domingo, 26 de outubro de 2014

O fenómeno Maurras



The Maurras phenomenon deserves to be studied seriously for an understanding of European history in the first half of the twentieth century—the struggle for and against democracy—and also because ignoring it leaves a vacuum for misjudgments in political theory and practice. Half a century after his death, the picture is rather clear even if it has to be unearthed from under layers of taboo and other layers of newspeak. Like all the important political writers—Plato, St. Augustine, Machiavelli, Hobbes, Max Weber—Maurras reacted to what he perceived as a dangerous decline of sobriety in politics, but he refused to become “universally valid” in a century demanding global diagnoses and global remedies. His sole interest was France. 

In the eyes of his critics, he thus became a narrow nationalist, but not in the eyes of those aware of his enormous influence and of his attempt to integrate political thought with a Mediterranean overview, and thus with a classical vision. In a romantic and sentimental age, Maurras tried to rehabilitate rationality as a political interpretation of the real, although he was not too sanguine about the “future of intelligence,” the title of one of his volumes (L’avenir de l’intelligence, 1905). 

Much more influential was the above mentioned Démocratie religieuse (1906–1913) in which he tears to shreds the utopian infiltration of Church doctrine and politics. In a way, Maritain’s public writing career was an answer to the thesis of these volumes, and it is perhaps not incorrect to opine that the second Vatican Council (1962–1965) itself meant to be a final liquidation of the Maurrassian critique of a social and sentimental Catholicism. The controversy is not likely to end soon. 

in, Charles Maurras, Shaper of an Age
Thomas Molnar (MA 41:4, Fall 1999) - 12/11/08

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Ainda Alfredo Pimenta



"Era para substituir um Rei sem coroa por um Presidente coroado, que nós andávamos na brecha pregando doutrinas sãs, estabelecendo princípios úteis ? Era para voltarmos à nefasta política do Rei que reina mas não governa, do Rei chancella, do Rei-abulico, do Rei-irresponsável, do Rei-phantasma, que nós todos nos andávamos a sacrificar dia a dia? Era para Voltarmos ao regime das clientellas, das camarilhas, dos grupelhos, das burlas eleitoraes, das conspiraçoens palacianas, das pressoens sobre o Rei, das chantages de corredores parlamentares, da farçada democrático-constitucional, que nós todos andávamos a alimentar esperanças em melhores dias? Era para Voltarmos à Monarchia sem monárchicos que sepultou D. Carlos e atirou para o exílio com o Sr. D. Manoel, que nós combatíamos?
Pois quê?! Ainda se estava nessa illuzão, nessa dissolvente cegueira,— a ponto de, logo, com pressa, com receio de que não houvesse tempo, se restaurar a Carta Constitucional, fonte primária de República? 
Oitenta annos de realidade constitucionalista seguidos de oito annos de experiência republicana, não bastavam para convencer a mentalidade portugueza, de que a Nação tem de procurar em moldes differentes dos da Carta Constitucional, a sua organização política? Esse longo calvário de sophismas não foi o bastante para nos desilludir, e dar ao nosso espírito um rumo diverso? Ainda há uem não esteja convencido de que o regime republicano é filho directo do liberalismo constitucionalista?
Pois quê ? ! HaViamos de voltar ao regime das facçoens e das intrigas, em que o Rei era cabeça de turco entre as ambiçoens dos políticos? HaViamos de regressar àquela atmosphera mephítica que nos envenenou, que nos subverteu, que nos anarchisou, que nos trouxe ao estado deplorável em que nos encontramos hoje? Desconhecemos porventura que o hoje de hoje é filho de hontem ? HaViamos de continuar na situação estructuralmente revolucionária que 1820 iniciou, e que 1910 consa- 
grou ?
Não ignoramos que as condiçoens actuais da política mundial exigem um regime político baseado numa constituição. Simplesmente essa constituição não poderia de maneira alguma ser a Carta Constitucional, — a não ser que quizessemos voltar ao Erro, regressar ao Mal, repetir a Aventura criminosa.
Noutra occasião, pudemos nós dizer o que pensávamos sobre quais deviam ser as bases do Estatuto fundamental da Monarchia• Quem conheça esse nosso trabalho facilmente comprehende que não podíamos de maneira alguma sancionar uma revolução que tivesse por fim restaurar a Carta Constitucional. Para isso, não daríamos o nosso mais ligeiro voto. Para isso, não daríamos o nosso mais fraco apoio. Queriamos e queremos o Rei. 
Mas não queriamos, não queremos, e não queremos nunca o regime da Carta Constitucional que uma longa experiência desacreditou no espírito de todos os homens, que se não movem por interesses partidários, por ambiçoens mesquinhas, por intençoens inconfessáveis, ou por ficçoens.
Fazer uma revolução para salvar a Nação, — Vá ! Obrigar a Nação a correr os riscos de uma guerra civil, para restabelecer a Ordem e a Disciplina, para estimular o sentimento da Obediência, — seja ! Mas fazer uma revolução para restaurar a Carta e os actos adicionais, — não, não e não !"

