l'intérêt personnel, puis l'amour paternel, joint à l'intérêt dynastique, voilà, au fond, si on l'analyse avec quelque courage, la quadruple racine de ce profond sentiment du bien public et de l'intérêt national qui, dans la dynastie capétienne, a créé la France. Dans le cœur du monarque, dans son esprit, il y a une coïncidence parfaite et en quelque sorte physique entre le patriotisme le plus élevé et, si l'on me permet d'ainsi dire, la plus sordide cupidité..."

Charles Maurras (1868-1952)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Lisboa capital do mundo

Dois quadros descobertos em 2009 originaram um livro sobre Lisboa quinhentista e a Rua Nova dos Mercadores. Naquela artéria confluíam produtos do império e gentes de todo o mundo, transformando a capital portuguesa numa cidade global. (fonte: jornal Público)

A Lisboa quinhentista e seiscentista, essa da época dos descobrimentos, que o bom apóstolo dos direitos do homem vê como terra de esclavagistas, do tempo da contra-reforma, que o bom secularista vê como tempo de inquisidores e de livros na fogueira, entre o reinado de D.Manuel I e da monarquia dos Habsburgos, que o bom liberal e progressista vê como tempo de degeneração, de fogueiras contra judeus, indexes e perseguições, pois era esta metrópole a mais avançada culturalmente, onde o comércio mundial passava, que era centro do mundo, onde os negócios floresciam, onde crenças, raças e homens de toda a parte do mundo se cruzavam e conviviam, onde havia livrarias e a cultura era viva e florescente. Muito diferente do retrato sombrio da literatura de Antero e de Oliveira Martins, do traço fanatizado do anti-Portugal que anda em voga a tentar diabolizar o passado de uma nação que deu novos mundo ao mundo. Vale a pena ler o texto, um despertar da consciência para a nossa realidade histórica. Chega de anti-portuguesismo. 
Vale a pena ler:

"No século XVI, a Rua Nova dos Mercadores era uma pequena babel. Nos seus edifícios, moravam italianos, flamengos, andaluzes, portugueses. Enquanto isso, naquela rua da Baixa de Lisboa, cristãos-novos, judeus estrangeiros, escravos vindos de 20 nações africanas, escravos árabes passeavam-se, muitos faziam trocas comerciais." 
(...)

"Era no rés-do-chão dos edifícios que estava uma multitude de lojas. Em 1552, existiam 11 livrarias, onde também se encontravam livros de matemática, e 20 lojas de roupa e têxteis, onde se vendiam tecidos de veludo, sedas, tecido adamascado, tafetás vindos da Europa, da Índia e do Extremo Oriente. Em 1581, um ano após o início da dinastia filipina, existiam seis lojas especializadas na venda de porcelana Ming chinesa, nove boticas – as “farmácias” que na altura vendiam “produtos medicinais”, alguns importados da Ásia, como pedras bezoares, que se formam no sistema digestivo dos ruminantes, ou cornos de rinoceronte – além de artesãos, como alfaiates, calceteiros, barreteiros ou sirgueiros.

Era esta a dinâmica de uma cidade vibrante que estava a receber os frutos da rede comercial que tinha sido criada (só entre 1500 e 1521, o rei D. Manuel I enviou 237 naus para a Índia) e da crescente população cada vez mais misturada. De 1551 há um testemunho de que 10% dos 100.000 lisboetas eram negros. Dezassete anos depois, Lisboa tinha 150.000 habitantes, onde as minorias mais representadas eram escravos negros e índios. Em 1578, cerca de 20% dos 250.000 habitantes eram negros.

“Os quadros confirmam que Lisboa era muito misturada racialmente, que havia gente de muitos povos, muitos negros, que havia produtos exóticos”, diz Henrique Leitão ao PÚBLICO, acrescentando que uma das surpresas do livro provém da informação sobre o que existia dentro de algumas das casas da Rua Nova dos Mercadores. “[Os investigadores para este livro] descobriram documentação fantástica. Sobretudo inventários pessoais. E isto é muito importante, porque ficamos a ver o que é que as pessoas tinham mesmo dentro de casa. A grande surpresa é que estavam cheias de produtos exóticos. Dantes pensávamos que os produtos exóticos eram a marca de gente muito rica. Mas acabámos por ver que eram banalíssimos. A louça chinesa estava por todo o lado, os tecidos indianos estavam por todo o lado.”
(...)

Mas toda esta riqueza também transparece nos edifícios que se observam no díptico. Os sucessivos reis, começando com D. João II, foram financiando obras para alterar aquela famosa rua. “D. Manuel I tentou construir uma cidade mais regular. Por isso, ordenou que os balcões de madeira medievais fossem retirados. A rua passou a ser mais larga e foi pavimentada. Era uma rua que estava a tentar passar uma mensagem. Tinha apoio real e civil. Era importante que Lisboa tivesse uma rua comercial. Trazia dinheiro, impostos, comércio”, explica Annemarie Jordan Gschwend."






domingo, 13 de dezembro de 2015

A mentirola




Com a devida vénia ao professor Nuno Rogeiro: 
É uma das grandes mentirolas recentes – a de que as mulheres portuguesas só puderam votar pela primeira vez depois do 25 de Abril. 

A verdade é que quem lhes concedeu esse direito foi o Estado Novo, primeiro nos anos 30 e depois, com mais amplitude, em 1968. 
Claro que estávamos em regime de sufrágio censitário e capacitário, primeiro, e capacitário, depois. 
Mas a verdade é que na libérrima Primeira República, exemplo da «democracia», «progresso», anti-obscurantismo e oposição ao «Trono e Altar», a mulher foi sempre olhada com desconfiança, e sempre interditada de votar.
Para o «progressismo» de 1911-1926, tratava-se de um ser frágil, facilmente manipulável pela padralhada e pelos arremedos místicos.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Quando a ignorância é atrevida



Do Diário de Notícias: 
"Eu sei que isto não agrada aos portugueses, mas Cristóvão Colombo chegou a Santo Domingo [atual República Dominicana] em 1492 e em 1507 já ali tinha sido criada a Universidade. No Peru em 1550, na Bolívia em 1624. No Brasil a primeira universidade surgiu apenas em 1922",
 "Para Lula da Silva, que comparou as atitudes dos países colonizadores Espanha e Portugal nas respetivas áreas de influência, este facto "justifica os atrasos na educação do Brasil"."

 Novamente a propaganda anti-portuguesa, agora vinda da boca do antigo chefe de estado Lula da Silva. O homem é uma comédia, esse produto acabado de um sindicalismo de oportunistas e de um socialismo que significou distribuir riquezas entre a família e amigos saiu-se com uma deixa de sábio. Para quem aparecia como uma espécie de "imperador da Lusofonia", tão amigo de Portugal, tão despertado para este mundo atlântico da portugalidade, não ficou muito atrás da indigência mais medíocre e da visão mais rudimentar. Este pobre filho de pobres chegou humilde ao poder e de lá tirou as maiores benesses (quem o pode criticar?), mas não se trata de procurar as suas incursões na política, a corrupção, o desnível, a falta de honestidade, a falta de integridade, também, mas a ignorância acefálica deste guia do povo.  Ao senhor Lula devíamos perguntar: Quem difundiu a língua portuguesa pela América do Sul dentro? Quem criou as elites que mais tarde desenvolveriam uma nação livre e independente? Quem ajudou a manter a unidade de todo aquele território?

 Foram, primeiro, os jesuítas, verdadeira elite intelectual, quem fomentaram a cultura e a educação por todo aquele território imenso, em 1759 havia 24 colégios, 3 seminários, 17 casas e 39 missões, em todas as capitanias. Com a expulsão dos jesuítas e a reforma de Pombal a educação passa a ser administrada pelo Estado e são criadas por todo o Brasil escolas régias. Depois, com a presença da família real, a partir de 1808, são criados cursos, cadeiras, escolas e as primeiras faculdades, é o rei D. João VI (esse que a propaganda republicana e liberal fez passar por estúpido, na verdade, um homem pragmático e de visão) quem vai permitir a abertura das primeiras escolas primárias, de artes e ofícios, em todo o país, e não só nas principais cidades onde primeiramente se concentravam. D. João VI fomenta o ensino superior - nas origens da moderna Universidade brasileira. Assiste-se à criação da Academia Militar, da Academia da Marinha e da Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. Nesta época o Rio de Janeiro torna-se a principal cidade da América do Sul, verdadeiro centro cultural e político que espelha os reflexos de uma prosperidade crescente. 

