sexta-feira, 10 de outubro de 2014

As virtudes do príncipe



«O século XVI foi peculiarmente fecundo em produção literária no âmbito da teorização política. Particularmente nos tratados de educação de príncipes, como o demonstrou no seu estudo Nair Castro Soares, o modelo de príncipe do humanismo português configura um tipo de governante que ‘se impõe como exemplo para todos e detém nas suas mãos o destino da república’, por isso se lhe exigem ‘as virtudes morais, a bondade cristã, uma cultura egrégia adequada à formação do carácter e ao melhor discernimento, uma preparação cívica e política que o levem a desempenho digno do mais alto cargo nacional’ (Soares: 1994, 439).
A imagem de D. João IV espelhada no Mausoleum, se não coincide exactamente com a imagem do príncipe ideal do humanismo português, em nada contrasta com ela, pelo contrário. A pedagogia jesuítica em cujo contexto Francisco Machado compõe o Mausoleum, baseada em Aristóteles, no humanismo ciceroniano e nos Exercícios Espirituais, recebe esta imagem de 'princeps christianus', dominado pelo primado da virtude, necessariamente levada à prática. Neste ideal, a educação para a virtude completa a formação intelectual e religiosa do príncipe, cuja formação integral tem como sentido último o serviço à comunidade. 
Este ideal de princeps que sobrevive no séc. XVII está presente no ideal de ‘rei cristianíssimo’ retratado no Mausoleum, como veremos, e partilha do generalizado influxo ético em todos os domínios da acção humana, influxo que a pedagogia jesuítica configurou plenamente. Basta recordarmos o ideal de perfeição activamente procurado numa educação para o heroísmo e para a santidade, dirigida às novas gerações de membros da Companhia ou, de um modo geral, numa educação para a excelência dirigida a todos os alunos dos seus colégios.
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Essas virtudes são: Felicitatem, Modestiam, Charitatem, Prudentiam, Providentiam, Iustitiam,b Clementiam, Affabilitatem, Fortitudinem, Constantiam, Longanimitatem, Veritatem, Liberalitatem, Magnificentiam, Religionem e Pietatem.
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Somam-se ainda outras virtudes especialmente adequadas e necessárias ao príncipe. São elas a Liberalidade, a Magnificência, a Honra (em Francisco Machado designada como Verdade) e a Clemência. A este elenco, Francisco Machado acrescenta ainda a Afabilidade, a Longanimidade, a Providência, a Constância, a Caridade e a Felicidade. 
A simples enunciação destas virtudes permite-nos reafirmar que o opúsculo de Francisco Machado deve ser lido, necessariamente, à luz do ideal humanista do príncipe, mas mais especificamente ainda à luz da concepção de ‘política cristã’ desenvolvida nos séc. XVI e XVII numa linha anti-maquiavélica. Dessa concepção de política cristã temos exemplos em autores peninsulares como o jesuíta Pedro Ribadeneira ou António de Sousa de Macedo, entre outros, cujas obras nos apresenta Luis Reis Torgal no seu estudo "Ideologia política e teoria do Estado na Restauração".»

Carlota Miranda Urbano, Universidade de Coimbra (2011).

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