"A revolução monarchica" (1919), Alfredo Pimenta.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Palavras de Alfredo Pimenta



"Eu não Vim para a Monarchia simplesmente como um descrente na República : eu Vim para a Monarchia, como um crente em certos princípios monárchicos. O meo acto não foi um acto negativista de desgostado e sceptico: foi um acto affirmativo de combativo e crente. Trouxe princípios — não princípios abstractos ou subjectivos, mas sim princípios produzidos pelo estudo reflectido, e corrigidos e modificados pelos factos. Eu cri e creio nas vantagens, na superioridade theórica e prática da Monarchia, mas de uma Monarchia monárchica, e não de uma Monarchia republicana.

Proclamar a Monarchia era o acto essencial, fundamental, primário. Manter a ordem pública, era o acto immediato. Tudo o mais era ou secundário, ou dispensável, ou episódico. Proclamar a Monarchia, e assegural-a. Restabelecer a ordem, e mantel-a.

O resto — só depois de ella proclamada e assegurada, da ordem estabelecida — e não era com os revolucionários, mas com os pensadores, os estadistas, os responsáveis."

"A Revolução Monarchica" (1919), Alfredo Pimenta
(clique no link para ler texto integral)

domingo, 19 de outubro de 2014

Vive Louis XVI ! 1789




Vive Louis XVI ce bon roi citoyen
son coeur est aise de faire notre bien
vive Louis XVI ce bon roi citoyen

vive sans cesse nos dignes députés
dont la sagesse fait nos félicités
vive sans cesse nos dignes députés,

vive la France , vive la liberté
paix, abondance,justice , égalité
vive la France , vive la liberté


Vive Louis XVI
Marcha monárquica, 1789


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O que a surdez de Charles Maurras nos revelou