Podemos contabilizar, sem deixar de ficar surpresos, com a quantidade de nomes de brasileiros que estudaram em Coimbra entre finais de 1700 e inícios de 1800. Foi um brasileiro (Monteiro Rocha) quem elaborou os estatutos do curso de matemática durante a reforma pombalina e foi igualmente o criador do Observatório Astronómico, outro brasileiro (Francisco da Cunha Leal) esteve nas origens do Laboratório Chimico, e, na faculdade de medicina, de 1790 a 1820, despontam nomes diversos de brasileiros ligados às ciências médicas e que darão um grande contributo tanto ao Brasil como ao Reino de Portugal. 

Igualmente serão homens vindos do Brasil quem administrarão as aulas de Química e de Farmácia. Por exemplo, por volta 1790 permitiu que se realizassem em São Paulo importantes estudos a nível da meteorologia e da astronomia e até ao início do século XIX serão publicados obras simbólicas nos domínios das ciências (sim, nesse tempo obscuro de inquisidores e de padres e que o senhor Lula diz ter sido um atraso).

Já independente o Brasil continuará a desenvolver as suas bases do ensino. No Império houve tentativas de criação de universidades mas sem êxito, uma delas foi apresentada pelo próprio Imperador, D. Pedro II. O curso de direito aparecera já em 1827, na cidade de São Paulo e Olinda; e em 1839 é estabelecida a escola de farmácia de Ouro Preto e de Minas. A 7 de Setembro de 1920, por meio do Decreto nº 14.343, o Presidente Epitácio Pessoa institui a Universidade do Rio de Janeiro. A verdade é que já havia (desde finais do século XVIII) uma grande homogeneidade nos estudo, oferecendo treino e capacidades que permitiram ao Brasil desenvolver as suas bases administrativas e políticas, a elite brasileira era da mais bem preparada e educadas, tendo passado por Coimbra verdadeiro centro do conhecimento de um império universal. De 1822 a 1889, 85% dos senadores tinham educação superior. Comparado com hoje o sr. Lula representa um retrocesso civilizacional. 

O ensino superior no Brasil hoje está em um estado lamentável, oferecendo vagas para menos do que 10% da faixa etária, e há sérios problemas de qualidade. Atribuiu bolsas de estudo, é verdade, mas também é verdade que os custos mais baixos por estudante em instituições particulares são mais relacionados com a baixa qualidade de ensino e falta de contribuição para o bem público do que com eficiência. Quanto ao senhor Lula da Silva vá-se educar. O seu governo corrupto deixou o Brasil num estado lamentável. A falta de educação deste homúnculo está ao nível da sua habilidade política: uma nulidade. Por isto merecia é que lhe fosse retirado o título de Doutor Honoris Causa com que a Universidade de Coimbra o reconheceu, a Universidade que tanto fez para preparar a elite brasileira no passado e que ajudou a traçar o caminho da independência de um reino, mais tarde império sul americano. Uma nação que tem todas as potencialidade para se afirmar na América do Sul. 

Ao senhor Lula só tenho a dizer: a ignorância é atrevida... 


_________________
leia-se para o efeito:

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Precisa o homem moderno da tradição?




Aristóteles com um busto de Homero - 1653.
(Rembrandt) 


De Pierre Manent, como o ocidente criou a modernidade, ou, porque é que o homem moderno precisa da tradição. 

(...)
Inherent in the idea of a project are the beliefs that we are capable of acting and that our action can transform the conditions of our life. Many analysts of modernity have insisted on the second point, the transformative or constructive ambition of the modern project. But we must not pass over the first point too quickly. We are capable of acting—a world is contained in those words! Human beings have always acted in some way, but they have not always known that they were capable of acting. There is something terrible in human action: what makes us human is also what exposes us, takes us out of ourselves, and sometimes causes us to lose ourselves. In the beginning, human beings gathered, fished, hunted, or even made war, which is a kind of hunting; but they acted as little as possible, leaving much to the gods and tying themselves down with prohibitions, rites, and sacred restraints. Historically, properly human action first appears as crime or transgression. This, according to Hegel, is what Greek tragedy brings to light: innocently criminal action. Tragedy recounts the passage from what precedes action to properly human action.
(...)
 Today in Europe, civic activity is feeble, the religious Word almost inaudible. Yet as we noted at the outset, the modern project continues. Is it merely running on its own inertia, or is the ceaseless quest that I have just described still going on? To answer that question, it may be useful to offer a description of Europe’s present situation concerning the relationship between speech and action.
(...) 
 Europe produced modernity—and for a long time, Europe was the master and possessor of modernity, putting it to the almost exclusive service of its own power. But this transformative project was inherently destined for humanity as a whole. Today, Bacon and Descartes rule in Shanghai and Bangalore at least as much as in London and Paris. Europe finds itself militarily, politically, and spiritually disarmed in a world that it has armed with the means of modern civilization. Soon it will be wholly incapable of defending itself. It has already been incapable of speaking up for itself for a long time, since it confuses itself with a humanity on the path to pacification and unification.
(...) 
 By renouncing the political form that was its own and by which it had attempted, with some success, to resolve the European problem, Europe has deprived itself of the means of association in which its life had found the richest meaning, diffracted in a multiplicity of national languages that rivaled one another in strength and in grace. What will come next?


quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A (des)igualdade de Cristo



Falava a propósito de um tema recorrente de associar Cristo ao estribilho ideológico dos nossos dias, produto acabado da modernidade, interpretando mensagens de igualdade no Evangelho enquanto corolário do socialismo e sucedâneos modernos, como se o filho de Deus preconizasse um qualquer estado comunista na antiguidade. Este estribilho já vem desde o tempo dos tais católicos progressistas e da ideologia que invadiu a Igreja desde o século passado. Nenhuma escritura sagrada ensina que todos nós somos iguais perante Deus, pelo contrário, sabemos pelas escrituras que Cristo amava mais a uns discípulos do que a outros, pelo que desde já constatamos na hierarquia entreos apóstolos. A doutrina católica, ainda assim comparavelmente mais optimista do que as suas deturpações (calvinista e luterana), meramente afirma que a todos é dada suficiente graça para que sejam capazes de conseguir a salvação, mas não ao mesmo nível. Se todos fôssemos iguais aos olhos de Deus, então um Hitler conseguiria a mesma salvação que uma Madre Teresa, e tal pareceria ao católico tão injustificável e desprovido de sentido que uma pessoa apenas poderia interrogar-se do porquê das boas acções na terra serem recompensadas da mesma forma que o mal (em nome da igualdade claro está), ou o porquê do pecador igualizar o santo. Diria o profeta: "A vós é concedido conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhe é concedido" (Mat. 13, 11).
E se Cristo era a favor da igualdade, por que proferiu estas palavras: ? "Porque (o reino dos céus) será como um homem... que deu cinco talentos (a um servo), e a outros dois, e a outro um, e a cada um segundo a sua capacidade" (Mat. 25, 14-15) Isto é, no Evangelho é reconhecida desigualdade na graça e na virtude, que se reflecte na desigualdade de glória no reino dos céus (1).

Fica esclarecido, que a igualdade, ao contrário do que muitos sugerem, não aparece inscrita nas Sagradas Escrituras. Até mesmo a doutrina da Igreja a rejeita: "Não é verdade que na sociedade civil todos temos direitos iguais, e que não exista hierarquia legítima" (Pio XI, Divini Redemptoris n. 33). O universo criado por Deus é hierárquico e desigual, o que talvez levaria Gomez Dávilla a proferir no seu gracejo tão tradicionalista (não sem abdicar da ironia sublime) de que "a hierarquia pertence ao reino dos céus, a igualdade só existe no inferno".