Ainda duas palavras sobre a figura de Charles Maurras, ou até sobre o segredo de sua grande alma.
É coisa sabida que a surdez, embora menos grave, predispõe mais do que a cegueira à irritação e à amargura. Mas a "tragi-comédie de la surdité" produziu em Maurras efeitos e reações que só se explicam pela incomum grandeza d'alma. Pierre Gaxotte, que foi seu secretário, comentando a extraordinária paciência com que Maurras atendia os mais importantes visitantes na redação, disse-lhe um dia:
— O senhor é a Providência dos maçantes.
E logo Maurras explicou-lhe.
— Eu tenho necessidade de ouvir, de me informar. Todas as
pessoas que recebo me ensinam alguma coisa que vocês podem ouvir de longe. Eu as ouço de perto... Nunca saiu alguém de meu escritório sem me deixar enriquecido... 
E em outra circunstância, mais liricamente, ele explicava que ademais os "importunos" lhe traziam um consolo especial. Os amigos, os companheiros de luta, especialmente na redação, já se haviam habituado a lhe falar num estilo condensado e reduzido ao essencial, mas os "raseurs" lhe traziam o supérfluo; ora, o supérfluo era o que importava, era o que lhe trazia a notícia deliciosa do modo comum com que os homens não murados conversavam.
Henri Massis (19) descreve maravilhosamente a atenção com que Maurras ouvia os moços, e a delicadeza... ah! quem poderá dizer o que era a cortesia, a polidez incansável desse homem que muitos só conhecem pelas furibundas manifestações de cólera!
E assim, por toda a sua longa vida, sofrendo todas as espécies de injustiças e perseguições, o pletórico, o vulcânico Charles Maurras sempre guardou intacta uma reserva de profunda doçura para a cortesia e para a amizade, essas antigas virtudes dos franceses da antiga França. E é assim que lá adiante, no auge do sofrimento, no topo dos arcabouços da mais cruel injustiça, é assim que o encontraremos quando a Fé recalcada, murada, ensurdenizada, misteriosamente emerge, aflora, e o velho soldado pode dizer.. . 
Mas não antecipemos, que ainda é preciso percorrer um grande lanço de estrada.


in, Gustavo Corção, "O Século do Nada" 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

As virtudes do príncipe



«O século XVI foi peculiarmente fecundo em produção literária no âmbito da teorização política. Particularmente nos tratados de educação de príncipes, como o demonstrou no seu estudo Nair Castro Soares, o modelo de príncipe do humanismo português configura um tipo de governante que ‘se impõe como exemplo para todos e detém nas suas mãos o destino da república’, por isso se lhe exigem ‘as virtudes morais, a bondade cristã, uma cultura egrégia adequada à formação do carácter e ao melhor discernimento, uma preparação cívica e política que o levem a desempenho digno do mais alto cargo nacional’ (Soares: 1994, 439).
A imagem de D. João IV espelhada no Mausoleum, se não coincide exactamente com a imagem do príncipe ideal do humanismo português, em nada contrasta com ela, pelo contrário. A pedagogia jesuítica em cujo contexto Francisco Machado compõe o Mausoleum, baseada em Aristóteles, no humanismo ciceroniano e nos Exercícios Espirituais, recebe esta imagem de 'princeps christianus', dominado pelo primado da virtude, necessariamente levada à prática. Neste ideal, a educação para a virtude completa a formação intelectual e religiosa do príncipe, cuja formação integral tem como sentido último o serviço à comunidade. 
Este ideal de princeps que sobrevive no séc. XVII está presente no ideal de ‘rei cristianíssimo’ retratado no Mausoleum, como veremos, e partilha do generalizado influxo ético em todos os domínios da acção humana, influxo que a pedagogia jesuítica configurou plenamente. Basta recordarmos o ideal de perfeição activamente procurado numa educação para o heroísmo e para a santidade, dirigida às novas gerações de membros da Companhia ou, de um modo geral, numa educação para a excelência dirigida a todos os alunos dos seus colégios.
(...)
Essas virtudes são: Felicitatem, Modestiam, Charitatem, Prudentiam, Providentiam, Iustitiam,b Clementiam, Affabilitatem, Fortitudinem, Constantiam, Longanimitatem, Veritatem, Liberalitatem, Magnificentiam, Religionem e Pietatem.
(...)
Somam-se ainda outras virtudes especialmente adequadas e necessárias ao príncipe. São elas a Liberalidade, a Magnificência, a Honra (em Francisco Machado designada como Verdade) e a Clemência. A este elenco, Francisco Machado acrescenta ainda a Afabilidade, a Longanimidade, a Providência, a Constância, a Caridade e a Felicidade. 
A simples enunciação destas virtudes permite-nos reafirmar que o opúsculo de Francisco Machado deve ser lido, necessariamente, à luz do ideal humanista do príncipe, mas mais especificamente ainda à luz da concepção de ‘política cristã’ desenvolvida nos séc. XVI e XVII numa linha anti-maquiavélica. Dessa concepção de política cristã temos exemplos em autores peninsulares como o jesuíta Pedro Ribadeneira ou António de Sousa de Macedo, entre outros, cujas obras nos apresenta Luis Reis Torgal no seu estudo "Ideologia política e teoria do Estado na Restauração".»