Mas é interessante observar na interpretação "democrática" feita por certos teólogos e como uma geração enganada conseguiu acreditar em tal. A palavra que aparece inscrita nas sagradas escrituras é, quando muito, "liberdade". Cheguei a ouvir que Cristo falava em "igualdade de direitos" (?), parece que na vanguarda da actual social-democracia, o que não deixa de obrigar a um sorriso. Podia mesmo argumentar, como alguns progressistas enganosos nas proposições, que todos somos iguais aos olhos de Deus. Mas se o somos, porque nos criou Ele tão desiguais? Porque nascemos uns mais inteligentes, outros mais limitados, uns mais altos, outros mais baixos? As diferenças são a grande fonte da dinâmica no mundo. Uma desigualdade proporcionada e harmoniosa que nos obriga a amar o próximo como a nós mesmos e, se é verdade que todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus e que todos somos seus filhos aos seus olhos, também se deve constatar que nenhum de nós sabe se está tão próximo de Deus quanto o outro, ninguém o pode saber, por isso devemos tratar o nosso próximo como "igual", mas esse facto designa apenas um mero procedimento, não se trata de qualquer uniformização da espécie.  Aqui a relevância da proposição teológica ao afirmar as desigualdades: todo nós temos o mesmo Pai, e devemo-nos tratar como irmãos, mesmo que espiritualmente estejamos em níveis desiguais e socialmente desempenhemos diferentes funções. Como escrevia Kuehnelt-Leddihn:

We are in a similar position to the postman who delivers two sealed letters indiscriminately, the one that carries a worthless ad and the other that brings great joy. He does not know what is inside. The comparison is far from perfect, because all human beings have the same Father and we are therefore brothers-even if we are spiritually on different levels and have different functions in human society. (From a social viewpoint one person obviously can be more important than another; however, since everybody is unique, everybody is indispensable. To state the contrary is democratic nihilism.) (2)


As ideias de igualdade entre os católicos foram desde sempre mais nocivas do que benéficas, mesmo quando procurando os melhores propósitos, o que recorda a máxima de São Tomás: Corruptio optimi pessima (Quando o melhor é corrompido, torna-se o pior de todos).  Vários seriam os exemplos desse fanatismo igualitário, num Savonarola, que no século XV já sonhava em fazer de Florença uma espécie de paraíso na terra.  Os Turlupins, por exemplo, uma seita fanática que existiu no norte de França, esses sim, representavam uma facção do cristianismo que pregavam a igualdade, influenciados pelo monge Joaquim de Floris, responsáveis pelos motins de camponeses ocorridos à época e que semearam o caos. Também grandemente influenciado por uma facção extremista dos Franciscanos na sua ênfase da pobreza invocando a ideia peregrina de que a igreja e o Papa se tinham afastado da palavra de Cristo... A revolta não ia apenas contra a Igreja, mas contra a hierarquia e contra o Papa (o Pai), o que obrigava (contraditoriamente) a repensar a ideia de Deus enquanto pai, e, consequentemente levava a uma deturpação da Trindade. Há aqui algo de mais ambíguo e obscuro que na era moderna se revestiria da forma mais destrutiva, porque significava também que a luta desesperante não era apenas religiosa, mas descia ao político, e punha em causa os próprios fundamentos da monarquia - o Rei, enquanto Pai -, e, por fim, derrubando a própria estrutura da família (o pai enquanto chefe da família). Uma tal destruição estaria para breve, mas demoraria, e não deixamos de encontrar no seio da Igreja actual os seus mais prepotentes executores. A Igreja devia opor-se a estas concepções, mas pior do que isso, aceita-as. 


Outro estribilho: a "igualdade" no céu? Mesmo no reino dos céus existe uma hierarquia, como indicou São Tomás de Aquino, as hordas celestiais dividem-se em três ordens e estes coros celestiais estão hierarquicamente organizados ("Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus dos exércitos, toda a terra está cheia da Sua glória" (Is 6:3)). Essa hierarquia angélica é composta por Principados, Arcanjos e Anjos.Nesse sentido o Deus é apenas um, não poderia partilhar o governo do povo judeu com falsos deuses ou falsos anjos (Livro de Daniel, 12), porque no Universo há um só Princípio e uma só Providência.
 Não nos podemos esquecer que nos céus existe um reino, não uma república, não uma democracia, não há um "parlamento"... É muitas vezes citada aquela máxima de São João de Kronstad, um padre Ortodoxo que terá dito: "No inferno há uma democracia, nos céus há um reino". A frase lapidar interpreta o verdadeiro sentido da posição católica. 
 No livros dos Provérbios, a igualdade é desmentida: "O rico e o pobre se encontraram; o Senhor criou a ambos" (Prov. 22, 2). Só podemos assumir a verdade de que nos céus há hierarquia, assim como na terra há hierarquia. Faz parte da ordem natural. Também para a Igreja tem de haver uma hierarquia guiada pela Sagrada Escritura e pela Sagrada Tradição Apostólica, como indicava a Encíclica Veritatis Splendor a interpretação da palavra de Deus cabe ao Magistério vivo da Igreja, ao Papa e aos Bispos, "cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo", como foi indicado pelo próprio Cristo (leia-se CIC§77), que os apóstolos deixariam como sucessores os bispos, assim "a pregação apostólica (...) devia conservar-se por uma sucessão contínua até a consumação dos tempos." 
A hierarquia deve ser interpretada como uma bondade da Divindade porque a ela pertence esse Bem transcendente de chamar todos os seres a entrarem em comunhão com ela:

Entre as criaturas existe uma interdependência e uma hierarquia queridas por Deus. Ao mesmo tempo, existe uma unidade e solidariedade entre as criaturas, uma vez que todas têm o mesmo Criador, são por Ele amadas e estão ordenadas para a sua glória. Respeitar as leis inscritas na Criação e as relações derivantes da natureza das coisas é portanto um princípio de sabedoria e um fundamento da moral. (3)

Como escreveu Herman Ridderbos (4), a palavra de Deus existe na eternidade, e é perfeita. Mas a Escritura não é nem eterna, nem perfeita. Apenas indica que Deus "faz das palavras dos homens o instrumento de Sua palavra, que Ele usa palavras humanas para seus propósitos divinos."

_______________
(1) Suma Teológica, I - 295 e Suma Contra os Gentios, cap. CXXXIX e CXXII
(4) Herman Ridderbos, Studies in Scripture and its Authority 


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Padroeira e Rainha de Portugal

Nas cortes celebradas em Lisboa no ano de 1646 declarou o rei D. João IV que tomava a Virgem Nossa Senhora da Conceição por padroeira do Reino de Portugal, prometendo-lhe em seu nome, e dos seus sucessores, o tributo anual de cinquenta cruzados de ouro. D. João IV assumiu ainda coroar a Imagem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa como Rainha de Portugal. Ordenou o mesmo soberano que os estudantes na Universidade de Coimbra, antes de tomarem algum grau, jurassem defender a Imaculada Conceição da Mãe de Deus.



Ó glória da nossa terra,
Que tens salvado mil vezes,
Enquanto houver Portugueses,
Tu serás o seu amor.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O manual que faltava (para uma doutrina monárquica)

"Defeza de Portugal - semanário periódico, político e moral" por Alvito Buela Pereira de Miranda, miguelista patriótico, homem da cultura e das letras e doutrinador político. Este galego emigrado para Portugal, nascido em berço humilde, frequentou a Universidade de S.Tiago, onde chegou a bacharel em filosofia. Mais tarde alistado na Congregação Beneditina acabou por rumar a Portugal onde foi capelão do conde de Amarante em plena crise revolucionária de 1820, à qual fez feroz combate com um estilo da craveira de Agostinho de Macedo ou de frei Boaventura, uma escrita descrita pelos contemporâneos como "ódio amassado com sangue e fel", na verdade aliava a vasta erudição a um estilo cáustico e a uma argumentação combativa. Nestas linhas defende o "Portugal velho" fiel às três verdades vencidas Deus, Pátria e Rei, em nome da nação livre e soberana, contras as forças estrangeiras, em nome do rei português, que reconhecia legitimamente em D. Miguel. Um homem singular num tempo que viveu todas as crises. Um verdadeiro defensor da portugalidade.



domingo, 6 de dezembro de 2015

O despertar da França




Diz o pasquim Público:

Como dizia este domingo ao Libération um eleitor em Pas­-de-­Calais que estava na fila para votar, “a FN não representa os valores da França. Assim espero”. Assim esperamos.


O pasquim falhou na citação e falhou a extrema-esquerda franca ao analisar a situação. Infelizmente para a esquerda burguesa e socialista a senhora Le Pen representa os valores da França, infelizmente para eles a senhora Le Pen novamente voltou aos ideais da república francesa, quem não a representa são os tecnocratas e banqueiros que quiseram vender a nação francesa, os mesmos que ontem cantavam as internacionais, o fim dos Estado-nação, a destruição das pátrias, que sentiam vergonha do ocidente, esses nunca representaram os "valores da França", nem de nenhum país europeu. 

Apesar de não ser um grande admirador a verdade é que Le Pen provou que os anos da austeridade esvaziaram os regimes. A União Europeia que cantava o fim dos Estados-Nação mostrou-se errada no diagnóstico face ao despertar das pátrias europeias, lá choram os socialistas e social-marxistas, que cantaram as internacionais e todo o tipo de conjuras que delineavam a tal destruição das fronteiras e o fim das identidades: falhou! A geração de 68 que se tornou a pior das oligarquias do actual regime caiu por terra. 

O que ouço nas palavras de Le Pen são precisamente os valores da França republicana, mas de um novo tipo. Por um lado o nacionalismo que despertou com a revolução de 1789 e que foi apanágio de toda a mítica da "nação una e indivisível" (corolário jabocino); defende uma nação baseada nos ideias da república (liberdade, igualdade e fraternidade), mas, por outro lado, também a ideia de nação e Estado soberano aliado à tradição mais antiga da França que não esconde as origens católicas. 

É verdade que conjuga em si várias e diferentes ideias, apela aos católicos, mas defende o aborto, por exemplo. Defende a saída da França do Euro e da NATO (lembra alguma coisa?) com todo o discurso anti-capitalismo e anti-globalização. Se parece estar à direita não deixa de se aproximar da esquerda. Afastou-se das teses anti-semitas do pai e conseguiu lavar a imagem do partido. Pode-se acusar de demagogia, mas Marine Le Pen recuperou toda a apoteose dos discursos patrióticos, os banhos de multidão que os tecnocratas desconhecem, a grande oratória, a valorização de uma imagética nacional que é capaz de chegar ao francês médio, e é ele quem dá o voto de confiança a Le Pen. 

Depois de décadas de destruição massiva das identidades, da globalização, da americanização, a França devolve-se às origens. A Europa das pátrias desperta.

sábado, 5 de dezembro de 2015

La Marseillaise des Blancs

Uma outra "Marselhesa", aqui na versão da contra-revolução monárquica: "La Marseillaise des Blancs", uma paródia aos jacobinos no tempo da Vendeia e hino de combate contra a guilhotina da igualdade. Demonstra a insubmissão e a irreverência no combate, contra os "Bleus" (os republicanos) e contra os traidores que se venderam, à revolução e à dita "Constituição".




(Verse I)
Allons armée catholique
Le jour de gloire est arrivé!
Contre nous de la république
L’étendard sanglant est levé (repeat)
Entendez-vous dans nos campagnes Les cris impurs des scélérats?
Qui viennent jusque dans nos bras Prendre nos filles, nos femmes!

(Refrain)
Aux armes vendéens!
Formez vos bataillons!
Marchez, marchez, le sang des bleus Rougira nos sillons!

(Verse II)
Quoi des infâmes hérétiques
Feraient la loi dans nos foyers?
Quoi des muscardins de boutiques
Nous écraseraient sous leurs pieds? (repeat)
Et le Rodrigue abominable
Infâme suppôt du démon
S’installerait en la maison De notre Jésus adorable
(Refrain)

(Verse III)
Tremblez pervers et vous timides,
La bourrée des deux partis
Tremblez, vos intrigues perfides,
Vont enfin recevoir leur prix (repeat)
Tout est levé pour vous combattre
De Saint Jean d’Monts à Beaupréau,
D’Angers à la ville d’Airvault,
Nos gars ne veulent que se battre
(Refrain)

(Verse IV)
Chrétiens, vrais fils de l’Eglise,
Séparez de vos ennemis
La faiblesse à la peur soumise
Que verrez en pays conquis (repeat)
Mais ces "citoyens" sanguinaires
Mais les adhérents de Camus Ces prêtres jureurs et intrus
Cause de toutes nos misères
(Refrain)

(Verse V)
Ô sainte Vierge Marie Conduis,
soutiens nos bras vengeurs!
Contre une sequelle ennemie,
Combats avec tes zélateurs! (repeat)
A vos étendards la victoire,
Est promise assurément
Que le régicide expirant,
Voie ton triomphe et notre gloire!
(Refrain)


Vive le Roi!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Finis Mundi nº9

A Finis Mundi nº9 já está a sair, a sessão de lançamento será no dia 16 de Dezembro às 18:30 na Biblioteca Nacional de Portugal e estará a cargo do Dr. João Franco, director da revista. Insere-se no âmbito das comemorações "Afonso de Albuquerque, 500 anos depois: Memória e Materialidade".

Também serão apresentadas o nº 16 da revista "Nova Águia", pelo seu director Dr. Renato Epifânio, e a obra "Q - Poemas de uma Quimera" de Octávio dos Santos.





EDITORIAL
por João Franco 

TRADIÇÃO E PÓS-MODERNIDADE: OS EFEITOS COLATERAIS 
DA GEOPOLÍTICA ANGLO-AMERICANA
por Anderson Calil

DA ERA DE PEIXES À ERA DE AQUÁRIO: DA AGONIA DO 
MUNDO VELHO ÀS SEMENTES DO MUNDO NOVO
por Eduardo Amarante 

SÍLVIO LIMA LEITOR DE GARRETT
por Mário Casa Nova Martins 

CONTRA ORBIS HODIERNI
por Caimmy de Sá 

PORTUGAL E O MERIDIONALISMO: “NOSTALGIA PELO 
FUTURO”
por Edu Silvestre de Albuquerque 
e Tito Lívio Barcellos Pereira

DESVELANDO O PLANEAMENTO ESTRATÉGICO DE
OTTO VON BISMARCK
por Nuno Morgado 

SOBRE A ORIGEM DAS FESTAS AÇORIANAS DO ESPÍRITO 
SANTO
por Luís Couto

O SENTIDO PROFUNDO DA IDENTIDADE
por Alberto Buela

NECESSIDADE DE UM ANTI-PARTIDO
por Ernesto Milá

ENTRE A NEVE
por Eça de Queiroz 

1914-1918: COMO A EUROPA PERDEU A GUERRA
por Alain de Benoist  

SÍRIA: UMA GUERRA INTERNACIONAL POR PROCURAÇÃO 
por João Franco 

MIGRANTES: UM PROBLEMA HUMANITÁRIO OU 
GEOPOLÍTICO?
Por João José Brandão Ferreira 

OS MODELOS DA VIVÊNCIA RELIGIOSA EM FREUD 
por Leonardo Arantes Marques 

DAS PEQUENAS PÁTRIAS À IDENTIDADE NACIONAL – MEMÓRIA E ESQUECIMENTO AO LONGO DA HISTÓRIA 
ADMINISTRATIVA EUROPEIA 
por Manuel Rezende


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

1640-Restauração



"O direito hereditário unido ao amor da pátria afastou o perigo, reclamou a liberdade e firmou a coroa."