Carlota Miranda Urbano, Universidade de Coimbra (2011).

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Mais um 5 de Outubro...

 


Cedo percebi como era difícil ser monárquico em Portugal, quando esse ensejo não é motivado por genealogias ou por ficções familiares, nem tão pouco exibicionismos baratos entre brasões e heráldicas, mas pelo puro interesse intelectual, livre e esclarecido, uma forma de pensar e agir, sem partidarismos, ou, mais generalizadamente, a compreensão de uma história de oito séculos motivada pelos trinta e quatro reis que edificaram a nação, de 1143 ao fatídico dia na rotunda em 1910. Mas a história continua, sem "rei nem lei, nem paz nem guerra", nas sombrias palavras do poeta que anunciava "é a Hora". O interregno dura e com ele o nosso descontentamento, a frustração de viver agrilhoado a este regime vendido e corrupto.

Reconheço a história de Portugal no valor dos seus monarcas que ao longo de quatro dinastias delimitaram as fronteiras de Portugal, concebendo a independência da pátria. E, mesmo quando perdida a independência, em 1580, logo a coroa lusa foi restaurada em 1640, na pessoa de El-rei D.João IV, a quem o jesuíta Francisco Machado cognominou "um rei para a res publica", ideia associada a uma matriz ética e cristã ao exercício do poder político. Ainda à salvaguarda da independência, soube D, João VI reagir às ambições do ditador Napoleão, colocando-se no outro lado do mar, feito que apenas beneficiou as terras do Brasil, depois idealizado como Reino Unido de Portugal e do Brasil. Ou os feitos gloriosos que tanto entusiasmam a memória colectiva, motivados pela visão de um Infante D. Henrique e daqueles milhares de homens que lançaram obra e esforço além-mar, legando às gerações vindouras um Portugal maior, e que hoje representativamente enlaça povos e culturas distintas, conquanto se reconheçam nesse comum da língua portuguesa. Passada a fase dos heróis das "Descobertas", dos vice-reis da índia, dos capitães do Brasil, dos “africanos” e do sonho do Império, novamente ficámos entregues às fronteiras anteriores a 1415, ao Portugal peninsular voltado para o Atlântico.

Foi a monarquia portuguesa quem conduziu a liberdade, hoje confundida nos slogans abrileiros repetidos ad nauseam, e até o totalitarismo comunista é justificável. Antes dele já a república pululava em demagogia e em pequenos tiranetes, herdeiros da ignomínia de  1820, liderada por homens irresponsáveis nas reformas perpetradas pela força.  A verdadeira liberdade fora já conhecida em 1385 e em 1640, celebrada nas palavras de Francisco Machado, que associava a virtude ao vínculo que unia o rei à "respublica", dizendo: "O direito hereditário unido ao amor da pátria afastou o perigo, reclamou a liberdade e firmou a coroa."

Por ora resta-me proferir que, em nome da liberdade, monárquico me confesso. Aos mais incautos adverte-se, que não se trata aqui de defender o apanágio do sacro-santo demo-liberalismo, mas invocar a liberdade da pátria sempre ameaçada pelo império de Castela, a liberdade que apenas a hereditariedade e a tradição podem garantir. Não a liberdade usurpada pelos interesses do nosso "arco da governação", nem as indiferentes celebrações de cravo na lapela, ou tão pouco a confraternização com essa maçonaria burguesa e serôdia de avozinhos gritando vivas à república...