- Padre Francisco Machado, in "Mausoleum Maiestatis Ioannis IV" (1657)



domingo, 29 de novembro de 2015

A Direita e a Esquerda: monarquia, federalismo e nacionalismo



 Ler o texto integral em The European Conservative 
(...)
 Nationalism (in the European sense) is leftism; and Catalonian, Basque, and Gallegan (Galician)nationalism naturally assumed a radically leftist character opposing “Castilian” centralization. Hence,in Madrid, almost all movements promoting local rights and privileges, be they political or ethnic, are suspect as leftist, as automatically opposed to the present regime as well as to the unity of Spain. (Spain is “Una, Grande, Libre”!) Oddly enough—but understandable to anybody with a real knowledge of Spanish history—the extreme right in Spain, represented, naturally, by the Carlists and not at all by the Falangists, is federalistic (“localistic”, anti-centralistic) in the European sense.The Carlists are opposed to the centralizing tendencies of Madrid and when late in 1964 the central government made an effort to cancel the privileges of Navarra, the fueros, the Carlists of Navarra, nearly issued a call to rebellion—at which point the government quickly declared its own preparatory steps as a “mistake” and backed down. 
 All conservative movements in Europe are federalistic and opposed to centralization. Thus we encounter in Catalonia, for instance, a desire for autonomy and the cultivation of the Catalan language among the supporters of the extreme right as well as the left. The notorious Catalonian Anarchists always have been supporters of autonomy, but formal anarchism has always been a curious mixtum compositum. Its ultimate vistas were leftist, socialistic in essence, but its temperwas rightist. Much of present-day “communism” in Italy and Spain is merely “popularly misunderstood anarchism”. But, on the other hand, it is also significant that in 1937 open war broke out in Barcelona between the Communists and the Anarchists. And it was the Anarchists who resisted the Communists in Russia longer than any other group, until in 1924 they wereliterally exterminated in all Soviet jails and camps. Hope of “taming” them had been abandoned.  
(...) 
 Something similar is true of Maurrasism, which was also a curious blend of rightist and leftist notions, characterized by deep inner contradictions. Charles Maurras was a monarchist and a nationalist at the same time. Yet monarchy is a basically supranational institution. Usually the monarch’s wife, his mother, and the spouses of his children are foreigners. With two exceptions (Serbia and Montenegro), all the sovereign ruling houses of Europe in the year 1910 were foreign by origin. Nationalism is “populist” by contrast, and the typical republican constitution insists that the president be a native of the country. Maurras undoubtedly had brilliant insights and many a European conservative has borrowed from him. But it was by no means accidental that he collaborated when the Nazis occupied his country. Nor was he a Christian during most of his lifetime. He returned to the Faith, however, some time before his death.
 If we then identify, in a rough way, the right with freedom, personality, and variety, and the left with slavery, collectivism, and uniformity, we are employing semantics that make sense. (...)*

Erik von Kuehnelt-Leddihn, Defining Right & Left,
(trata-se de uma versão do capítulo IV do livro
"Leftism, From de Sade and Marx, to Hitler and Marcuse".)  



terça-feira, 24 de novembro de 2015

O conservadorismo de Evelyn Waugh

Evelyn Waugh aos 26 anos
pintado por Henry Lamb 


(do site First Principles)

Waugh não foi propriamente um escritor político (critico social mordaz e polemista feroz sem dúvida), mas deixou uma descrição exacta e fiel da sua maneira de pensar, nestas linhas concisas e objectivas, que podem igualmente ser lidas no seu livro Mexico: An Object Lesson (além das ideias que transmite nos seus romances fortemente influenciados pela sua mundividência e fé). 
Para todos os efeitos, Waugh foi um enfant terrible da direita, essa direita mal-comportada e com um snobismo aliciante que fascina mais do que indigna, um certo ar petulante e ao mesmo tempo inteligente, tão irreverente como feroz, altruístico e ao mesmo tempo provocador. Talvez o típico intelectual que um país como o Reino Unido pudesse produzir entre a época eduardiana e as duas grandes guerras, educado em Oxford, habituado à elite intelectual londrina, por sua vez herdeiro de uma linhagem antiga de intelectuais, que conviveu com o modernismo mas em bom tempo se converteu à fé Católica, amante como foi da hierarquia e da ordem social, da monarquia e da tradição católica - reaça até ao fim opôs-se ao Concílio Vaticano II. Mas um homem paradoxal também, no fundo, como todos os artistas o são. Ao mesmo tempo tradicionalista conservador e provocador astuto, aquele traço singular que podemos reconhecer em Chesterton, a sua maior influência. 

Deixo aqui uma pequena-grande proposta do pensamento waughiano através deste curto e profundo manifesto: 


 Let me, then, warn the reader that I was a Conservative when I went to Mexico and that everything I saw there strengthened my opinions.
I believe that man is, by nature, an exile and will never be self-sufficient or complete on this earth; That his chances of happiness and virtue, here, remain more or less constant through the centuries and, generally speaking, are not much affected by the political and economic conditions in which he lives; That the balance of good and ill tends to revert to a norm; That sudden changes of physical condition are usually ill, and are advocated by the wrong people for the wrong reasons; That the intellectual communists of today have personal, irrelevant grounds for their antagonism to society, which they are trying to exploit.

I believe in government; That men cannot live together without rules but that they should be kept at the bare minimum of safety; That there is no form of government ordained from God as being better than any other; That the anarchic elements in society are so strong that it is a whole-time task to keep the peace.

I believe that the inequalities of wealth and position are inevitable and that it is therefore meaningless to discuss the advantages of elimination; That men naturally arrange themselves in a system of classes; That such a system is necessary for any form of co-operation work, more particularly the work of keeping a nation together.

I believe in nationality; not in terms of race or of divine commissions for world conquest, but simply thus: mankind inevitably organizes itself in communities according to its geographical distribution; These communities by sharing a common history develop common characteristics and inspire local loyalty; The individual family develops most happily and fully when it accepts these natural limits. 
A conservative is not merely an obstructionist, a brake on frivolous experiment. He has positive work to do.

Civilization has no force of its own beyond what it is given from within. It is under constant assault and it takes most of the energies of civilized man to keep going at all.

Barbarism is never finally defeated; given propitious circumstances, men and women who seem quite orderly, will commit every conceivable atrocity.

Unremitting effort is needed to keep men living together at peace

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A Lei Moral



Durante a Segunda Guerra Mundial, C.S.Lewis fez várias leituras para a BBC, que mais tarde reuniria num livro, intitulado "Mere Christianity", onde estabelece argumentos para a existência de Deus, assim, de forma sucinta:

1 - Existe uma lei moral universal;
2 - Se existe uma lei moral universal, então é porque existe um legislador dessa lei moral;
3 - Se existe um tal legislador, deve ser algo que está por detrás do universo;
4 - Assim, há algo que está por detrás do universo.

Todos os seres humanos sabem que têm de agir de acordo com certas regras e de acordo com uma certa maneira, acatar com um determinado comportamento. Lewis argumenta que existe uma lei moral, que é ao mesmo tempo universal, o que significa liminarmente que vivemos num universo moral, um universo onde existe uma lei que nenhum de nós criou, mas que sempre nos pressiona. E, se nenhum de nós criou essa Lei Moral, então algo deve estar por detrás dessa Lei, uma espécie de Criador, ou de Legislador, que a concebeu.
O ateu pode contra-atacar, como Dawkins, de que a existência humana não tem outra funcionalidade a não ser a de perpetuar o ADN, tudo o mais não tem qualquer propósito, o bem e o mal não interessam (o perfeito sentido da pós-modernidade). Ou no mesmo sentido de Nietzsche, quando argumenta" tu tens o teu caminho, eu tenho o meu. Quanto ao caminho certo, não existe". Se admitimos que existe o mal objectivamente admitimos que existe o bem, ao admitirmos que existe o bem então admitimos que existe uma Lei Moral na sua base que nos permite diferenciar estes pólos em perpétua contradição e completude. Mas distinguimo-los tal como uma criança também distinguiria, não por ter conhecimentos filosóficos ou apurados os conceitos de injustiça, maldade, terror, mas porque vive inserida nessa mesma criação. Um criador supremo incute-nos essa ideia por firmar-se anterior ao universo. Realiza-se ante um homem sempre incompleto.

Mas não podia esta Lei Moral ser algo inerente ao próprio universo: apenas factos morais que existiriam nos próprios factos físicos? Ou meramente tratarem-se de factos físicos ou mesmo factos puramente materiais sobre a natureza humana?
C.S.Lewis responde aos mais cépticos e apresenta esse outorgador da Lei Moral em duas vestes: ou como parte do mesmo universo ou como estando por detrás do universo. Se esse legislador existe no próprio universo, então seremos capazes de observar os factos morais, e a realidade por detrás desses factos poderão ser observados através de métodos científicos, contudo, tal não será possível. Não é algo que seja materializado. Devemos antes concluir que esse Legislador está por detrás do universo. Dá-lhe um sentido. Por fim, existindo factos físicos (como defendem os materialistas) então devemos admitir que existem factos morais também.

Numa parábola interessante o escritor define a Moral:
"Na realidade, as regras morais são como que instruções de uso da máquina chamada homem. Toda regra moral existe para prevenir o colapso, a sobrecarga ou uma falha de funcionamento da máquina. É por isso que essas regras, no começo, parecem estar em constante conflito com nossas inclinações naturais. Quando estamos aprendendo a usar qualquer mecanismo, o instrutor vive dizendo "Não, não faça isso", porque existem diversas coisas que, embora pareçam muito naturais e até acertadas na forma de lidar com a máquina, na verdade não funcionam." - C.S.Lewis, Mere Christianity.
Mas o mesmo autor adverte que esse argumento “is not yet within a hundred miles of the God of Christian theology. (1)” Tudo o que ele estabelece é que existe algo que controla o universo, algo que estabelece essa Lei Moral. Novamente, existindo uma Lei Moral significa que existe um poder por detrás dela, um poder que nos pressiona, verdadeiramente que odeia grande parte dos nossos actos quando consumam um mal, mas ainda assim essa mesma força inspira-nos a procurar o bem. Imaginar esta conflituosidade propõe-se sombria. Pode ser ao mesmo tempo inspirador e trágico. Por um lado a crença de que existe um Bem superior, um poder invisível por detrás do próprio universo, mas, ao mesmo tempo, afirma o sentido trágico do homem, porque todos os dias nós (mais ou menos) falhamos o cumprimento dessa Lei Moral e praticamos o mal.
Uma tal pressuposição não será de todo uma catástrofe, ao jeito de um Raskolnikov que se vê confrontado na sombria perplexidade da sua mortalidade e tendente à expiação dos seus pecados, como uma ortodoxia mais rigorosa suporia em Dostoievski a procura terrena pela salvação. Não procurando o drama incauto das crises de fé devemos partir de um princípio, i.e., da tragédia - o homem enquanto pecador -, antes de podermos entender a divina comédia, um enlace bem ilustrado nos Evangelhos de um Deus tornado homem. A conclusão da história, se se pudesse aferir um enredo à tragédia, reside na crença de que o homem pode ser perdoado dos seus pecados. Como Lewis sublinha: existe uma Lei Moral e o homem é sempre incompleto, a sua incomensurável incompletude revela-se um fardo que tenta preencher, e desse sentido a filosofia procurou as respostas sempre insuficientes.

Se admitimos que existe o bem, então admitimos que existe uma lei moral absoluta na base da qual poderemos distinguir o bem do mal. Admitimos então que essa lei foi criada por um Legislador supremo, um Deus, e sem o qual tudo seria permitido.
Nas palavras de Lewis: “the Christian religion is, in the long run, a thing of unspeakable comfort. But it does not begin in comfort; it begins in…dismay….if you look for truth, you may find comfort in the end: if you look for comfort you will not get either comfort or truth—only soft soap and wishful thinking to begin with and, in the end, despair. (2)”


________________
(1)C.S. Lewis, Mere Christianity, Book I. Right And Wrong As A Clue To The Meaning Of The Universe, 4. What Lies Behind the Law. 
(2)Idem

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A fronteira cedeu


Adiante vou citar um comentário de Dominique Venner relativamente à imigração e ao multiculturalismo.

Quando passado passa a ser futuro de forma quase mimética e ainda mais tenebroso, no fundo, as advertências de ontem passam a ser as realidades de hoje, ou apenas a continuidade de uma bola de neve que vai crescendo em proporção, até ao desastre final.

Como bem lembrou o historiador, as fronteiras meridionais da Europa cederam, desde o dia em que Carlos V desembarcou em Argel para acabar com o tráfico de pirataria berbere.

O fim da guerra na Argélia em 1962, ao retirar das tropas, abandonando franceses e partidários indígenas, deixou a França desprotegida. Incapaz que foi de analisar a situação como uma calamidade que, mais cedo ou mais tarde, a contaminaria, pecado igual cometeu a restante Europa ignorando as consequências que também lhe diziam respeito.

Antes, agravaram a situação, por fim, o choque de civilizações chega ao solo europeu.

«Os efeitos reactivos do islamismo começaram a fazer-se sentir aquando das eleições de 2002. Contra todas as expectativas, a lista "populista" de Pim Fortuyn (assassinado pouco depois por um ecologista) obtinha resultados impressionantes que provavam uma reviravolta da opinião pública. Essa mudança de sinal foi confirmada dois anos mais tarde pela indignação duradoura que se seguiu ao assassinato do realizador de televisão Theo Van Gogh (4 de Novembro de 2004), crítico virulento da sociedade multicultural, apunhalado por um militante islamita de origem marroquina. 
Num ano, do fim de 2004 ao fim de 2005, os três modelos europeus de integração dos imigrados foram postos em cheque. O modelo holandês abriu falência com o assassinato de Van Gogh, o inglês, com os atentados de Londres de Julho de 2005, o modelo francês, com a explosão dos subúrbios em Novembro de 2005. Cada um destes modelos tinha, no entanto, as suas virtudes, ancoradas na tradição nacional. O inglês privilegiava a liberdade das comunidades, o holandês, a tolerância, e o francês, a igualdade. Em vão. Numa hora de confidências ao seu ministro Alains Peyrefitte, que hoje lhe valeriam a fulminação dos tribunais, o general De Gaulle tinha formulado uma daquelas verdades grosseiras em que era exímio: "Aqueles que propugnam a integração têm um cérebro de colibri, mesmo que sejam sábios. Tente-se integrar o azeite e o vinagre. Sacuda-se a garrafa. Ao fim de um instante separam-se de novo."»

Dominique Venner, "O Século de 1914 - Utopias, Guerras e Revoluções na Europa do século XX", Civilização Editora.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A "liberdade"


António José de Brito, o último hegeliano português, o último gentiliano português, um velho discípulo de Cabral de Mocada, também um dos poucos que não mudou de camisa com a mudança de regime, igualmente, um dos últimos a pensar a Portugalidade (como parece que ainda vejo ressurgir a distinta e inconfundível silhueta de Alfredo Pimenta). Até ao fim continuou a pensar a identidade, a pensar as ideias, a criticar os sofismas, a contra-atacar os lugares-comuns. Como a Alemanha teve Heidegger e Schmitt, como a Itália teve D'Annunzio e Paretto, também aqui foi-nos legada a singularidade de um pensamento autenticamente vertical, intemporal, congruente. Vale a pena ouvir.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Coisas à portuguesa


Há quem diga que é a bandeira francesa e há quem diga que é a holandesa, não interessa, ainda assim, compreendo as boas intenções de uma ingenuidade democrática que desfralda uma bandeira estrangeira num órgão de soberania. Agora, se é a bandeira francesa, e não a holandesa como poderiam muitos sugerir, não sem motivos, dá que pensar que desde a invasão de Junot, em 1807, que tal símbolo não era desfraldado por cá (e porventura hasteada como foi à época no Castelo de São Jorge). Talvez ironia da história ver novamente a bandeira jacobina na capital, que diriam os portugueses de ontem ao ver o símbolo da ocupação que combateram? 