A verdade é que, se não me confessasse monárquico, tão pouco me julgaria (jamais) republicano, porque « quand je songe que j'ai été républicain, je me battrais. » (diriam os militantes da Action Française). Ao invocar o nome República invoco a expressão latina Res publica, um conceito desvirtuado pela propaganda jacobina, copiosa daquele galicismo revolucionário de Robespierre, Marrat, Danton. A República de barrete frígido que procurava imitar a França revolucionária na sua simbologia e na sua mística, num tempo em que as alegorias à revolução francesa pareciam tão retrógradas como ultrapassadas. Tal como os liberais, os Republicanos, seus afilhados, não passavam de plagiadores políticos dos modelos estrangeiros.

 Já não se conhece a "Respublica" idealizada pela pena de Diogo Lopes Rebelo, pelo Infante D. Pedro, pelo jesuíta Francisco Machado, ou as "almas republicanas" (assim atacou António Sérgio) de António Sardinha, Luís de Almeida Braga, Hipólito Raposo, verdadeiramente crentes na superioridade da instituição monárquica.

Ao passar os olhos por vários textos do Professor José Adelino Maltez, de Mário Saraiva, ou de Henrique Barrilaro Ruas, descubro o revigoramento desses paradoxos semânticos (por vezes acusados de contra-senso), apenas compreensíveis numa leitura mais atenta relativamente às especificidades da nossa origem e da nossa organização política, que, desde Afonso I a Afonso IV afirma Portugal como reino independente, num paradigma diferente ao da Europa de então. Em Portugal torna-se perceptível a precoce centralização do poder, a criação de uma administração que muito deveu à subjugação dos interesses nobiliárquicos e à afirmação do poder Real.

Juristas e teorizadores políticos souberam pensar a “Res publica”. Diogo Lopes Rebelo, cujo tratado “De republica gubernanda per regem” (“Do bom governo da República pelo rei”) é característico, vem ao encontro da tradição portuguesa. Os próprios monarcas empregavam a palavra “República” como sinónimo de “Reino”, tão bem expresso na fórmula usual: “para serviço de Deus, meu e bem da República...” A realeza do rei completava a República, uma certeza tão elementar e uma realidade tão bem aceite que o próprio padre António Vieira chegou a escrever: “temos um rei muito repúblico”.

Não perdi, porém, o meu cepticismo, nem vejo na nostalgia de épocas passadas a solução aos dilemas do presente. Não enlaça, portanto, imperialismos ou exacerbações políticas duvidosas., os modelos copiosos do estrangeiro, a xenofobia e o extremismo. Desprezo o radicalismo vácuo, a grande mobilização da multidão acéfala (o totalitarismo moderno), como já enunciara Le Bon. E não suporto tão-pouco os apóstatas que se servem da instituição monárquica apenas para minar as suas forças.

Da monarquia não espero a solução aos nossos dramas presentes, nem a finalidade última que nos conduzirá a uma felicidade eterna (ironizando o ensejo ingénuo de muitos). A viva crença que vem urgindo pela substituição do presidente, dito, "da república", por um rei, chamado, "constitucional", não me convence de todo, por muito “Realista” que seja. Diria Maurras:  La nécessité d'un recours au Roi. 

Os meus amigos republicanos, quando num momento de maior tolerância, olham a monarquia apenas como constitucional, admirando-a de forma passível, na sua inércia, com uma "rainha à inglesa", i.e., que "reina, mas não governa", um símbolo jocoso e fácil de tolerar, dizem tratar-se de desígnios do tempo, no fundo, não vislumbrando alternativas aos sistemas republicanos hodiernos.

Falando agora  nos próprios monárquicos, estes anseiam pela “nova constituição”, isto é: substituir o presidente pelo rei, aplaudindo as monarquias nórdicas como exemplares, mas podiam também aplaudir a "republicanissima" Finlândia, o que me leva a perguntar, com amarga ironia: se esses países são desenvolvidos por serem monarquias, ou se têm monarquias por serem desenvolvidos? Nada mais absurdo nestas comparações. Nada mais incómodo do que ignorar a nossa própria herança histórica, os nosso padrões, os nosso valores, sempre renegados em nome de cópias estrangeiras.