sábado, 14 de novembro de 2015

Liberalismo, tradição e Aristocracia

A história do liberalismo está repleta de contradições e por isso não é fácil encontrar uma definição comum, uma dedução do sistema que nos permita delimitar um traço concreto e objectivo. Fico-me pela definição de Alan S. Kahan ao chamá-lo de "liberalismo aristocrático", um discurso que pretende ser distintivo na tradição liberal europeia entre 1830-1870 (vou-me afastar de Portugal contudo). 
Não deixo de constatar nos traços comuns, e nas constantes dissonâncias também, entre Burke, Acton e Tocqueville, mas podia também falar em John Stuart Mill e Allan Kahan, e talvez de um Kenneth von Leddihn cujo pensamento se enquadrava igualmente nos fundamentos filosóficos dos três primeiros. O filósofo austríaco, na sua originalidade, passou grande parte da vida a dissociar o "liberalismo" da "democracia", o seu "Liberty or Equality" é um longo e profundamente eloquente tratado que vem repassar o drama da coexistente vivência entre liberdade e igualdade, entre nós Cabral de Mocada fez o mesmo, ou leia-se o ensaio "A Revolução e o Direito" do professor Castanheira Neves. Na mesma linha dos Founding Fathers e dos "Fedralist Papers" (o mais profundo tratado anti-democrático) coloca-se o problema da democracia e da liberdade. O problema da democracia é de quem deve governar, a resposta será a maioria. O liberalismo entende que a questão não se entende por quem deve governar, mas como deve o poder ser exercido. 

Tocqueville, Acton e Burke estavam preocupados com as condições de que padeciam a liberdade e desconfiavam do pensamento racionalista que procurava impor a liberdade como um já constituído corpo de doutrinas sobre uma supostamente razoável e conscienciosa sociedade. Entendiam esse sentido como o poder arbitrário do homem, o poder absoluto que corrompe (na máxima de Acton). Ao mesmo tempo não preconizavam qualquer milagre de felicidade na terra, não idealizavam nenhuma"cidade paradisíaca", como na filosofia moderno-iluminista do século XVIII. Pelo contrário, desconfiavam desses sonhos. Este paraíso, na verdade, tornava-se um inferno na terra, o melhor exemplo, contemporâneo de Burke, seria a Revolução Francesa e o reino de terror que originou, e que para estes liberais, mais não representava do que o pecado do orgulho. 
Contra a igualdade absoluta e contra o uniformismo (quase totalitário) apreciavam em contraste a grande complexidade da sociedade. Temiam o temperamento destrutivo e despótico de reformadores impacientes, preferindo, em vez disso, a multiplicidade de forças e de ideias representadas nas constituições existentes: as distinções de classe, a distribuição do poder político, as lealdades pessoais divididas entre a família, a província e a nação, valorizavam a tradição e as perpétuas idiossincrasias da história. 

A este liberalismo dissociavam um outro: o "liberalismo totalitário", para descrever o hábito de os liberais terem chamado ao Estado o protagonismo reformista por que apelavam, no sentido de proteger os direitos do trabalho, reforçar os direitos de sufrágio, estender o privilégio da educação, providenciar seguros e benefícios sociais, e assim controlavam o bem estar da sociedade. Por muito urgente que sejam estas reformas, não deixa de ser verdade que olhar para o Estado como uma vasta agência de trabalho-social tem os seus perigos, porque vai investi-lo de um grande poder forçando a liberdade a depender não dos direitos de grupos autónomos e corporações, mas de um governo omnipotente. A esse respeito escrevia Acton:
"Nenhum despotismo é mais completo do que o despotismo dos liberais modernos... A doutrina liberal pressupõe o desejo da liberdade ao desejo de poder, e quanto mais exige uma partilha do poder mais ele é avesso às suas excepções."

As críticas dirigidas ao Estado moderno (ao mundo moderno?) vivenciam a preocupação da destruição dos valores e da ordem das nossas comunidade. O que se tem visto nos últimos cem anos é verdadeiramente a aniquilação de todo o tipo de autoridade, excepto uma, a do próprio Estado. O Estado tornou-se o guardião de todos os valores e de todos os poderes, quer na religião, na nacionalidade ou no poder político.
 Aliás, o estado tornou-se uma unidade singular e as autoridades independentes que formalmente eram os mediadores entre os indivíduos e o Estado (igrejas, as lealdades locais e nacionais e as afiliações dos vários grupos) foram afastados. Mas não deixavam estes homens (Tocqueville, Acton, Mill, Kahan - não vou incluir Burke que merece outra análise) de ser filhos do seu próprio tempo, liberais que viam a neutralidade do estado e incorriam em todo o tipo de fragilidades face ao seu próprio pensamento. Sabiam bem os homens do século XIX que o verdadeiro liberal reverencia Deus mas respeita o diabo, e talvez aí estivesse a insuficiência e contradição do próprio liberalismo. Como alguns críticos apontaram também (e não foram poucos), o liberalismo procura a causa história específica do mal social e da corrupção da moral, mas ao fazê-lo generaliza da forma mais básica a origem desse mesmo mal, não o compreende, e não o consegue combater tão pouco. 

A liberdade, dizia Acton, não reside no poder da maioria para identificar a sua vontade com a do Estado, mas na segurança de uma maioria não ser encurralada por esse Estado. Seria tão indigno a opressão por parte de uma minoria como por parte de uma maioria, daí que rejeitassem a democracia, enquanto domínio da maioria, uma forma degenerativa que se tornava a pior inimiga da liberdade. Herculano seguia o mesmo pensamento entre nós, na defesa da liberdade contra a democracia e ao estudar os antigos forais na tentativa de recuperar o velho municipalismo que perpassará um sonho invicto de republicanos descentralistas e do próprio Integralismo mais tarde (isso fica para outra discussão) procurou, já tardiamente, uma resposta aos males do seu tempo que se verificaria infrutífero.
Seria almejado pela "democracia" a igualdade entre todos, o que pode significar uma tirania pior do que a de um homem só, Tocqueville escreveu algures que a ideia moderna de nivelar as populações numa única classe haveria de agradar a Richelieu, acrescentando que "this level surface facilities the exercise of power." Uniformizar a língua e a cultura torna mais fácil o controlo centralizado e facilita ainda mais o exercício do poder, um qualquer ditador agradeceria.

O mesmo Acton (da primeira fase) que admirava o conservadorismo austríaco, negava que as instituições representativas e o constitucionalismo, eram essenciais para o bom governo e para a própria liberdade, elogiava o feudalismo e elogiava a Inglaterra por assumir a "gloriosa missão de representar na Ásia a civilização cristã." 
Para Acton a Áustria era um ponto valioso da Europa porque preservava a única nobreza real do continente. E defendia que o Antigo Regime da França, com os seus direitos e classes privilegiadas, a França dos direitos provinciais e das liberdades regionais, era preferível à igualdade e centralização que eram o fruto da revolução. Afinal é o mesmo Acton quem defende o direito do Sul à secessão também, e quem vê a subjugação por parte do norte como uma arbitrariedade. O denominador comum deste julgamento era o desejo de ver o poder político distribuído entre uma parte de grupos sociais, multiplicando assim a fonte da autoridade, e nesse sentido quebrar a identidade do Estado e da sociedade. Era o equivalente para a sociedade do princípio do "checks and banlances" no governo. Para Acton interessava a aristocracia como uma utilidade, uma verdadeira força política. 

Mais tarde o velho historiador renegaria estas crenças, o tempo tornou-o menos conservador e mais crítico dessa mesma Áustria que primordialmente o tinha fascinado, não poupando críticas ao feudalismo e mesmo em Edmund Burke, a quem devia o crescimento intelectual que tanto o tinha inspirado nos primeiros tempos, acabava por criticá-lo.  Mas guardou do mestre um interessante mecanismo de crítica através da análise empírica dos factos, negando as distracções metafísicas do direito e da justiça. 
A partir da maturidade começou a preocupar-se mais com o teste prático dos princípios políticos e das instituições, o que o aproximava mais de uma atitude doutrinária. Acton dizia estar disposto a aceitar uma revolução, mas talvez tivesse em mente a revolução americana ou a revolução gloriosa de Inglaterra que, como bem sintetizou Arendt e Russel Kirk "was a revolution not made but prevented". O que procurava era esse sentido de uma "revolução evitada", mais do que uma revolução francesa. Aliás, nas suas considerações sobre a revolução francesa nota-se a influência de Burke, ainda assim descobre-se a contradição: Lord Acton procura equilibrar dois princípios incompatíveis, o puro princípio ético que providencia o incentivo inicial à revolução e à sua justificação moral; e o princípio da liberdade da sociedade que deveria ter sido o resultado dessa revolução, organizada num sistema de "checks and balances". 
Burke dissera que a revolução ao serviço de um ideal absoluto deveria necessariamente dar lugar a um estado ao serviço desse poder absoluto. Se as leis, tradições e irracionalidades da história são sujeitos às discriminações do homem, se elas são julgadas pela consciência a uma lei superior, então o curso da racionalismo leva fatalmente ao absolutismo, porque já não haveria espaço para a multiplicidade de forças sociais relativamente às quais a liberdade depende.  
Acton percebeu esta ideia e escreveu: "Government by idea tends to take in everything, to make the whole of society obedient to the idea. Spaces not so govened are unconquered,  beyond the border, unconverted, unconvinced, a future danger."
Mais frequentemente ignorou os avisos de Burke, acusando-o de substituir a experiência da política pelas percepções da moralidade. Acton não terá percebido o seu mestre, no final da vida incorreu em erro, foi pena.


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Armistício - Recordar



11 de Novembro de 1918 assinala-se o fim da Primeira Guerra Mundial, conflito que formalmente acabou às 11 horas do dia 11 do mês 11, de acordo com armistício assinado entre a Alemanha e os aliados. Em Inglaterra e na Commonwealth seguindo uma tradição inaugurada pelo rei Jorge V o dia passou a intitular-se "Remembrance Day" ou "Poppy Day" porque o símbolo que homenageia os mortos no conflito é uma papoila, adaptado dum poema de John McCrae intitulado "In Flanders Fields" onde fazia referências às papilas que cresciam na campa dos soldados, as mesmas que cobriam os campos da Flandres e que passaram a simbolizar o martírio dos milhares de homens sacrificados numa guerra desastrosa.

Só por curiosidade, em Portugal não assinalamos este dia, o governo da república escolheu o 9 de Abril, data que assinala a derrota dos soldados portugueses face à Alemanha, em La Lys. Ficou-se pela consagração de um túmulo dedicado ao "Soldado Desconhecido", aliás, mais como um acto simbólico, ao qual acresceu toda a mitologia enaltecendo os mortos da guerra, e onde se faz arder a "Chama Eterna". *

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*nota: Em Portugal, vários Núcleos locais e a Direção Central da Liga dos Combatentes assinalaram a evocação deste 97.º aniversário do Armistício da Grande Guerra. Este dia também é chamado de “Dia do Armistício”.




terça-feira, 10 de novembro de 2015

E agora?




Ao início da tarde seguia a manifestação de apoio ao governo, ao fim da tarde ouvia a demissão do governo. Vi pessoas do CDS a manifestarem-se,  com pouca distância dos sindicalistas e grupos anti-governo, que também se manifestavam. Como não sou anti-governo nem pró-governo, não pertencendo a nenhuma organização, nem partido, nem seita, fico como aquela máxima de Sá de Miranda de que ás vezes me espanto outras me envergonho. Espantou-me por momentos o acordo dos partidos de esquerda, afinal o que é que o PS tinha de comum com o PCP e o Bloco? Pouco, mas logo se verá como se entendem as comadres. Espantou-me o assalto ao poder de Costa, nunca gostei do tipo, sempre me pareceu um pequeno tiranete, afinal, pensando bem, não é tão espantoso como julgava. Envergonhou-me o senhor Presidente da República em quase tudo, a falta de atitude a incompetência, o discurso de seita. Até aqui, tudo mal. 
A restante tragédia é como se conhece e o resultado era expectável. Era certo que o governo tinha os dias contados. Agora, se é um assalto ao poder, um "golpe de estado constitucional", se é uma hipocrisia do Costa, maquiavelismo, jogo de interesses? Será tudo isso, mas a legitimidade vale o que vale, i.e., não se trata de dizer, como num jogo de futebol, que se ganhou ou perdeu porque teve mais "pontos" (diremos "votos"), mas o que conta efectivamente é o número de mandatos efectivos. Depois, o PS não está obrigado a fazer acordos apenas com os partidos à sua direita, o fim da suposta "tradição" é que a esquerda uniu-se e o "centrão" cedeu. Verdade que vêm aí os bolcheviques e o assalto ao Palácio de Belém (não é propriamente o Palácio de Inverno dos Czares), e lá vem a direita a agitar o fantasma do PREC, mas o PCP não mete qualquer medo, ao contrário da provocação de quem ainda persegue os comunistas que vêm comer as criancinhas. Acredito que o realismo político falará mais alto. Já se escutaram as vozes da Europa: Schauble e Dijsselbloem já disseram que Portugal vai no bom caminho, o mesmo dizendo que as aventuras anti-euro e anti-austeridade não poderão ir muito longe. Vejamos como cumprirão as promessas para levar a acabo todo aquele projecto: aumentar o salário mínimo? restituir o valor das pensões? acabar com a sobretaxa fiscal? voltar a pagar a TAP com fundos públicos? acabar com a austeridade? Aplaudo, mas vão fazer tudo isto com o dinheiro de quem? (até que acabe o dinheiro dos outros de certeza). 
Podemos não gostar do que aconteceu - esbracejar, gritar, eclodir na cólera feroz - mas o certo é que os resultados falaram por si, e a matemática não engana: 123 é maior do que 107. A esquerda está em maioria. É a vida. Melhor: é a democracia. O problema já não é constitucional, nem parlamentar, é apenas de álgebra. Quanto à direita, agora derrotada - bem ou mal, legitima ou ilegitimamente, como pretendam interpretar esta queda - aproveitem para pôr a mão na consciência, aprendam bem a lição, doutrinem-se, leiam, estudem, o que falta é pensamento.  



domingo, 8 de novembro de 2015

Homens Livres



Homens "livres e seguros" precisam-se para uma regeneração nacional. 
Livres da Finança & dos Partidos. 
A revista que uniu o Pelicano e a Seara. 

“Anima-nos o mesmo fogo sagrado contra a barbaria dos tempos presentes, – é nosso comum mandamento desafrontar o claro sorriso de Minerva das fumaradas insolentes de Vulcano…A esse brado respondemos sempre a tudo que seja por Portugal e a que não falte o selo dignificador da inteligência”.



sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O Anjo

Paul Klee, Angelus Novus, 1920. Museu de Jerusalém.


Sei que isto é um pouco um corolário básico e um lugar comum extraído de uma imagem de Klee, o Angelus Novus (O Anjo da História), o qual vale mais pelas interpretações feitas do que pelo traço, a verdade é que a análise de Walter Benjamim tem uma inspiração um pouco baudelairiana (em "As flores do Mal" leia-se o poema “Une gravure fantastique" que vai ao encontro do sentimento do filósofo), mitigada pelas influências que entretanto tinha apreendido na filosofia clássica e essencialmente no fascínio descoberto nas alegorias religiosas. No fundo o filósofo vive o conflito entre o sagrado e o profano, o progresso e a condenação ao inferno. As linhas de um homem desesperado com o curso da história:

"Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Temos olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas.O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés.
Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Este vendaval arrasta- o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval." - Walter Benjamim