Pergunto-me se estará a sociedade portuguesa preparada para abraçar a instituição monárquica. Eis o meu cepticismo e os meus receios maiores, ao constatar no desvirtuamento das ideias, na vacuidade mental, no ódio, nos recalcamentos aditados ao rancor para com todas as formas de poder. Uma herança grandemente devida à literatura positivista do século XIX.

A historiografia desde o liberalismo, e depois com a “Geração de 70”, assombraram o passado português com as mais obscuras memórias. Oliveira Martins analisou a história de Portugal imbuído num profuso“pessimismo critico” (Jesus Pábon), reconhecendo apenas indivíduos imorais, juízes corrompidos, aristocratas apodrecidos, sacerdotes de vocação duvidosa e a decadência dos reis a quem apontava loucuras, defeitos e vícios. Para este historiador o “passado é sombrio”.

As gerações que vibraram com a Questão Coimbrã e, mais tarde, com o Ultimatum Britânico, depressa nomearam três figuras representativas da iminente decadência portuguesa: o Rei, o jesuíta e o Inglês. Desta historiografia, desta intelectualidade abusiva, ainda não nos livrámos, e muitos dos preconceitos hoje criados em torno da instituição Real a ela se devem.

Quanto ao 5 de Outubro, este passou a ser conjurado pela mítica republicana como um dia de “liberdade” que apenas pode ser compreendido à luz da propaganda da época. Se é certo que a literatura republicana se recheou dum patriotismo exaltante, dum anticlericalismo fanático, e de uma retórica vibrante, proclamando os “imortais princípios” (António Sardinha dixit), “liberdade, igualdade e fraternidade”, indubitavelmente constata-se que esses “princípios” não se realizaram na prática. Nem podiam, tão pouco, realizar-se, na confusão em que se enlaçou o regime, caricaturalmente parlamentar, por vezes sujeito à “ditadura das ruas”, aliás, sistema completamente desfasado da realidade portuguesa e longe de ser compreendido pelo próprio povo.

O dia 5 de Outubro como início da República apenas lembra a divisão, e não a união dos portugueses. Como português de cepa que sou celebro o 5 de Outubro de há oito séculos, aquele dia em que foi reconhecida a realeza de D. Afonso Henriques, confirmando assim a independência do Reino, depois consagrada pela Bula Manifestis Probatum de 1179. Prefiro celebrar Portugal, a "Lusitânia antiga liberdade", a celebrar a "República-que-se-diz-portuguesa", uma cerimónia fúnebre de discursos ocos lembrando a morte de um rei e de um jovem príncipe, o terrorismo, a institucionalização da desordem, o caciquismo militar, as perseguições às ordens religiosas.  É preciso ressuscitar Portugal, com o Rei, tal como ficou imortalizado no grito de Almacave: "Nos liberi sumus, Rex noster liber est, manus nostrae nos liberverunt" (Nós somos livres, nosso Rei é livre, nossas mãos nos libertaram).

Lembro as palavras de Francisco Sousa Tavares: "E a Coroa não pode nem deve ser um sinal de divisão, ou uma sigla de partidos. Mas sim o cristal em que todos os portugueses possam encontrar a sua imagem. O cristal é frágil. E não sei até que ponto, quando se quebra pode readquirir o seu brilho e a sua transparência."


pelo rei e pela grei 


domingo, 5 de outubro de 2014

5 de Outubro... de 1143


5 de Outubro de 1143, "Tratado de Zamora", esta é considerada como a data da independência de Portugal e o início da dinastia afonsina. Foi um diploma resultante da conferência de paz entre D. Afonso Henriques e seu primo, Afonso VII de Leão e Castela.